water restrictions cape town Morgana Wingard/Getty Images

Fortalecer a resiliência climática de África

CIDADE DO CABO - A luta contra as alterações climáticas poderá ser reformulada no último mês do ano, com a recém-concluída cimeira do G20, na Argentina, e com a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas (COP24) que terá lugar esta semana, e na semana que vem, em Katowice, Polónia. Mas será que os líderes serão destemidos o suficiente para defenderem políticas ousadas,  de forma a manterem o aumento da temperatura global “bem abaixo” dos 2 ° Celsius acima dos níveis pré-industriais, a meta estabelecida pelo Acordo climático de Paris, ou irão responder com um encolher de ombros coletivo?

Qualquer que seja a resposta, as consequências serão sentidas mais intensamente em África.

Isso significa que os africanos devem estar preparados para qualquer um dos resultados.

Em outubro, o Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas divulgou um relatório abrangente a demonstrar que as atividades antropogénicas aqueceram o planeta em 1 °C, desde a era pré-industrial, e que cada fração adicional de um grau irá impor custos elevados. Por exemplo, até 2020, África irá gastar entre sete a 15 mil milhões de dólares anualmente para se adaptar às alterações climáticas e mesmo que o aquecimento seja mantido abaixo do limite dos 2 °C, a fatura poderá atingir os 50 mil milhões de dólares até 2050. Os países do Sahel também poderão sofrer descidas do PIB de até 6% nas próximas décadas, como resultado da pressão hídrica relacionada com o clima.

Por outras palavras, o mundo tem de reduzir as emissões de gases com efeito de estufa e África tem de se adaptar às perturbações climáticas do clima que já se revelam. Felizmente, políticas e investimentos proativos na área do desenvolvimento sustentável podem originar uma onda de oportunidades económicas, que por sua vez poderão tornar a adaptação mais controlável.

Um relatório divulgado em agosto, pela Comissão Global sobre a Economia e o Clima, da qual sou membro, constatou que se o mundo caminhasse em direção a uma economia de baixo carbono - por exemplo, eliminando gradualmente os subsídios para combustíveis fósseis, impedindo a desflorestação e colocando mais veículos elétricos na estrada - poderiam ser adicionados à economia mundial 26 biliões de dólares, até 2030. A ambiciosa ação climática também poderia criar mais de 65 milhões de novos postos de trabalho relacionados com uma baixa emissão de carbono, evitar 700 mil mortes por poluição do ar, todos os anos, e conduzir a uma participação mais elevada das mulheres no mercado de trabalho.

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Com mais de 450 milhões de trabalhadores prontos para entrar mo mercado de trabalho, até 2035, a maioria das economias africanas terá de inovar para se manter forte; uma das melhores maneiras de fazer isso é com um crescimento “mais verde”. Isto é verdade até mesmo - ou principalmente - para uma indústria tradicional como a agricultura, que contribui por até 60% dos postos de trabalho do continente, mas que é especialmente vulnerável a secas e outros choques climáticos.

Algumas comunidades já estão a demonstrar que é possível adaptarem-se às alterações climáticas e aumentarem os rendimentos durante o processo. No Uganda, por exemplo, 270 pequenos agricultores estão a utilizar drones para distribuir água, fertilizantes e pesticidas com mais precisão. O projeto piloto, lançado em 2015 com o apoio da TechnoServe e da Fundação Bill & Melinda Gates, provocou uma diminuição de 60% no uso de pesticidas e um aumento de 100% na produtividade. O rendimento das explorações anual aumentou em média 2150 dólares, o que demonstra que aumentar a produtividade e conservar recursos pode fortalecer a resiliência agrária mesmo em condições mais severas.

A inovação também será necessária nas cidades africanas; até 2050, a população urbana de África aumentará mais do dobro, para 2,4 mil milhões de pessoas, e não será fácil isolar estas comunidades das perturbações climáticas. Mas, como grande parte das infraestruturas que sustentará esse crescimento ainda não foi construída, ainda temos tempo para garantir que as nossas áreas urbanas sejam resistentes ao clima e orientadas para o desenvolvimento de baixo carbono.

Aqui também há exemplos promissores para imitar. Em 2008, Lagos tornou-se a primeira cidade africana a construir um sistema de autocarros rápidos. A rede simples e eficaz custou 1,7 milhões de dólares por quilómetro, um preço relativamente baixo que permitiu à cidade recuperar o seu investimento em apenas 18 meses. Além de diminuir as emissões de dióxido de carbono e melhorar a qualidade do ar, o novo sistema de trânsito da cidade também reduziu os tempos de viagem numa média de 30% e reduziu os custos de transporte das famílias de baixo rendimento, ao longo do percurso, em até 31%.

Após décadas de investigação, o mundo tem uma compreensão mais clara dos benefícios económicos de um desenvolvimento com baixa emissão de carbono. Também temos um maior apreço pelos custos que acarretam a não reação ao desafio das alterações climáticas. Com tecnologias novas e mais baratas, os governos têm as ferramentas para criarem economias mais fortes e sustentáveis.

O que falta muitas vezes é a liderança, uma lacuna que pode ser colmatada nas próximas semanas. Os responsáveis devem voltar a comprometer-se com o crescimento verde e a canalizar investimentos para projetos resilientes às alterações climáticas.

Os empresários e os responsáveis locais de África já demonstraram a sua determinação em fazê-lo; o que eles precisam agora é de líderes mundiais ousados que se juntarão a eles.

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