10

Uma má aposta na biologia sintética

LAS VEGAS – Las Vegas parece ser um lugar apropriado para lançar uma aposta empresarial arriscada, susceptível de destruir o meio de subsistência de milhões de pequenos agricultores. No início deste mês, o conglomerado internacional de produtos alimentares Cargill escolheu a célebre zona do Las Vegas Strip para apresentar o que a empresa espera venha a ser o seu próximo produto de sucesso: o EverSweet, um edulcorante produzido a partir "dos mesmos componentes doces da planta stevia."

Contudo, apesar de a Cargill fazer uma forte referência à stevia nos seus materiais promocionais, o EverSweet não contém uma única folha desta planta. O novo produto da Cargill é um exemplo da biologia sintética, uma forma de engenharia genética que utiliza organismos modificados para produzir compostos que nunca seriam produzidos de forma natural. O sabor doce do EverSweet não tem origem na stevia, mas sim num composto produzido por uma levedura resultante de um processo de bioengenharia.

Aleppo

A World Besieged

From Aleppo and North Korea to the European Commission and the Federal Reserve, the global order’s fracture points continue to deepen. Nina Khrushcheva, Stephen Roach, Nasser Saidi, and others assess the most important risks.

A biologia sintética é uma tecnologia bastante avançada, mas comporta também um risco potencial elevado. Mobilizando milhares de milhões de dólares em investimento, suscita actualmente uma preocupação crescente a nível internacional. É revelador o facto de a Cargill não fazer a promoção do seu produto em torno da utilização de uma tecnologia controversa, mas sim classificando o EverSweet como o produto de uma "levedura de panificação de fabrico especial", como se fosse uma receita existente há séculos nas aldeias da Baviera.

A determinação dos riscos que podem advir de ingredientes alimentares produzidos a partir deste tipo de engenharia genética (diferente dos que se conhecem de outros tipos de alimentos transgénicos) ainda se encontra numa fase inicial. Num parecer recente, vários comités científicos da União Europeia concluíram que, embora a avaliação dos riscos aplicada aos organismos geneticamente modificados deva ser aplicável a determinados aspectos da biologia sintética, em determinados casos podem ser necessárias novas abordagens para avaliar a segurança desta tecnologia.

No entanto, há um domínio em que os perigos já são evidentes: o prejuízo económico que resultará da substituição da stevia cultivada em campos por compostos cultivados em laboratório. No Paraguai, o povo indígena guarani cultiva e utiliza esta planta há séculos. Mais recentemente, tornou-se mania na indústria alimentar, em parte motivada pelo receio de instauração de acções judiciais associadas à obesidade. Quando grandes marcas como a Coca-Cola e a Pepsi começaram a comercializar massivamente bebidas de cola adoçadas com stevia como sendo naturais e saudáveis, a superfície agrícola desta planta expandiu-se significativamente. De acordo com as previsões de analistas, o mercado da stevia ascenderá a 275 milhões de dólares em 2017.

Os principais produtores de stevia a nível mundial são o Paraguai, a China e os EUA, seguidos de perto pelo Quénia. No início de 2015, Marian Bassey (representante do Grupo ETC) reuniu-se com produtores de stevia no Quénia para compreender que consequências poderia ter para eles a concorrência da biologia sintética. Mostraram-se bastante preocupados. Para Ann Nduta Kanini, viúva e com oito filhos, a comercialização da stevia permitiu-lhe enviar os seus filhos para a escola e pôr comida na mesa. Quando perguntamos a Paul Mwangi Kigaa, outro pequeno agricultor, o que representaria para ele e para os seus vizinhos a utilização da biologia sintética por parte da Cargill, respondeu: "A produção de stevia nas suas fábricas afectará as nossas vidas!"

Além disso, os agricultores pobres foram fortemente encorajados a investir em stevia, dado que o cultivo desta planta pode contribuir para a preservação de ecossistemas frágeis e únicos. No seu estudo anual sobre os principais riscos mundiais, o Fórum Económico Mundial sublinhou que "a invenção de alternativas sintéticas baratas às exportações agrícolas de valor elevado (...) era susceptível de causar uma desestabilização brusca em certas economias vulneráveis, dado que tais alternativas eliminariam uma fonte de rendimentos de que dependem os agricultores".

Além disso, os produtores de stevia não são os únicos que devem preocupar-se. Entre os ingredientes que são substituídos ou susceptíveis de ser trocados por produtos resultantes da biologia sintética incluem-se a baunilha, o açafrão, o óleo de coco, o patchouli, o esqualeno presente no azeite e o óleo de rosas. Na verdade, as maiores empresas mundiais de cosmética, aromas e perfumes esperam que a biologia sintética as ajude a substituir mais de 200 extractos botânicos naturais. De acordo com a Federação Internacional de Comércio de Óleos essenciais e Aromas (IFEAT), cerca de 95% destes produtos botânicos são produzidos por pequenos agricultores, proporcionando rendimentos muito necessários a algumas das comunidades mais pobres do mundo.

Felizmente, os consumidores estão cada vez mais conscientes dos riscos decorrentes da biologia sintética, e as empresas estão a reagir em conformidade. No início deste ano, a célebre marca de gelados Ben e Jerry comprometeu-se a não utilizar ingredientes produzidos por meio da biologia sintética. Analogamente, a Häagen-Dazs confirmou que não utilizará nos seus gelados aroma de baunilha produzido através da biologia sintética. E, após ter recebido uma petição assinada por dezenas de milhares de consumidores indignados, a marca de produtos de limpeza naturais Ecover apressou-se a anular uma experiência que visava a utilização de óleo de algas produzido por meio da biologia sintética num dos seus detergentes para a roupa.

Support Project Syndicate’s mission

Project Syndicate needs your help to provide readers everywhere equal access to the ideas and debates shaping their lives.

Learn more

Não é provável que se trate de casos isolados. A organização Non-GMO Project, uma entidade com uma influência crescente em matéria de rotulagem, proibiu os fabricantes de 33.000 produtos que ostentam o seu selo de recorrerem à biologia sintética. Entretanto, a Associação Europeia Stevia (EUSTAS), manifestou a sua preocupação quanto à possibilidade da EverSweet vir a prejudicar a reputação da stevia como ingrediente seguro e natural.

As nuvens negras que se estão a formar em torno da biologia sintética podem não ter sido visíveis no lançamento radiante do produto da Cargill. Porém, ao competir com os agricultores pobres e enganar os consumidores sobre as origens dos seus ingredientes, a EverSweet e outros exemplos de biologia sintética estão a suscitar irritação nos dois extremos da cadeia do produto. É por essa razão que o que aconteceu em Vegas deve ficar em Vegas.