A girl seriously affected with cholera Albert Gonzalez Farran/Getty Images

Um roteiro para pôr termo à cólera

GENEBRA — "Onde é a sua casa de banho?" Esta é muitas vezes a primeira pergunta que faço quando visito um local afectado por um surto de cólera em qualquer parte do mundo. Na maioria das vezes, a resposta é: "Nós não temos casa de banho. Vamos onde quer que seja possível."

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A cólera, uma doença antiga, tornou-se uma doença da pobreza. Não discrimina geograficamente, mas afecta principalmente as comunidades vulneráveis em zonas com más condições sanitárias.

 Arrastada por águas contaminadas para fontes de água potável, transportada por viajantes incautos ou trazida para casa em produtos irrigados com águas residuais não tratadas, a bactériaVibrio cholerae instala-se no intestino delgado após a ingestão, causando diarreias e desidratação graves.

Aqueles que têm a sorte de nunca ter testemunhado os efeitos da cólera em primeira mão podem assumir que se trata apenas outra infecção no estômago. Contudo, se não for objecto de atenção médica rápida, a cólera pode enfraquecer a vida de um adulto ou criança em questão de horas. Todos os anos, a cólera é a causa de morte de cerca de 95 mil pessoas, muitas das quais são crianças.

Este ano, imagens das incontáveis vítimas da cólera que aguardam tratamento, surgiram em países de todo o mundo. A doença propagou-se a um ritmo sem precedentes no Iémen, onde mais de 2 mil pessoas morreram desde Abril. Há surtos de cólera na Somália, no Sul do Sudão, no Haiti e noutros países da África Subsaariana e da Ásia.

Mas o facto mais triste sobre o número recente de vítimas da cólera é que casa uma destas mortes poderia ter sido evitada. O mundo já dispõe de conhecimentos e ferramentas para controlar eficazmente a cólera, mas os recursos existentes não estão alinhados com os compromissos globais necessários.

É por isso que a nova estratégia global desenvolvida pelo grupo de missão mundial para o controlo da cólera, uma rede diversificada de parceiros técnicos, é tão fundamental. Acabar com a cólera — Um roteiro global para 2030 destaca uma transição para abordagens proactivas e tem por objectivo reduzir as mortes por cólera em 90% nos próximos dez anos. Com a plena execução, o plano pode igualmente ajudar até 20 países a eliminar a transmissão da doença durante o mesmo período de tempo. Baseando-se em três pilares — detecção precoce, tácticas de prevenção integradas e coordenação entre países e parceiros — o roteiro fornece um caminho concreto para que a cólera deixe de ser uma ameaça para a saúde pública.

Quando a cólera atinge uma comunidade, torna-se muito difícil de controlar. Por conseguinte, é importante que a doença não seja esquecida, mesmo quando não causa vítimas. Uma abordagem multissectorial que inclui investimentos em água, saneamento e higiene — os chamados serviços WASH — pode evitar a cólera. O mesmo pode dizer-se da utilização proactiva de vacinas orais contra a cólera e do acesso rápido a tratamentos, como a solução de reidratação oral e os líquidos intravenosos.

A melhoria das infra-estruturas WASH constitui o caminho mais eficaz para a prevenção, embora a implementação destes serviços precise de mais tempo nos países com menos recursos. Por este motivo, o roteiro incentiva também a implementação preventiva e em larga escala de vacinas orais nos focos de maior incidência da cólera. As vacinas actuam de imediato e podem prevenir a cólera durante um período que se prolonga até três anos, funcionando como pontes para a implementação de soluções a longo prazo.

As vacinas orais contra a cólera oral estão disponíveis através de uma reserva mundial mantida pela Organização Mundial da Saúde, com o apoio da Gavi, a Aliança Mundial para as Vacinas e a Imunização. Mais de 15 milhões de doses foram distribuídas a 18 países desde a criação do programa em 2013. No próximo ano, a reserva deverá aumentar para mais de 25 milhões de doses, o que representa dois milhões mais do que no início.

Pôr termo à cólera enquanto ameaça para a saúde até 2030, conforme os parceiros mundiais e a OMS se comprometeram a fazer recentemente, exigirá colaboração e o compromisso sustentados dos países afectados pela cólera, dos parceiros técnicos e dos doadores internacionais. O objectivo pode parecer assustador, dado que, todos os anos, milhões de pessoas em todo o mundo correm o risco de contrair a doença. No entanto, tendo em conta a urbanização, as alterações climáticas e outros factores susceptíveis de aumentar a ameaça de infecção, é um objectivo que deve ser cumprido. O roteiro torna possível a sua concretização.

A implementação do plano irá revelar-se uma solução económica para os países que têm de responder a surtos frequentes de cólera. Esta é uma das razões pelas quais é urgentemente necessário tomar medidas. No entanto, a adopção da estratégia também é a coisa certa a fazer para a comunidade internacional. Os governos têm a obrigação moral de assegurar que ninguém sucumba a uma morte evitável. É uma obrigação que a OMS partilha, e é por isso que iremos trabalhar afincadamente para ajudar o mundo a atingir os objectivos ambiciosos que estabelecemos.

Temos as ferramentas necessárias para vencer a cólera. Agora, com um plano estabelecido, não poderá haver mais desculpas para não as utilizar.

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