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O perigoso neoprotecionismo da América

NOVA IORQUE – O Presidente dos EUA, Donald Trump, está prestes a cometer um erro político. Prejudicará, especialmente no curto prazo, países na África Subsaariana, na América Latina e na Ásia, em particular as economias emergentes como a China e o Sri Lanka (que mantêm grandes excedentes comerciais com os Estados Unidos) e a Índia e as Filipinas (principais destinos do outsourcing). Mas nenhum sofrerá mais do que os próprios EUA.

A política em questão é um estranho protecionismo neoliberal; chamemos-lhe “neoprotecionismo”. Por um lado, é uma tentativa para “salvar” empregos nacionais através da imposição de tarifas sobre produtos estrangeiros, da influência sobre taxas de câmbio, de restrições à entrada de trabalhadores estrangeiros, e da criação de desincentivos ao outsourcing. Por outro lado, envolve uma desregulamentação financeira neoliberal. Não é assim que se ajuda hoje a classe trabalhadora dos EUA.

Os trabalhadores americanos enfrentam grandes dificuldades. Embora atualmente os EUA se gabem de uma reduzida taxa de desemprego de 4,8%, muitas pessoas trabalham apenas a tempo parcial, e a taxa de participação da mão-de-obra (a parte da população em idade ativa que trabalha ou procura trabalho) caiu de 67,3% em 2000 para 62,7% em janeiro. Além disso, há décadas que os salários reais permanecem em grande medida estagnados; hoje, o rendimento real mediano das famílias é igual ao que era em 1998. Na verdade, entre 1973 e 2014, o rendimento dos 20% das famílias mais pobres decresceu ligeiramente, ao mesmo tempo que duplicou o rendimento dos 5% mais ricos.

Um fator que motivou estas tendências foi o declínio dos empregos na indústria transformadora. Greenville, na Carolina do Sul, é um exemplo. Em tempos conhecida como a Capital Mundial do Têxtil, com 48.000 pessoas a trabalhar na indústria em 1990, a cidade hoje tem apenas 6.000 trabalhadores no setor têxtil.