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A promessa de arrependimento do Brexit

LONDRES – Até ao momento em que os cidadãos do Reino Unido votaram a favor da saída da União Europeia, a crise dos refugiados era o principal problema com que a Europa se debatia. Com efeito, essa crise teve um papel fundamental na concretização da calamidade maior que foi o "Brexit".

A votação a favor do Brexit foi um grande choque. Na manhã seguinte à votação, a desintegração da União Europeia parecia praticamente inevitável. Várias crises em formação noutros países da UE, especialmente na Itália, aprofundaram o prognóstico obscuro para a sobrevivência da UE.

Aleppo

A World Besieged

From Aleppo and North Korea to the European Commission and the Federal Reserve, the global order’s fracture points continue to deepen. Nina Khrushcheva, Stephen Roach, Nasser Saidi, and others assess the most important risks.

Porém, à medida que o choque inicial do referendo britânico se vai desvanecendo, algo inesperado está a acontecer: a tragédia já não parece ser um facto consumado. Muitos eleitores britânicos começam a arrepender-se da sua decisão à medida que o hipotético se torna real. A libra esterlina caiu vertiginosamente e é muito provável que se venha a realizar outro referendo na Escócia. Os que ante liderara a campanha a favor da "Saída" lançaram-se numa estranha luta de autodestruição recíproca, e alguns dos seus seguidores começaram a vislumbrar o futuro sombrio que tanto o país quanto eles próprios têm pela frente. Um sinal de mudança na opinião pública é o lançamento de uma campanha, apoiada por mais de quatro milhões de pessoas até ao momento, para apresentar uma petição ao Parlamento com vista à realização de um segundo referendo.

Assim como o Brexit foi uma surpresa negativa, a resposta espontânea que gerou foi uma surpresa positiva. Mobilizaram-se pessoas de ambos os lados da causa (e o que é mais importante, algumas que nem sequer votaram, em particular os jovens com menos de 35 anos). Trata-se de um tipo de participação dos cidadãos que a UE nunca foi capaz de gerar.

A agitação que se fez sentir após o referendo colocou em evidência o que os cidadãos do Reino Unido têm a perder com a saída da UE. Se este sentimento se propagar pelo resto da Europa, o que parecia ser a desintegração inevitável da UE poderá, em vez disso, criar uma dinâmica positiva para uma Europa mais forte e melhor.

O processo poderia ter início no Reino Unido. O voto popular não pode ser revertido, mas uma campanha de recolha de assinaturas poderia transformar o cenário político, revelando um novo entusiasmo face à adesão à UE. Esta abordagem poderia, então, ser replicada no resto da União Europeia, criando um movimento de salvação da UE, através da sua reestruturação profunda. Estou convencido de que à medida que as consequências do Brexit se irão fazendo sentir nos próximos meses, cada vez mais pessoas estarão dispostas a aderir a este movimento.

O que a UE não deve fazer é penalizar os eleitores britânicos, ignorando suas preocupações legítimas relativamente às deficiências da UE. Os dirigentes europeus devem reconhecer os seus próprios erros e o défice democrático existente no actual enquadramento institucional. Ao invés de tratar o Brexit como se fosse a discussão dos termos de um divórcio, deviam aproveitar a oportunidade para reinventar a UE, convertendo-a no tipo de associação na qual o Reino Unido e outros países em risco de sair desejam participar.

Se os eleitores descontentes da França, Alemanha, Suécia, Itália, Polónia e dos restantes países constatassem que a UE trazia vantagens à sua vida, a UE iria emergir mais forte. Caso contrário, desmoronar-se-á mais rapidamente do que crêem os líderes e os cidadãos.

O ponto problemático seguinte é a Itália, que se vê confrontada com uma crise bancária e tem pela frente a realização de um referendo em Outubro. O Primeiro-Ministro Matteo Renzi está perante um dilema: se não conseguir resolver a crise bancária a tempo, será derrotado no referendo. Esta situação poderia conduzir ao poder o Movimento Cinco Estrelas, um parceiro do Partido da Independência do Reino Unido no Parlamento Europeu (que apoiou o Brexit). Para encontrar uma solução, Renzi precisa da ajuda das autoridades europeias, mas estas são demasiado lentas e inflexíveis.

Urge que os líderes europeus reconheçam que a UE está à beira do colapso. Em vez de se acusarem mutuamente, devem unir-se e tomar medidas excepcionais.

Em primeiro lugar, deve ser feita uma clara distinção entre a adesão à UE e a adesão à zona euro. Os países que têm a sorte de não pertencer à zona euro não devem ser alvo de discriminação. Se o objectivo for uma zona euro mais integrada, tal como deveria ser, é necessário que a mesma tenha uma tesouraria e orçamento próprios que actuem como autoridade orçamental, a par da sua autoridade monetária, o Banco Central Europeu.

Em segundo lugar, a UE deveria utilizar o seu excelente (e muito subaproveitado) crédito. Seria uma irresponsabilidade da parte dos líderes não empregar a capacidade de empréstimo da UE quando a sua própria existência está em causa.

Em terceiro lugar, a UE deve reforçar as suas defesas para se proteger dos seus inimigos externos, que poderão tirar partido da sua actual fragilidade. O maior trunfo da UE é a Ucrânia, cujos cidadãos estão dispostos a morrer em defesa de seu país. Ao defenderem-se, também estão a defender a UE, o que hoje em dia é raro na Europa. A Ucrânia tem a sorte de ter um novo governo que é mais determinado e tem mais probabilidade de realizar as reformas que os seus cidadãos e apoiantes têm vindo a reivindicar. Contudo, a UE e os seus Estados-Membros não estão a dar o apoio que a Ucrânia merece (o apoio dos EUA é muito mais significativo).

Em quarto lugar, os planos da UE para enfrentar a crise dos refugiados necessitam de uma profunda revisão. Estão crivados de equívocos e inconsistências que os tornam ineficazes E estão terrivelmente mal financiados. Além disso, utilizam medidas coercivas que criam resistência. Apresentei uma proposta com uma solução pormenorizada para estes problemas num outro artigo.

Se a UE realizar progressos neste domínio, tornar-se-á uma organização da qual as pessoas quererão fazer parte. Então, uma alteração dos tratados (assim como uma maior integração) voltará a ser possível.

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Se os líderes europeus não forem capazes de agir, quem quiser salvar a UE a fim de reinventá-la, deve seguir o exemplo dos jovens activistas do Reino Unido. Agora mais do que nunca, os defensores da UE devem encontrar formas de fazer sentir a sua influência.

Tradução: Teresa Bettencourt