2

As Quintas Africanas do Futuro

HARARE – Lançar um negócio pode ser uma tarefa difícil, especialmente em África, onde sistemas deficientes de governação e o acesso inconsistente a recursos críticos impedem o sucesso. Para os agricultores de África, os desafios são especialmente pronunciados. Considerando os enormes benefícios económicos e sociais de um sector agrícola dinâmico e moderno, proporcionar aos agricultores os incentivos, investimentos e regulamentos de que necessitam para terem sucesso deveria tornar-se uma prioridade.

A expansão recente no sector de telecomunicações em África – que revolucionou indústrias inteiras, para não falar do estilo de vida das pessoas – demonstra como pode ser eficaz uma abordagem desse tipo. Existem hoje mais de 500 milhões de ligações móveis no continente; de facto, em muitos aspectos, África lidera o mundo no crescimento e inovação das telecomunicações móveis.

Aleppo

A World Besieged

From Aleppo and North Korea to the European Commission and the Federal Reserve, the global order’s fracture points continue to deepen. Nina Khrushcheva, Stephen Roach, Nasser Saidi, and others assess the most important risks.

Porque não foi capaz a África de replicar esse crescimento no sector agrícola? Porque é que, em vez de colheitas abundantes, a África tem uma factura anual de 35 mil milhões de dólares em importações alimentares? Segundo o último relatório anual do Africa Progress Panel, Cereal, Peixe, Dinheiro – Financiar as Revoluções Verde e Azul em África, o problema é simples: os agricultores de África estão em grande desvantagem.

Isto é especialmente verdade para os pequenos agricultores, a maioria dos quais são mulheres. A estes agricultores, que cultivam parcelas do tamanho de um ou dois campos de futebol, faltam normalmente sistemas fiáveis de irrigação e factores de produção de qualidade, como sementes e suplementos fertilizantes para os solos. Além disso, raramente ganham o suficiente para investir na maquinaria necessária, e não conseguem ter acesso a crédito.

Como se isso não bastasse, os agricultores enfrentam condições climáticas cada vez mais voláteis que aumentam a probabilidade de colheitas falhadas. Prevê-se que a produtividade do milho, por exemplo, diminua por um quarto ao longo do século XXI. E, quando as colheitas estão prontas, os agricultores enfrentam grandes obstáculos – incluindo sistemas inadequados de estradas rurais e falta de instalações de armazenamento refrigerado – para entregá-las no mercado.

Apesar destes riscos, que ridicularizam os enfrentados pela indústria de telecomunicações, os pequenos agricultores de África permanecem tão eficientes quanto os seus homólogos de maior dimensão – o que constitui uma prova da tenacidade e resiliência. No entanto, em vez de apoiar os agricultores, os governos Africanos têm erguido ainda mais obstáculos ao crescimento, incluindo tributação excessiva, investimento insuficiente e políticas coercivas.

Os agricultores Africanos precisam de um ambiente favorável que lhes permita superar os desafios que enfrentam. Com um tal ambiente, o sector agrícola do continente poderia desencadear uma revolução semelhante à alimentada pelo sector das comunicações.

A boa notícia é que tanto o sector público como o privado – motivados pelo aumento da procura de alimentos, especialmente nas cidades em rápido crescimento de África, e o aumento dos preços globais dos alimentos – parecem estar preparados para impulsionar essa mudança. As empresas privadas começaram a canalizar investimentos para o sector agrícola de África, nomeadamente através de iniciativas como Grow Africa (da qual sou Co-Presidente), o que facilita a cooperação entre os governos nacionais e mais de uma centena de empresas locais, regionais e internacionais para atingir metas para o crescimento agrícola. Ao longo dos últimos dois anos, essas empresas canalizaram mais de 7,2 mil milhões de dólares para investimento agrícola.

Na parte que lhes toca, os governos e parceiros de desenvolvimento Africanos, reconhecendo o papel central que a agricultura pode desempenhar nas suas agendas de desenvolvimento económico, começaram a reverter um período de três décadas de declínio do investimento público na agricultura. Com efeito, a agricultura tem o potencial para reduzir a pobreza duas vezes mais depressa que qualquer outro sector.

O impacto de tais esforços já é evidente em muitas partes do continente. Do Gana ao Ruanda, níveis elevados de investimento agrícola estão na base do crescimento económico em áreas rurais, impulsionando desse modo a criação de emprego e a redução da pobreza e da fome.

Mas estes ganhos permanecem frágeis. Para sustentá-los, os governos Africanos deverão voltar a comprometer-se com a Declaração de Maputo sobre Agricultura e Segurança Alimentar da União Africana, que inclui a promessa de canalizar pelo menos 10% dos seus orçamentos para o investimento agrícola. Além disso, deverão disponibilizar aos agricultores as infra-estruturas, fontes de energia, e políticas encorajadoras de que estes necessitam para poderem colocar os seus produtos no mercado.

O sector das comunicações também tem um papel fundamental a desempenhar. As tecnologias móveis já começaram a transformar a indústria agrícola de África, fornecendo aos agricultores informações valiosas como preços de mercado, apoio a aquisições através de e-vouchers, e até mesmo acesso ao crédito. Muitos destes serviços inovadores estão mais acessíveis aos pequenos agricultores Africanos do que aos seus homólogos Americanos ou Europeus.

Finalmente, representantes do sector privado, organizações de agricultores e grupos da sociedade civil devem cooperar para promover o desenvolvimento agrícola. Por exemplo, a Aliança para uma Revolução Verde em África fornece sementes de alta qualidade – muitas das quais, resistentes à seca – a milhões de pequenos agricultores em todo o continente.

Support Project Syndicate’s mission

Project Syndicate needs your help to provide readers everywhere equal access to the ideas and debates shaping their lives.

Learn more

A União Africana declarou 2014 como o Ano da Agricultura e Segurança Alimentar em África. Com acções abrangentes no campo das políticas, investimento e tecnologia, os agricultores de África poderão duplicar a sua produtividade dentro de cinco anos. É altura de proporcionar ao sector agrícola a oportunidade de que todos os Africanos precisam para inaugurar uma era de prosperidade partilhada.

Traduzido do inglês por António Chagas