17

O antiliberal internacional

VARSÓVIA – Estaline, na primeira década do poder soviético, apoiou a ideia de “socialismo num só país”, o que significa que, até que as condições amadurecessem, o socialismo seria apenas para a URSS. Quando o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, declarou, em julho de 2014, a sua intenção de construir uma “democracia antiliberal”, assumiu-se largamente que ele estava a criar o “antiliberalismo num país”. Agora, Orbán e Jarosław Kaczyński, o líder do partido dirigente Lei e Justiça (PiS), da Polónia, e fantoche-mestre do governo do país (embora não exerça qualquer função), proclamaram uma contrarrevolução que visa transformar a União Europeia num projeto antiliberal.

Após um dia de sorrisos forçados e pacientes palmadinhas nas costas na conferência de Krynica deste ano, que se autointitula de Davos regional, e que nomeou Orbán o seu Homem do Ano, Kaczyński e Orbán anunciaram que liderariam 100 milhões de europeus numa tentativa de refazerem a UE segundo linhas nacionalistas/religiosas. Até se pode imaginar o Václav Havel, um anterior homenageado, a dar voltas na sepultura, aquando da declaração oficial. E a ex-primeira-ministra ucraniana, Yulia Tymoshenko, outra anterior vencedora, deve estar horrorizada: o seu país está a ser destruído pela Rússia sob o comando do presidente Vladimir Putin, a santidade do antiliberalismo e um modelo exemplar aos olhos de Kaczyński e de Orbán.

Aleppo

A World Besieged

From Aleppo and North Korea to the European Commission and the Federal Reserve, the global order’s fracture points continue to deepen. Nina Khrushcheva, Stephen Roach, Nasser Saidi, and others assess the most important risks.

Os dois homens pretendem aproveitar a oportunidade dada pelo referendo Brexit do Reino Unido, que demonstrou que, na UE de hoje, o modo de discurso preferido dos democratas antiliberais - mentiras e calúnias - pode ser politicamente e profissionalmente gratificante (basta perguntar ao novo secretário de Estado do Reino Unido para os Assuntos Externos, Boris Johnson, um dos principais promotores do Brexit). A fusão das habilidades dos dois homens pode torná-los numa ameaça mais poderosa do que muitos europeus gostariam de acreditar.

O que Orbán traz para a parceria é claro: uma estirpe do populismo “pragmático”. Ele alinhou o seu partido Fidesz com o Partido Popular Europeu, que o mantém formalmente dentro do contexto político e faz da chanceler alemã, Angela Merkel, uma aliada que fornece proteção política, apesar da sua governação antiliberal. Kaczyński, no entanto, optou por aliar o PiS ao insignificante Aliança de Conservadores e Reformistas Europeus, e discutir quase incessantemente com a Alemanha e a Comissão da UE.

Além disso, Orbán tem mais capacidade de integração com o povo do que o seu parceiro polaco. À semelhança de Donald Tusk, o antigo primeiro-ministro polaco que agora é presidente do Conselho Europeu, ele joga futebol com outros políticos. Kaczyński, pelo contrário, é tipo um eremita, que vive sozinho e passa as noites a assistir a touradas espanholas na TV. Ele parece viver à margem da sociedade, ao passo que os seus partidários parecem colocá-lo acima dela – o messias ascético de uma Polónia renascida.

É este fervor místico que Kaczyński traz à sua parceria com o Orbán oportunista. É um messianismo forjado a partir da história da Polónia – um sentimento de que a nação tem uma missão especial para a qual Deus a escolheu, comprovando-se na história especialmente trágica da Polónia. Revoltas, guerra, partições: estas são as coisas em que um polaco deveria pensar todos os dias.

Uma identidade messiânica favorece um certo tipo de líder – o tipo de líder, como o Putin, que parece ser movido por um sentimento de missão (no caso de Putin, é a mesma missão proclamada pelos czares: Ortodoxia, autocracia e nacionalidade). Então, enquanto Orbán é um cínico, Lech Kaczyński é um fanático, para quem o pragmatismo é um sinal de fraqueza. Orbán nunca agiria contra os seus próprios interesses; Kaczyński já o fez tantas vezes. Ao atacar os membros do seu governo de coligação, por exemplo, Lech Kaczyński perdeu poder em 2007, apenas dois anos depois de o ter ganhado. Parece que não tem planos. Em vez disso, ele tem visões - não da reforma fiscal ou da reestruturação económica, mas de um novo tipo de Polónia.

Orbán não procura nada desse género. Ele não quer criar um novo modelo da Hungria; o seu único objetivo é permanecer, como Putin, no poder para o resto da sua vida. Tendo governado como um liberal na década de 1990 (pavimentando o caminho para a Hungria se juntar à OTAN [NATO] e à UE) e perdido, Orbán considera o antiliberalismo como o meio para ganhar até ao seu último suspiro.

O antiliberalismo de Kaczyński é o da alma. Ele apelida os que não fazem parte do seu partido de “polacos da pior espécie”. Homo Kaczyńskius é um polaco preocupado com o destino do seu país e que mostra hostilidade a críticos e dissidentes, particularmente estrangeiros. Gays e lésbicas não podem ser verdadeiros polacos. Todos os elementos não-polacos que estejam na Polónia são vistos como uma ameaça. O governo PiS não aceitou um único refugiado do número minúsculo – apenas 7.500 – que a Polónia, um país de quase 40 milhões, acordou receber com a UE.

Apesar das suas motivações diferentes para adotarem o antiliberalismo, Kaczyński e Orbán concordam que, em termos práticos, isso significa a construção de uma nova cultura nacional. Os meios de comunicação estatais já não são públicos, mas sim “nacionais”. Ao eliminar-se os concursos para a função pública, os gabinetes podem ser preenchidos com apoiantes e paus-mandados. O sistema educativo está a ser transformado num veículo para fomentar a identificação com um passado glorioso e trágico. Apenas as empresas culturais que glorificam a nação devem receber financiamento público.

Para Kaczyński, a política externa é uma função da política histórica. Neste aspeto, os dois homens são diferentes: ao passo que o pragmatismo de Orbán o impede de antagonizar os seus parceiros europeus e dos EUA excessivamente, Kaczyński não está interessado em cálculo geopolítico. Afinal de contas, um messias não adorna as suas crenças ou bajula; ele vive para proclamar a verdade.

Support Project Syndicate’s mission

Project Syndicate needs your help to provide readers everywhere equal access to the ideas and debates shaping their lives.

Learn more

Então, na maioria das vezes, a política externa de Kaczyński é um seminário de história tendenciosa. A Polónia foi traída pelo Ocidente. A sua força – hoje e sempre – vem do orgulho, da dignidade, da coragem e da autossuficiência absoluta. As suas derrotas são vitórias morais que provam a força e coragem da nação, permitindo-lhe, à semelhança de Cristo, regressar dos mortos após 123 anos de ausência do mapa da Europa.

A questão para a Europa agora é se o casamento do populismo messiânico com o oportunista irá dominar e espalhar-se por toda a União, ou permanecerá confinado à Europa Central. O ex-presidente francês, Nicolas Sarkozy, de olho no regresso ao poder em 2017, já está a adotar alguma linguagem e posturas do eixo Kaczyński/Orbán. Johnson, por sua vez, mostrou uma afinidade pelos métodos deles. Irão outros seguir o mesmo caminho?