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O último fundador de Israel

TELAVIVE – Em 2006, um ano antes de Shimon Peres ter sido eleito Presidente de Israel, Michael Bar-Zohar publicou a edição em hebraico da sua biografia de Peres. O título é bastante adequado: Like a Phoenix (Como uma Fénix). Até então, mantivera-se activo na política e na vida pública de Israel há mais de 60 anos.

A carreira de Peres teve os seus altos e baixos. Chegou a grandes alturas e sofreu fracassos humilhantes — e passou por várias encarnações. Começando por ser um pilar da liderança da defesa nacional israelita, tornou-se posteriormente um fervoroso promotor da paz, mantendo sempre uma relação de amor/ódio com a opinião pública israelita, que o rejeitou sempre que Peres se candidatou ao cargo de Primeiro-Ministro, mas que o admirava quando ele não tinha nem procurava o poder real.

 1972 Hoover Dam

Trump and the End of the West?

As the US president-elect fills his administration, the direction of American policy is coming into focus. Project Syndicate contributors interpret what’s on the horizon.

Nunca se dando por vencido perante a adversidade, Peres continuou a avançar, movido pela ambição e por um sentido de missão, e auxiliado pelos seus talentos e a sua criatividade. Era um autodidacta, um leitor voraz e um escritor prolífico, um homem motivado e inspirado a cada poucos anos por uma nova ideia: a nanociência, o cérebro humano ou o desenvolvimento económico do Médio Oriente.

Era, além disso, um visionário e um político astuto, que manteve sempre um pouco das suas origens da Europa de Leste. Em 2007, quando terminou a sua busca do poder e da participação na elaboração de políticas, Peres atingiu o auge da sua carreira pública, assumindo a presidência até 2014. Reabilitou a instituição após ter sucedido a um antecessor pouco digno, ganhando popularidade a nível nacional e admiração no estrangeiro, assumindo o papel informal de “ancião sábio” do plano internacional; orador muito solicitado em fóruns internacionais e símbolo de um Israel em busca da paz, em nítido contraste com o seu belicoso Primeiro-Ministro, Binyamin Netanyahu.

A carreira política rica e complexa de Peres passou por cinco grandes etapas. Começou como activista no Partido Trabalhista e no seu movimento juvenil no início da década de 1940. Em 1946, foi considerado como sendo suficientemente experiente para ser enviado para a Europa integrando a delegação pré-estatal para o primeiro Congresso Sionista do pós-guerra. Começou então a trabalhar em estreita colaboração com o principal fundador de Israel, David Ben-Gurion, no Ministério da Defesa, sendo sobretudo responsável pelas aquisições durante a Guerra da Independência de Israel, acabando por assumir a função de director-geral do Ministério.

Nessa qualidade, Peres tornou-se o arquitecto da doutrina de defesa do jovem Estado. Dirigindo uma espécie de Ministério dos Negócios Estrangeiros paralelo, a sua principal concretização foi o estabelecimento de uma aliança estreita e de uma cooperação sólida em matéria de segurança (inclusivamente no que diz respeito à tecnologia nuclear) com a França.

Em 1959, Peres passou a dedicar-se a tempo inteiro à política, apoiando Ben-Gurion contra a velha guarda do Partido Trabalhista. Mais tarde, foi eleito para o Knesset (o parlamento israelita) e assumiu o cargo de Vice-Ministro da Defesa e posteriormente tornou-se membro de pleno direito do gabinete.

A sua carreira entrou numa nova etapa em 1974, quando a Primeira-Ministra Golda Meir foi obrigada a demitir-se após o revés de Outubro de 1973, em que as forças egípcias de Anwar Sadat atravessaram o Canal do Suez. Peres candidatou-se para substitui-la, mas perdeu por uma estreita margem a favor de Yitzhak Rabin. Em compensação, Rabin atribuiu a Peres o cargo de Ministro da Defesa do seu Governo. No entanto, as eleições de 1974 marcaram o início de 21 anos de intensa rivalidade, atenuada pela cooperação.

Peres sucedeu ao seu rival por duas vezes: em 1977, depois de Rabin ter sido forçado a demitir-se e em 1995-1996, após o assassinato de Rabin. Foi, além disso, Primeiro-Ministro (cargo que desempenhou muito bem) num governo de unidade nacional entre 1984 e 1986; mas, apesar de o tentar durante quase 30 anos, os eleitores israelitas lhe conferiram mandato próprio para o cargo que mais ambicionava.

Em 1979, Peres tornou-se líder do campo da paz israelita, concentrando os seus esforços na Jordânia durante a década de 1980. Em 1987, esteve muito próximo de conseguir um acordo de paz com a assinatura do Acordo de Londres com o rei Hussein, contudo, o acordo não chegou a concretizar-se. Em 1992, no seio do Partido Trabalhista concluiu-se que Peres não conseguiria ganhar uma eleição e que apenas um centrista como Rabin teria possibilidades de o conseguir.

Rabin ganhou as eleições e, passados 15 anos, voltou a ser Primeiro-Ministro. Desta vez, assumiu a pasta da defesa e atribuiu a Peres o Ministério dos Negócios Estrangeiros. Rabin estava determinado a gerir o processo de paz e atribuiu a Peres uma tarefa marginal. Contudo, o Vice-Primeiro Ministro de Rabin ofereceu a Peres a oportunidade de conduzir uma série de negociações informais com a OLP em Oslo; e, com o consentimento de Rabin, Peres assumiu a responsabilidade das conversações, conduzindo-as a bom porto em Agosto de 1993.

Este foi o melhor exemplo da rivalidade e colaboração que caracterizava a relação de Rabin e Peres. Eram necessárias a ousadia e a criatividade de Peres para a conclusão dos Acordos de Oslo; mas sem a credibilidade e a estatura de Rabin como militar e falcão da segurança, a opinião pública e o establishment político israelita não teriam aceitado os acordos.

A cooperação reticente entre Rabin e Peres continuou até 4 de Novembro de 1995, quando um extremista de direita assassinou Rabin. O assassino poderia ter escolhido Peres, mas decidiu que a morte de Rabin era a forma mais eficaz de descarrilar o processo de paz. Sucedendo a Rabin, Peres tentou negociar um acordo de paz com a Síria a par do que sucedera em Oslo. Vendo frustrada a tentativa, convocou eleições antecipadas, fez uma má campanha e perdeu por poucos votos a favor de Netanyahu em Maio de 1996.

Os dez anos seguintes não foram um período feliz para Peres. Perdeu a liderança do Partido Trabalhista a favor de Ehud Barak, aderiu ao novo partido Kadima de Ariel Sharon e ao seu governo, e foi alvo de críticas e de ataques por parte da direita israelita, que o culpava pelo sucedido com os Acordos de Oslo. Peres começou a relativizar o Prémio Nobel da Paz partilhado com Yasser Arafat e Rabin na sequência de Oslo. Durante aqueles anos, a discrepância entre a sua estatura no palco internacional e a posição que ocupava na política israelita tornou-se cada vez mais evidente—porém, esse fosso foi colmatado quando, em 2007, assumiu a presidência.

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Peres foi um líder experiente e talentoso, um orador eloquente e uma fonte de ideias. Mas talvez o aspecto mais importante é que se tratava de um líder israelita com uma visão e uma mensagem. Foi este o segredo da sua estatura internacional: as pessoas esperavam que o líder de Israel, o homem de Jerusalém, fosse justamente esse tipo de figura visionária. Quando a liderança política do país não responde a essa expectativa, um líder como Peres assume esse papel — e obtém a glória.

Tradução: Teresa Bettencourt