Students from Dakar Boston Globe/Getty Images

O poder transformador da juventude africana

TORONTO – Há alguns anos, durante uma conversa com jovens oriundos de algumas das comunidades mais pobres do Senegal, um par de empreendedores sociais referiu-me alguns projectos em que estavam a trabalhar, para ajudarem os seus pares a serem bem-sucedidos. Um dos jovens disse que planeava pôr mais computadores nas escolas primárias; outro tinha criado uma rede para ligar os habitantes das zonas rurais que procuram emprego no caos urbano de Dacar, a capital do Senegal.

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Quando acabaram de partilhar os seus planos, dei-lhes os meus parabéns, e disse-lhes que os seus pais deviam estar muito orgulhosos. Mas, em vez de aceitarem os meus cumprimentos, mostraram-se relutantes. “Os meus pais são contra o que estou a fazer”, disseram, quase em uníssono, antes de explicarem que os jovens são pressionados pelas suas famílias para terem um emprego no governo, ou para usarem os seus conhecimentos de Inglês para trabalharem como guias turísticos – e não para serem empreendedores que assumem riscos.

Para os jovens africanos ambiciosos, existem muitos obstáculos ao sucesso. O caminho a percorrer até chegar a um emprego – independentemente de ser formal ou informal, empreendedor ou tradicional – é muito frequentemente um caminho solitário. Muitos jovens não têm acesso a formação orientada para competências, ou mesmo a um ambiente social favorável para experimentarem coisas novas. Como me lembrou esse dia passado no Senegal, ajudar os jovens a encontrarem empregos proveitosos é a coisa mais importante que a comunidade internacional pode fazer para apoiar o desenvolvimento de África.

África alberga a maior população mundial de jovens. Daqui a cerca de 25 anos, esses jovens constituirão a mais numerosa mão-de-obra do mundo, com mais de 1 100 milhões de pessoas em idade activa. De acordo com algumas previsões, entrarão 11 milhões de pessoas no mercado laboral africano em cada ano da próxima década, sendo que a maioria estará à procura do primeiro emprego.

Se os países africanos impulsionarem o crescimento do emprego, e formarem os jovens com competências que promovam a empregabilidade, este excedente de juventude conseguirá gerar crescimento económico rápido, inclusivo e sustentável em todo o continente. Por sua vez, a milhões de pessoas seria dada a oportunidade de se libertarem da pobreza.

Mas África não conseguirá alcançar este futuro sozinha. Na Fundação Mastercard, acreditamos que devem ser colmatadas lacunas em duas áreas essenciais para que África cumpra o seu potencial.

A primeira área é o acesso a produtos e serviços financeiros. De acordo com o Banco Mundial, este acesso falta a perto de dois mil milhões de pessoas em todo o mundo. Na África Subsaariana, só 34% dos adultos têm uma conta bancária, o que dificulta a poupança de dinheiro para eventos imprevistos, como uma má colheita, ou a poupança para estudos. Isto tem de mudar, para que os africanos consigam não só um melhor acesso aos sistemas bancários, mas também uma literacia financeira.

O segundo desafio crucial que deve ser enfrentado é a exclusão do ensino secundário e superior. Embora tenham sido feitos progressos em algumas regiões, só cerca de um terço dos jovens africanos termina o ensino secundário. As raparigas estão numa situação particularmente desfavorecida: de acordo com a UNESCO, estima-se que na África Subsaariana nove milhões de raparigas com menos de 11 anos nunca tenham frequentado a escola, comparativamente a seis milhões de rapazes.

Para abordar estas questões, a Fundação Mastercard criou parcerias com as organizações locais para conceber programas de educação e de literacia financeira destinados a ajudar os jovens a encontrarem e a manterem empregos. Ao criarem uma mão-de-obra mais bem treinada, os programas da Fundação ajudam a capacitar a próxima geração de membros e líderes comunitários de África, de modo a que estes ajudem as suas famílias, comunidades e países a conseguirem um futuro mais promissor e mais próspero.

Actualmente, já se testemunha a emergência de uma nova geração de empreendedores educados e éticos, como os que conheci no Senegal, e que demonstram um profundo compromisso com a construção de uma África mais forte. Por exemplo, quando pergunto aos jovens que participam no nosso Programa de Bolseiros o que planeiam fazer com as suas novas competências, quase sempre respondem que depois de conseguirem um emprego planeiam ajudar outras pessoas, voltando às suas escolas secundárias para serem mentores de estudantes mais jovens.

Alguns dos diplomados no nosso programa criaram mesmo projectos comunitários nas suas aldeias para fazer face ao VIH/SIDA, ou para criar abrigos para órfãos e crianças. Cada um destes jovens e brilhantes africanos – exemplos do que a Fundação Mastercard apelida de “liderança transformativa” em acção – tem o potencial para promover a mudança nos seus próprios países e comunidades.

Nós, que trabalhamos no campo do desenvolvimento internacional, podemos ajudar a assegurar ainda mais a igualdade de condições, dando aos jovens africanos de todas as origens uma oportunidade para liderar de formas transformativas. Se formos bem-sucedidos, os sonhadores actuais de África serão os catalisadores da mudança positiva de amanhã.

http://prosyn.org/EY2b4L2/pt;

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