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Escolas de Esperança

LONDRES – Hoje, 20 de Junho, é o Dia Mundial do Refugiado, data em que honramos a força e a coragem daqueles que foram obrigados a abandonar as suas casas. Hoje, o meu pensamento está em Mohammed, um refugiado sírio que conheci no mês passado quando visitei a Escola Primária de Istoc, na Turquia.

Numa escola repleta, já a rebentar pelas costuras para acolher a numerosa população local, assisti à tentativa de Mohammed, sentado no fundo da sala de aula, de terminar um trabalho de arte. A turma estava a desenhar artefactos de museus enquanto discutia animadamente a importância da preservação da cultura e do património.

 1972 Hoover Dam

Trump and the End of the West?

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Mohammed parou para explicar a forma como os seus colegas o tinham ajudado a aprender a sua língua e como estava a conseguir recuperar o atraso das as aulas após ter fugido do seu país devastado pela guerra para ir viver para Istambul. Contudo, o seu sonho é ter a oportunidade de voltar para casa um dia, e está determinado em estudar afincadamente para obter os conhecimentos e as competências necessárias para construir um novo futuro no seu país.

Reparei que o trabalho de Mohammed era diferente do dos demais alunos, e ele explicou através de um intérprete que a sua intenção era captar uma imagem de casa. O professor pensava que ele estava a desenhar uma imagem de Palmyra, uma cidade histórica de tal forma devastada que a UNESCO entrou em cena no sentido de a preservar antes que não restasse mais nada. Imaginei o que Mohammed verá quando regressar à sua querida Síria.

A história de Mohammed já se repetiu inúmeras vezes. Durante os últimos cinco anos, 4,8 milhões de sírios (metade dos quais crianças) fugiram do seu país em consequência da guerra civil. Na Theirworld, um dos nossos muitos projectos visa ajudar as crianças refugiadas a terem acesso ao ensino. Acreditamos que a educação para todas as crianças deve fazer parte da resposta humanitária aos conflitos e às catástrofes — um direito que deve ser defendido juntamente com a provisão de alimentos, de abrigo e de cuidados médicos.

A educação traz às crianças e às respectivas famílias a esperança, a segurança de uma rotina e a capacidade de fazer planos para o futuro. O facto de trazer as crianças à escola e de mantê-las lá contribui igualmente para mantê-las a salvo de perigos como o trabalho infantil, o casamento precoce e a radicalização.

A Theirworld foi a primeira a fazer campanha para o financiamento de um sistema pioneiro de turnos duplos para o ensino das crianças refugiadas sírias. Esta campanha teve um enorme sucesso no Líbano, na Jordânia e tem tido uma aceitação crescente na Turquia. O conceito é simples: um grupo de crianças tem aulas durante o período da manhã, recorrendo-se aos mesmos edifícios e recursos para acolher mais crianças durante o período da tarde. Centenas de milhares de crianças estão matriculadas. Além disso, estamos actualmente a trabalhar no sentido de desbloquear financiamento para permitir que um milhão de crianças em todo o Médio Oriente possa regressar à escola em 2017.

Até à data, a Turquia desembolsou um montante superior a oito mil milhões de dólares com a crise, mais do que qualquer outro país, e acolheu quase dois milhões de refugiados, prometendo vagas nas escolas para todas as crianças logo que houvesse fundos disponíveis. Até agora, as autoridades turcas asseguraram bastante mais de 200 000 lugares nas escolas para crianças sírias — mais de metade da capacidade necessária até ao momento.

Os países de acolhimento como a Turquia estão prontos para implementar este esforço gigantesco, mas cabe a todos nós assegurar que os fundos prometidos sejam entregues atempadamente. Em Abril, a UE prometeu três mil milhões de euros para apoiar os refugiados sírios na Turquia, e a educação foi incluída na lista das prioridades absolutas — o que constitui uma marca de reconhecimento para todos os que lutaram para colocar esta questão sobre a mesa. Agora, todos devem reunir-se à volta da mesa e assegurar que nenhuma questão de ordem burocrática, política ou que entraves práticos inviabilizem a possibilidade de estas crianças regressarem à escola.

A comunidade internacional deu um passo importante neste sentido durante a Cimeira Humanitária Mundial realizada no mês passado em Istambul, com o lançamento do fundo "A Educação não pode Esperar" destinado a fazer face à inevitável "próxima" emergência. O novo fundo tem como objectivo estabelecer uma fonte de financiamento permanente destinada colmatar o fosso existente entre as intervenções humanitárias durante as crises e o desenvolvimento a longo prazo no período posterior à crise.

Para já, a educação está no fim da fila no que diz respeito ao rescaldo imediato das crises, representando apenas 2% da ajuda humanitária, cuja fatia maior é destinada à saúde, habitação e alimentação. No entanto, com uma meta de 3,85 mil milhões de dólares ao longo de um período de cinco anos, o fundo "A Educação não pode Esperar" espera conseguir chegar a mais de 13,6 milhões de crianças como Mohammed, que de outra forma teriam de esperar anos para retomar os seus estudos.

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As férias de Verão chegaram para as crianças de quase todo o mundo: durante este período, muitas crianças refugiadas irão trabalhar para contribuir com pequenas quantias para o rendimento familiar, ou ficarão inactivas em cidades ou acampamentos desconhecidos. Esperemos, porém, que a questão do financiamento do ensino para os refugiados sírios seja resolvida na Turquia, na Jordânia, no Líbano e onde for necessário para que se possa dar início ao planeamento necessário para acolher todas as crianças. As comunidades de residência dos refugiados estão prontas para levar a cabo este planeamento; é chegado o momento de desbloquear o financiamento de que necessitam.

Tradução: Teresa Bettencourt