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As regras do património genético

CLEVELAND – Desde há milhares de anos que os seres humanos têm utilizado a engenharia genética para controlarem a evolução de plantas e de animais. Por isso, é inevitável que iremos utilizá-la para moldar a nossa própria evolução. Os nossos esforços até agora têm sido modestos: os serviços de encontros online estão a começar a fazer corresponder os pares entre os assinantes, com base nas suas compatibilidades genéticas; os pais seleccionam cada vez mais os embriões e os fetos, permitindo que apenas nasçam aqueles que têm genes saudáveis; os geneticistas melhoram lentamente a sua capacidade de manipular o ADN directamente; e ninguém está a tentar fazer alterações germinativas em seres humanos que serão passadas às gerações seguintes.

A engenharia evolucionista humana em larga escala ainda está distante, mas, em alguma fase no futuro, ela pode muito bem tornar-se numa rotina. O desafio para a humanidade é duplo: sobreviver o tempo suficiente para chegar a essa fase; e causar o mínimo de danos durante o caminho até lá chegar.

Aleppo

A World Besieged

From Aleppo and North Korea to the European Commission and the Federal Reserve, the global order’s fracture points continue to deepen. Nina Khrushcheva, Stephen Roach, Nasser Saidi, and others assess the most important risks.

Os que estão em risco imediato são as crianças, que estão em perigo de terem o seu material genético manipulado de formas prejudiciais. O dano pode ser físico (nados-mortos, deformidades e doenças genéticas), mas até mesmo a engenharia genética tecnicamente bem-sucedida pode causar danos psicossociais às crianças, que podem ser afastadas da sociedade pelos colegas, por terem uma aparência estranha ou simplesmente “diferente”.

A um nível social, a engenharia genética que só os ricos podem pagar ameaçaria a coesão social por exclusão de igualdade de oportunidades. Os ricos e os pobres poderiam constituir castas separadas, com isolamento reprodutivo, originando possivelmente mudanças físicas que tornariam impossível a procriação entre castas. No fundo, isto poderia levar ao aparecimento de diferentes espécies humanas.

Dado que nenhuma outra espécie humana sobrevive, além da nossa (o Homo floresiensis desapareceu há cerca de 18 mil anos), as perspectivas para a coexistência harmoniosa entre futuras espécies humanas não são tranquilizadoras. Na pior das hipóteses, a linhagem genética humana em si poderia ser eliminada devido a um conflito entre as espécies.

Mesmo sem haver especiação, o mesmo resultado poderia ocorrer através de uma perda de diversidade genética: Se toda a gente seleccionar os mesmos traços para a sua prole, os seus descendentes seriam incapazes de sobreviver a um desafio ambiental repentino e inesperado.

Os geneticistas expressam, muitas vezes, cepticismo em relação a tais predições. Por exemplo, um crítico do meu livro mais recente, ao escrever na revista Science, assinalou o quão pouco impacto teria no património genético dos seres humanos, “alguns indivíduos geneticamente modificados”. Mas, embora uma catástrofe na engenharia genética não vá dominar tão cedo toda a espécie humana, as existentes tecnologias de engenharia genética já podem prejudicar as crianças individualmente: são testemunhas disso o aumento de partos prematuros e o baixo peso à nascença associados à fertilização in vitro. E as decisões relacionadas com a reprodução, que reflectem uma preferência cultural por meninos, estão a começar a produzir problemas sociais em países como a China e a Índia.

Indo directamente ao assunto, na ausência de impedimentos técnicos desconhecidos e imprevisíveis é provável que a engenharia evolucionista humana seja, no futuro, suficientemente difundida para constituir uma ameaça a todas as espécies. Assim, embora possa não ser necessário tomar medidas, agora, para prevenir danos no futuro, faz sentido identificar quais as medidas que poderão ser necessárias juntamente com as mudanças nas normas sociais e nos comportamentos, que poderão ser necessárias, para implementá-las.

Muitos dos riscos que advêm da engenharia evolucionista são causados por más decisões tomadas pelos pais. Ansiosos por darem aos seus filhos os benefícios sociais, os pais podem tomar decisões, relacionadas com a reprodução, com base em informação genética com erros ou incompleta; ou procurarem uma alteração genética dos seus filhos antes da realização de testes de segurança adequados.

Determinar quando é que é permitido interferir na escolha dos pais é um desafio, dada a deferência que os pais normalmente recebem. A maioria dos países tem leis destinadas a proteger as crianças do abuso e da negligência. Mas a legislação para salvaguardar o bem-estar das crianças não aborda adequadamente os danos produzidos, ou postos em marcha, antes do nascimento; ou não estabelece quais os tipos de engenharia evolucionista que são aceitáveis.

A maioria das decisões tomadas pelos pais, relacionadas com a reprodução, não pode ser realizada sem a ajuda de profissionais, nomeadamente de médicos. É por essa razão que talvez um dia seja necessário regulamentar também o comportamento profissional. Embora algumas partes da infra-estrutura, tais como as leis de licenciamento para médicos, já estejam em vigor, medidas adicionais podem ser necessárias, nomeadamente o aumento da regulamentação nas clínicas de infertilidade onde muitas intervenções de engenharia genética terão lugar. Além disso, as regras devem ser estabelecidas para avaliarem a segurança e a eficácia das novas tecnologias no que diz respeito tanto aos destinatários imediatos como aos seus descendentes.

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Algumas formas de engenharia evolucionista que não prejudicam directamente os indivíduos e, portanto, não estariam sujeitas a essas regulamentações, tais como as decisões de todos os pais em fazerem as mesmas alterações genéticas nos seus descendentes, poderiam ameaçar a sobrevivência da linhagem humana. Os sistemas de saúde pública poderiam dar resposta a esta preocupação. Contudo, tendo em conta os esforços de profissionais no passado para empregarem a genética na melhoria da saúde pública - especialmente o movimento da eugenia, no início do século XX, com as suas chocantes campanhas de esterilização forçada - é importante garantir que tal poder é exercido de forma sensata e com uma sólida base científica.

Finalmente, se só um pequeno número de membros da sociedade desfrutar bastante de uma vantagem genética, a coesão social e as instituições democráticas poderão estar ameaçadas, mesmo que não haja qualquer dano físico directo. Se a engenharia genética que permitimos é para beneficiar os nossos descendentes, então deve estar o mais disponível possível para todos.