Healthcare professionals who have been recruited to work in Sierra Leone The Times/Getty Images

Ressuscitar os cuidados de saúde em África

FREETOWN, SERRA LEOA –No final de outubro, a Federação Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho (IFRC) confirmou o que muitos já suspeitavam há bastante tempo: milhões de dólares que foram doados para combater os surtos de Ébola na Guiné e na Serra Leoa foram mal geridos e roubados. A mais antiga organização humanitária do mundo ficou indignadacom as descobertas, disse.

The Year Ahead 2018

The world’s leading thinkers and policymakers examine what’s come apart in the past year, and anticipate what will define the year ahead.

Order now

Escusado será dizer que não foi a única.

Eu era o coordenador nacional dos enterros derivados do Ébola na Serra Leoa, no auge da epidemia. Durante grande parte da crise, que teve início em 2014, tivemos falta do equipamento e materiais necessários para controlar o vírus mortal. Perdemos muitos trabalhadores de saúde, entre a escassez de recursos, e a ideia de perder a minha própria vida –deixando uma família e dois filhos pequenos –apavorava-me diariamente. Eram tempos de ansiedade para o meu país.

Essa ansiedade não desapareceu. Os meus pensamentos retornam frequentemente aos colegas que morreram durante a luta heroica. E agora, com a confirmação de que enormes somas de auxílio foram roubadas, a dor é agravada pela raiva e deceção –pela fraude em si, mas também pelo que se diz sobre as lutas de África para melhorar os resultados e acesso aos cuidados de saúde.

A fraude desenfreada ilustra o quão problemático pode ser quando os doadores canalizam recursos através de grandes ONG, como a Cruz Vermelha. E a revelação da IFRC é, provavelmente, apenas a ponta do iceberg. O ministro da Saúde e do Saneamento de Serra Leoa fez a primeira advertência sobre a possibilidade de uma fraude generalizada, em maio de 2015; ele até apelou a uma total contabilização do dinheiro recebido e gasto. Infelizmente, o seu pedido foi amplamente ignorado.

O silêncio foi lamentável, mas não surpreendente; controlar os fundos dos doadores é extremamente difícil. Quando os governos e doadores privados prometem ajuda monetária, os fundos passam normalmente por uma cadeia de grandes grupos que determinam como serão atribuídos. Mas é raro haver uma total contabilização. Por exemplo, o Gabinete de Coordenação dos Assuntos Humanitários das Nações Unidas estima que 3,3 mil milhões de dólares foram doados a países que foram duramente atingidos pelo Ébola. E, no entanto, os dados do Gabinete não revelam como é que o dinheiro foi gasto.

Há um acordo generalizado entre governos, parceiros de desenvolvimento e agências humanitárias de que numa situação de crise, como a causada pelo Ébola –ou qualquer outra situação de emergência de saúde –uma gestão financeira sólida é fundamental. Só com uma elaboração de orçamentos disciplinada é que as equipas podem ser devidamente equipadas e remuneradas, os hospitais podem ter bons armazenamentos e os centros de triagem podem abrir. Sempre que as promessas bem intencionadas não conseguem chegar aos que precisam, o resultado é avaliado pela falta de recursos –desde a escassez de médicos até à falta de veículos para transportar os doentes e para enterrar os mortos.

A raiva foi a primeira emoção que senti após ter conhecimento da fraude no financiamento da IFRC. Mas é o segundo sentimento –a desilusão –que tem de fazer avançar a África. Se o continente pretende obter ganhos na obtenção de uma cobertura universal de saúde (UHC) e na melhoria da qualidade dos cuidados de saúde para todos, tem de começar por garantir que os recursos são usados de forma eficaz e justa.

Alguns progressos foram feitos no fortalecimento dos processos de planeamento e princípios nacionais. E, de acordo com a Aliança UHC 2030, que trabalha para melhorar a qualidade e o acesso aos sistemas de cuidados de saúde em todo o mundo, os países beneficiários têm feito muito mais do que os seus parceiros internacionais para definir quadros orçamentais mais eficazes. Mas África ainda tem um longo caminho a percorrer, antes de os sistemas de gestão financeira e de aquisição obedecerem a padrões adequados.

De forma a melhorar os sistemas de cuidados de saúde de África, e evitar a repetição do fiasco do financiamento da IFRC para combater o Ébola, os países que recebem ajuda necessitam de melhores protocolos de gestão financeira. Em emergências de saúde, o auxílio imediato é essencial. Mas se é para essa ajuda ser atribuída corretamente, os países beneficiários já têm de ter a capacidade de gerir grandes somas de forma transparente. O objetivo tem de ser o de assegurar que os países beneficiários têm uma supervisão sobre como os fundos dos doadores são gastos.

Atualmente, está a acontecer o contrário e a maioria dos países africanos são como o marinheiro cheio de sede à deriva no mar - vemos dinheiro em todo o lado, mas não temos nenhuma capacidade para usá-lo. Para beber do oceano das ajudas, os países africanos têm primeiro de assumir o controlo dos seus destinos relativos ao financiamento de cuidados de saúde.

Para fazerem isso, os recursos têm de ser usados eficazmente. Uma abordagem regional e setorial é fundamental para melhorar a coordenação e evitar a duplicação. Depois da guerra e do genocídio no Ruanda, por exemplo, o governo do país exigiu que todos os parceiros de desenvolvimento trabalhem de acordo com a agenda do governo. Hoje, o Ruanda está entre os líderes mundiais no acesso aos cuidados de saúde e nos resultados. A experiência do Ruanda deve servir de modelo para outros países.

Enquanto o mundo acompanhava o Dia da Cobertura Universal de Saúde, em dezembro, fiquei a refletir sobre os horrores dos últimos anos e a considerar quais os passos que devemos tomar para melhorar os cuidados de saúde no futuro. Em Serra Leoa, como em outros lugares, o foco deve estar nas lideranças, governações e parcerias fortes.  Mas acima de tudo, temos de usar a nossa insatisfação coletiva com os fracassos anteriores nos esforços de incentivo, para tornar os cuidados de saúde de qualidade uma realidade para todos.

http://prosyn.org/ECMEUWA/pt;

Handpicked to read next