2

A Democracia e as Redes Sociais

NOVA DELI – A 4 de Julho, Narendra Modi, Ministro-Chefe de Guzerate e presumível candidato a primeiro-ministro pelo Partido Bharatiya Janata (PBJ), actualmente na oposição, tornou-se o político Indiano mais seguido no Twitter, com mais de 1,8 milhões de seguidores. (Em abono da verdade: o líder de longa data que ele eclipsou era eu.) A ocasião foi celebrada na Internet pelos apoiantes do PBJ, e despoletou uma série de avaliações relativas ao impacto crescente das redes sociais na política Indiana.

Há quatro anos, quando entrei pela primeira vez no Twitter, muitos políticos Indianos escarneciam o uso das redes sociais. Parecia que qualquer observação minha era retirada de contexto na imprensa, e ampliada até produzir uma controvérsia política. Como o presidente do PBJ da altura, Venkaiah Naidu, me avisou premonitoriamente, “Demasiados tweets podem levar à demissão.”

Chicago Pollution

Climate Change in the Trumpocene Age

Bo Lidegaard argues that the US president-elect’s ability to derail global progress toward a green economy is more limited than many believe.

Até há tão pouco tempo como o passado mês de Setembro, o Economic Times da Índia relatava que, confrontada com tais riscos, a maioria dos jovens políticos Indianos não participava activamente em qualquer rede social. Aqueles que possuíam contas activas faziam apenas publicações esporádicas – e desinteressantes.

O jornalista e poeta Pritish Nandy, entrevistado no artigo do Times, salientou que até ele tinha mais seguidores no Twitter que o Primeiro-Ministro Manmohan Singh (que tinha apenas 195.000 na altura). Outros entrevistados deixaram claro que não tinham qualquer intenção de adoptar as redes sociais no futuro próximo.

Mas o ritmo de adopção das redes sociais pelo mundo político acelerou enormemente no último ano. Para além da adopção generalizada do Twitter por parte do PJB – os aliados de Modi na rede incluem o líder parlamentar do partido, Sushma Swaraj, e um séquito de apoiantes organizados – já aderiram à rede políticos Indianos proeminentes e provenientes de todos os partidos.

Um dia depois de ter sido empossado como presidente da Índia, Pranab Mukherjee anunciou que abriria uma conta no Facebook para receber e responder a perguntas do público. O Ministro-Chefe de Bengala Ocidental, Mamata Banerjee, gere um sítio de internet, popular e de grande difusão, que a comunicação social tradicional explora diariamente. Do mesmo modo, Omar Abdullah, o jovem Ministro-Chefe de Jammu e Caxemira, interage regularmente no Twitter, e os seus muito mais idosos congéneres do Rajastão e de Kerala, respectivamente Ashok Gehlot e Oommen Chandy, também abriram contas no Facebook.

Mais de metade do Conselho de Ministros está agora online, como está também a Comissão de Planeamento, que fornece informação estatística, e a maioria dos gabinetes governamentais está a criar presença nas redes sociais. A conta de Twitter do primeiro-ministro mais do que triplicou os seus seguidores nos últimos nove meses, para quase 660.000 (um número de seguidores mais do que 50% maior do que o de Nandy).

As questões políticas Indianas são levantadas e debatidas regularmente – e agitadamente – nas redes sociais. O ministro das finanças falou ao público sobre o orçamento, não na TV, mas num Hangout da Google. Foi imitado pela Comissão de Planeamento, pelo Ministro do Transporte Rodoviário e das Auto-estradas, e por mim próprio. Uns 12% da população Indiana – a extensão actual da penetração da Internet – fazem do país o terceiro maior mercado online do mundo, e também o de mais rápido crescimento, considerando a sua dimensão. Na verdade, em termos de pessoas online, espera-se que a Índia ultrapasse os EUA em 2020.

Não obstante, deve encarar-se o alcance e o impacto político das redes sociais na Índia com cepticismo. Um estudo recente, levado a cabo pela Fundação IRIS para o Conhecimento e pela Associação Indiana de Internet e Mobilidade (AIIM), sugere que existem pelo menos 160 círculos eleitorais (dos 543 que elegem a câmara baixa do parlamento Indiano) onde a margem de vitória é inferior ao número de eleitores no Facebook, ou onde mais de 10% da população está no Facebook. O estudo estima que, nas próximas eleições, previstas para 2014, 80 milhões de Indianos usarão as redes sociais – um bloco eleitoral que, supostamente, nenhum político se poderá dar ao luxo de ignorar.

Como um dos primeiros políticos Indianos a aderir às redes sociais, a minha opinião é que esta conclusão é prematura. Não acredito, dados estes valores, que qualquer eleição Indiana possa ser ganha ou perdida apenas devido às redes sociais.

Apenas uma pequena minoria dos 753 milhões de eleitores Indianos usa as redes sociais; com círculos eleitorais contendo cerca de dois milhões de pessoas cada, o Twitter é de pouca ajuda na mobilização política. Ao contrário dos EUA, por exemplo, o Twitter seria inútil para organizar um comício ou até para convocar uma reunião pública.

Mas, embora as redes sociais não possam substituir as campanhas convencionais, podem ajudar a definir a agenda do debate público, porque a comunicação social tradicional – os jornais e a televisão, que chegam à maioria dos eleitores – exploram as redes sociais para informações relativas aos políticos. Este impacto indirecto transforma as redes sociais numa ferramenta de comunicação indispensável para os políticos.

Isto tornar-se-á certamente ainda mais importante quando os desenvolvimentos que melhoram a disponibilidade da Internet nos telemóveis, e o advento dos serviços 4G, tornarem universal o acesso às redes sociais. Embora apenas 12% dos Indianos utilizem computadores, mais de 70% têm telemóveis, mas actualmente muito poucos acham fácil ou acessível a sua utilização para aceder às redes sociais.

Em qualquer caso, nenhum político democrático deveria resistir a um novo meio de comunicação, especialmente um meio interactivo – mesmo que alguns pareçam encará-lo principalmente como uma ferramenta de relações públicas. O triunfo de Modi não foi manchado perceptivelmente por acusações generalizadas de que o PJB esteja a criar contas “falsas” para aumentar o seu número de seguidores (e, se isso fosse verdade, seria uma prova adicional da importância actual do Twitter na Índia).

Fake news or real views Learn More

O nome Twitter desencorajou-me inicialmente, e muitos peritos Indianos sugeriram que não seria um meio adequado a um político sério. Mas também Google e Yahoo! foram no passado nomes tolos; ambos são hoje nomes familiares. Estou convencido que a maioria dos políticos nas democracias do século vinte e um – incluindo a Índia – estarão a tweetar dentro de dez anos, e aqueles que se anteciparam, como eu, terão apenas a consolação de saber que chegaram lá em primeiro lugar.

Traduzido do inglês por António Chagas