4

O Plano de Jogo Afegão da China

MADRID – No seu último livro, Sobre a China, Henry Kissinger usa os jogos intelectuais tradicionais preferidos pela China e pelo Ocidente – o weiqi e o xadrez – como um meio para revelar as suas diferentes atitudes relativamente às políticas do poder internacional. O xadrez é sobre a vitória total, uma batalha Clausewitziana pelo “centro de gravidade” e pela eventual eliminação do inimigo, enquanto o weiqi é uma busca de vantagem relativa, através de uma estratégia de cerco que evita o conflito directo.

Este contraste cultural é um guia útil para o modo como a China gere a sua actual competição com o Ocidente. A política Afegã da China é um caso particular, mas é também um desafio formidável para a via do weiqi. À medida que os Estados Unidos se preparam para retirar as suas tropas do país, a China irá lidar com um incerto cenário pós-guerra.

O Afeganistão é de interesse estratégico vital para a China, e no entanto nunca passou pela cabeça dos seus líderes usar a guerra para defender esses interesses. Uma zona de segurança vital para o ocidente da China, o Afeganistão é também um corredor importante através do qual pode assegurar os seus interesses no Paquistão (um aliado tradicional na competição entre a China e a Índia), e assegurar o seu acesso a recursos naturais vitais na região. Além disso, a já de si inquieta e maioritariamente Muçulmana província Chinesa de Xinjiang, que faz fronteira com o Afeganistão, poderá ser perigosamente afectada por uma insurreição Talibã, ou pelo desmembramento do país.

Os EUA travaram a sua guerra mais longa de sempre no Afeganistão, a um custo (até agora) de mais de 555 mil milhões de dólares, sem mencionar as baixas de dezenas de milhares de civis Afegãos e de perto de 3.100 militares dos EUA. Mas a estratégia da China no país foi principalmente concentrada no desenvolvimento de negócios, e em saciar o seu vasto apetite por energia e minerais. O Departamento de Defesa dos EUA valorizou os depósitos de minerais inexplorados do Afeganistão em 1 bilião de dólares. Mas é a China quem está a preparar-se para explorar muitos desses recursos.