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O que é que impede as mulheres?

 PRINCETON - Quando escrevi o artigo da edição de Julho/Agosto da revista The Atlantic, intitulado “Why Women Still Can’t Have It All” [Por que é que as mulheres ainda não podem ter tudo], eu esperava uma reacção hostil de muitas mulheres norte-americanas da minha geração, e mais velhas, que têm uma carreira profissional e reacções positivas de mulheres com idades entre os 25 e os 35 anos. Esperava que muitos homens dessa geração mais nova também tivessem fortes reacções, dado que muitos deles estão a tentar descobrir de que forma podem ficar com os seus filhos, apoiar as carreiras das suas esposas ou companheiras e realizar os seus próprios planos.

Também esperava ouvir, dos representantes do sector empresarial, se as minhas soluções propostas - maior flexibilidade de local de trabalho, acabar com a cultura do contacto e com a “época do machismo” e permitir que os pais que têm estado fora do mercado de trabalho ou que têm trabalhado em part-time possam competir para cargos de topo, de igual para igual, a partir do momento em que reentram no mercado - eram possíveis ou utópicas.

Aleppo

A World Besieged

From Aleppo and North Korea to the European Commission and the Federal Reserve, the global order’s fracture points continue to deepen. Nina Khrushcheva, Stephen Roach, Nasser Saidi, and others assess the most important risks.

O que eu não esperava era a velocidade e a escala da reacção - quase um milhão de leitores numa semana, muitas respostas por escrito e debates nos blogues, na TV e na rádio para eu acompanhar - e o seu alcance a nível mundial. Tenho realizado entrevistas com jornalistas na Grã-Bretanha, na Alemanha, na Noruega, na Índia, na Austrália, no Japão, na Holanda e no Brasil e foram publicados artigos sobre a matéria em França, na Irlanda, na Itália, na Bolívia, na Jamaica, no Vietname, em Israel, no Líbano, no Canadá e em muitos outros países.

As reacções diferem de país para país, é claro. Na verdade, em muitos aspectos, o artigo é um verdadeiro teste para se saber em que posição é que cada país está, na sua própria evolução, em direcção à plena igualdade entre homens e mulheres. Índia e Grã-Bretanha, por exemplo, tiveram mulheres fortes como primeiras-ministras, Indira Gandhi e Margaret Thatcher respectivamente, mas agora têm de enfrentar o arquétipo “uma mulher como um homem” do sucesso feminino.

Os países escandinavos sabem que as mulheres em todo o mundo olham para eles como pioneiros de políticas sociais e económicas que permitem às mulheres serem mães e profissionais de sucesso e que incentivam e esperam que os homens desempenhem um papel parental de igualdade. Mas eles não apresentam tantas gestoras no sector privado como os Estados Unidos, muito menos em cargos de topo.

Os alemães estão profundamente em contradição. Uma grande revista alemã decidiu enquadrar a minha contribuição para o debate como “executivas admitem que é melhor estar em casa”. Outra (mais fielmente) realçou a minha ênfase sobre a necessidade de uma profunda mudança social e económica que permita que as mulheres tenham escolhas iguais.

Os franceses continuam cuidadosamente distantes, até mesmo um pouco desdenhosos, como conv��m a uma nação que rejeita o “feminismo” como sendo uma criação anti-feminina norte-americana e consegue “criar” uma líder que é, simultaneamente, bem-sucedida e elegante, como Christine Lagarde, a directora do Fundo Monetário Internacional. É claro que o exemplo do seu antecessor, Dominique Strauss-Kahn, e outras histórias sobre o comportamento masculino francês, que seria considerado de claro assédio sexual num país formal como os EUA, sugerem que talvez um pouco mais de feminisme a la Française seja permitido.

Fora da Europa, as mulheres japonesas lamentam o quanto ainda têm de lutar numa cultura implacavelmente masculina e machista. Os chineses têm agora uma geração de mulheres instruídas e fortalecidas que não têm a certeza se querem casar, devido às restrições que o marido (e a sogra) iria colocar na sua liberdade.

As mulheres brasileiras referem-se com orgulho à sua presidente, Dilma Rousseff, mas também sublinham a discriminação que ainda existe. Na Austrália, com o seu forte debate sobre a vida profissional, as mulheres apontam para o sucesso de Julia Gillard, a primeira mulher primeira-ministra, mas realçam o facto de ela não ter filhos (nem a chanceler alemã, Angela Merkel, a primeira mulher a liderar o seu país).

A natureza mundial deste debate demonstra pelo menos três lições importantes. Em primeiro lugar, se o “poder suave” significa exercer influência, porque “os outros querem o que você quer”, como Joseph Nye diz, então as mulheres de todo o mundo querem o mesmo que as feministas norte-americanas queriam quando começaram a lutar, há três gerações.

Em segundo lugar, os norte-americanos, o que não é de surpreender, têm muito a aprender com os debates, leis e normas culturais de outros países. Afinal de contas, as mulheres ascenderam na política mais rapidamente em muitos outros países, do que nos EUA. Na verdade, os EUA nunca tiveram uma mulher presidente, uma líder da maioria no Senado, uma secretária do Tesouro ou uma secretária da Defesa.

Finalmente, estas não são “questões femininas”, mas sim questões sociais e económicas. As sociedades que descobrem como utilizar a educação e o talento de metade das suas populações, ao mesmo tempo que permitem que as mulheres e os seus cônjuges ou companheiros invistam nas suas famílias, terão uma vantagem competitiva na economia mundial do conhecimento/da inovação.

É claro que centenas de milhões de mulheres de todo o mundo só podem desejar ter os problemas que eu escrevi. Na semana passada houve notícias sobre mais um assassinato de uma activista dos direitos das mulheres no Paquistão; testemunhos de que os militares egípcios podem servir-se deliberadamente da violência sexual para dissuadirem as mulheres de se manifestarem na Praça Tahrir, no Cairo; um relatório horrível do Women’s Media Center, com sede em Nova Iorque, sobre a prática de violência sexual por parte das forças governamentais sírias e de violações em grupo e um vídeo de um comandante talibã a executar brutalmente uma mulher por adultério, ao mesmo tempo que os seus colegas e os aldeãos aplaudem.

Esses são apenas os casos mais extremos de violência física que muitas mulheres enfrentam. Mundialmente, mais de mil milhões de mulheres enfrentam opressão e descriminações de género manifestas na educação, na nutrição, nos cuidados de saúde e nos salários.

Os direitos das mulheres são uma questão mundial de extrema importância e é necessário concentrar a atenção nas piores violações. Ainda assim, considere um recente relatório factual de uma prudente e respeitada revista dos EUA. Num artigo sobre “Women in Washington” [As mulheres em Washington], a National Journal observou que as mulheres na capital dos EUA já percorreram um longo caminho, mas “ainda enfrentam obstáculos à progressão de carreira e, muitas vezes, a maior delas é ter uma família”.

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Se “ter uma família” ainda é um obstáculo à progressão de carreira para as mulheres, mas não para os homens, então, isso também é uma questão de direitos das mulheres (e, portanto, dos direitos humanos). No debate mundial sobre trabalho, família e promessa de igualdade de género, nenhuma sociedade está isenta.

Tradução: Deolinda Esteves