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O Outono dos Patriarcas

MADRID – No seu leito de morte, Francisco Franco terá feito a seguinte observação: "que difícil é morrer!". Aparentemente, para os autocratas, a morte é sempre particularmente difícil, mesmo quando morrem de causas naturais.

A agonia de um ditador é sempre uma forma de teatro, onde aparecem massas alvoraçadas, possíveis sucessores que lutam pela sobrevivência política e, nos bastidores, elementos do círculo do ditador empenhados em manter a vida do seu patriarca até conseguirem garantir os seus privilégios. O genro de Franco, que era também o médico da família, manteve o déspota moribundo ligado a máquinas de suporte de vida, durante mais de um mês.

Não se sabe ao certo há quanto tempo o venezuelano Hugo Chávez estaria morto, quando o seu falecimento foi oficialmente anunciado. Com o objectivo de ganhar tempo para assegurar o seu futuro político, as autoridades do governo venezuelano dirigiram cuidadosamente a representação da doença e da posterior morte de Chávez, chegando mesmo a sugerir que o Presidente ainda "caminhava e fazia exercício”, num período em que a sua vida já se encontrava próxima do fim e em que recebia tratamentos oncológicos complexos e agonizantes. O vazio de informação fez lembrar o secretismo em torno das mortes de Estaline e de Mao e o hábito existente no império Otomano de manter em segredo a morte do sultão, durante semanas, até que a questão da sucessão fosse resolvida.

A manipulação emocional da mise-en-scène em torno da morte de Chávez parece certamente traduzir-se num apoio eleitoral a favor do seu sucessor, Nicolás Maduro. Mas será este facto suficiente para criar uma linhagem chavista?