Frédéric Soltan

Eliminar a lacuna de apatia dos jovens

NAIROBI –quando os países-membros das Nações Unidas adotaram os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável, há dois anos, assumiram o compromisso de reduzirem substancialmente a proporção de jovens sem emprego, educação ou formação. Esse compromisso será praticamente impossível de cumprir, a menos que a participação política dos jovens aumente consideravelmente.

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Os jovens são fundamentais para o progresso. Tal como, na altura, o presidente dos EUA, Barack Obama mencionou num discurso, em 2015, em Nairobi, nenhum país consegue alcançar o seu total potencial, a menos que tire partido do talento de toda a sua população. E os jovens constituem, agora, uma grande percentagem dessa população –18% da população mundial, para ser mais preciso. A percentagem é ainda maior em grande parte do mundo em vias de desenvolvimento. A idade média da população de África é de apenas 19,5 anos.

Dado o número existente, para não falar do aumento das taxas de educação e de alfabetização, os jovens podem mudar o mundo, moldar o discurso político e os resultados eleitorais. Mas isso exige que estejam envolvidos e ativos.

No Reino Unido, a maioria dos jovens deseja permanecer na União Europeia. Tal como uma sondagem de Lord Ashcroft revelou, 73% dos jovens com idades compreendidas entre os 18 e os 24 anos, e 62% dos jovens com idades compreendidas entre os 25 e os 34 anos, votaram em conformidade no referendo do ano passado. Mas a maioria dos jovens britânicos não apareceu para exercer o seu direito ao voto, permitindo que os cidadãos mais velhos do Reino Unido, predominantemente coortes a favor do Brexit, levassem a melhor.

Presumivelmente, tendo aprendido a lição com o referendo de Brexit, os jovens britânicos contribuíram para uma vitória inesperada do partido Trabalhista Labournas rápidas eleições gerais, em junho. Nas eleições presidenciais do Quénia, realizadas no mês passado, 51% dos eleitores registados tinham menos de 35 anos de idade. Embora o Supremo Tribunal tenha anulado os resultados e ordenado uma nova votação, devido a irregularidades e ilegalidades eleitorais, é provável que um grande número de jovens apareça novamente.

Infelizmente, o Quénia é a exceção que confirma a regra. A apatia política entre os jovens, como a que se viu no referendo Brexit, continua generalizada em todo o mundo. Em muitas regiões de África, por exemplo, os jovens estão desiludidos com a política, convencidos de que as pessoas mais velhas ricas irão sempre prevalecer e promover os seus próprios interesses, muitas vezes à custa das gerações mais jovens.

Este sentimento de impotência ameaça transformar a protuberância da juventude que existe no mundo em vias de desenvolvimento numa maldição da juventude –com graves potenciais consequências. As revoltas na Primavera Árabe, que levaram à violência e à instabilidade nos países mais afetados, foram alimentadas em grande parte por jovens desesperados que exigiam direitos e oportunidades.

Para evitar desfechos desse género, os jovens precisam de participar na vida política dos seus países, serem capazes de promover as suas próprias visões do futuro. À semelhança do que os jovens quenianos repetiram durante a recente campanha eleitoral: Se não estás à mesa, estás no menu.

Então, o que é que pode ser feito para aumentar a consciência política e participação entre os jovens? No Quénia, os esforços do governo têm-se centrado na criação de três instituições: o Ministério da Função Pública, Juventude e Assuntos de Género; o Fundo de Desenvolvimento da Juventude Empresarial; e o Conselho Nacional de Juventude. Embora um tanto disfuncionais, estas instituições têm ajudado a empoderar os jovens quenianos, impulsionando uma participação eleitoral elevada no mês passado.

Mas talvez a abordagem mais eficaz para acabar com a lacuna de apatia se concentre em iniciativas lideradas pelos próprios jovens. Na Nigéria, os jovens lideraram a campanha Não é muito jovem para dirigir, que conduziu a uma alteração constitucional reduzindo a idade mínima para os candidatos. O sucesso que obtiveram inspirou uma campanha global de apoio ao direito dos jovens de se candidatarem.

No Quénia, o movimento Jiactivateliderado por jovens - o nome que combina os idiomas swahili e inglês, significa Ativa-teprocurou alavancar a participação dos jovens na política, realçando os principais assuntos que afetam os jovens. O Jiactivate, no qual estou envolvido como presidente nacional, pretende servir como uma plataforma que amplifica as vozes dos jovens quenianos, oferecendo-lhes formas mais fáceis de tomar medidas.

Para inspirar mais iniciativas idênticas, tem de haver um esforço deliberado para o envolvimento com os jovens, de uma maneira que apoie um envolvimento político real e não uma retórica simbólica e vazia. Para isso, a Organização da Juventude de África, da qual sou coordenador, não só trabalhou com grupos de jovens locais e redes comunitárias, como também recolheu aprendizagem de um inquérito da GeoPoll feito a 2000 jovens quenianos urbanos e rurais.

Esse inquérito mostrou que, enquanto 27% dos entrevistados nunca se tinham envolvido politicamente, 26% participaram num evento e 34% publicaram nas redes sociais. Além disso, 68% dos inquiridos disseram que só iriam participar na ação política se tivessem acesso a uma plataforma segura e confiável que os protegesse de vitimização, intimidação ou repreensão.

Uma lição que se pode tirar destes dados é o valor potencial das redes sociais, que, embora sejam limitadas em muitos países durante as eleições, continuam a ser uma ferramenta poderosa para facilitar o envolvimento político. Por exemplo, ao usar de forma criativa as redes sociais para recolher, agrupar e amplificar as prioridades dos jovens nas eleições quenianas, o Jiactivate ajudou a estimular o interesse dos jovens pela política.

No entanto, muitos quenianos que eram populares nas redes sociais não causaram muito impacto no resultado das eleições. Traduzir a energia das redes sociais para uma ação eficaz no mundo real continua a ser um desafio assustador.

Aumentar o envolvimento dos jovens na política exigirá um empenho contínuo e trabalho árduo. Mas, longe de ser um impedimento, isto deve servir como um poderoso incentivo para começar. Ninguém é mais afetado pelas políticas do passado, do presente e do futuro do que os jovens. Eles têm de ocupar o seu lugar à mesa, não ficar à espera que lhes seja oferecido um.

http://prosyn.org/JH1wsxC/pt;

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