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A derradeira oportunidade da democracia egípcia?

CAIRO – As próximas eleições legislativas no Egipto poderiam ajudar a consolidar a democracia emergente do país e a dar legitimidade aos esforços do governo para abordar os desafios sociais, políticos, económicos e de segurança que o país enfrenta. Mas nenhuma eleição, por muito bem orientada que seja, será suficiente: A menos que o Egipto vença a sua actual polarização política e construa um consenso geral que inclua partidos islâmicos e a oposição secular no poder, os seus problemas irão persistir, comprometendo a perspectiva de um futuro democrático.

A falta de instituições democráticas fortes e a crise económica que decorre no Egipto estão a alimentar a agitação e a crise sociais, a divisão e a hostilidade no seio do sistema político. Ao mesmo tempo, as forças policiais e de segurança com formação insuficiente e inadequadamente supervisionadas tornaram-se alvos da ira pública; a segurança do Egipto pode entrar em colapso.

Neste contexto, a proposta do Presidente egípcio, Mohamed Morsi, para realizar eleições nos próximos meses deveria ser bem-vinda. Na verdade, a proposta é apoiada pela maioria dos partidos que obtiveram bons resultados na última vez - altura em que ocorreram as primeiras eleições livres do país após a destituição do ex-Presidente Hosni Mubarak, em 2011. Mas, citando preocupações de que as eleições não serão livres e justas, o partido da oposição Frente de Salvação Nacional (FSN) - constituído em grande parte por partidos seculares que obtiveram maus resultados nas últimas eleições - ameaçou um boicote.

Nas últimas eleições parlamentares, realizadas entre Novembro de 2011 e Janeiro de 2012, o Partido Liberdade e Justiça (PLJ), braço político da Irmandade Muçulmana, ganhou 213 dos 508 assentos; o partido salafista Al-Noor conseguiu 107 assentos; e o Partido Liberal New Wafd conseguiu 41 assentos. Em Junho de 2012, o candidato Morsi do PLJ foi eleito Presidente - um resultado que a FSN continuou a contestar. Muitos revolucionários autodeclarados até estão à espera que a frágil situação social e a deterioração da segurança irão obrigar os militares a intervir, fazendo, assim, com que a luta pelo poder regresse às ruas.