Thursday, October 2, 2014
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Mitt Romney e a Realidade dos Factos

NOVA IORQUE – Está actualmente em curso nos Estados Unidos uma espécie de guerra entre a realidade e a fantasia. A reeleição do Presidente Barack Obama marcou uma vitória, limitada mas inconfundível, da realidade dos factos.

Nos dias que antecederam as eleições presidenciais dos Estados Unidos, os acontecimentos proporcionaram uma imagem dramática da luta. Os assessores principais do candidato republicano Mitt Romney estavam convictos de que este estava na iminência da vitória. Esta opinião não tinha por base os resultados das sondagens. No entanto, a convicção tornou-se tão forte que os assessores de Romney começaram a tratá-lo por "Sr. Presidente".

Mas o facto de desejarem que esse facto fosse verdade não foi o suficiente para torná-lo numa realidade. Isto foi o mais próximo que Romney esteve de ser Presidente e, ao que parece, o candidato quis aproveitar a situação enquanto pôde, ainda que prematuramente. Então, na noite das eleições, quando as redes de televisão previram a derrota de Romney em Ohio e, por conseguinte, a reeleição de Barack Obama, a campanha de Romney, continuando a negar a realidade, recusou-se a aceitar o resultado. Passou-se uma hora "difícil" até que o candidato aceitasse a realidade e fizesse um afável discurso de concessão.

Esta negação da realidade tem sido a imagem de marca não só da campanha republicana, como de todo o partido republicano, nos últimos tempos. Quando, em Outubro, o Bureau of Labor Statistics (BLS) divulgou um relatório, que indicava que a taxa de desemprego nacional se mantinha "num valor praticamente inalterado de 7,9%", os agentes republicanos tentaram desacreditar o altamente conceituado BLS. Quando as sondagens mostraram que Romney estava a ficar para trás em relação ao Presidente Barack Obama, tentaram desacreditar as sondagens. Quando o Serviço de Investigação do Congresso (SIC), uma entidade não partidária, informou que um plano fiscal republicano em nada contribuiria para promover o crescimento económico, os senadores republicanos forçaram o SIC a retirar o seu relatório.

Esta recusa em aceitar as evidências reflecte um padrão ainda mais amplo. Cada vez mais, o Partido Republicano, em tempos um partido político bastante normal, arroga o direito de viver numa realidade alternativa - um mundo no qual George W. Bush encontrou realmente as armas de destruição em massa que julgava estarem no Iraque; as reduções dos impostos acabam com os défices orçamentais; Obama, além de ser muçulmano, nasceu no Quénia e, portanto, deverá ser excluído da presidência e o aquecimento global é uma farsa inventada por um bando de cientistas socialistas. (Os democratas, por sua vez, também puseram um pé no plano do irreal.)

De todas as convicções irrealistas dos republicanos, a negação completa das alterações climáticas devido à acção do homem foi certamente a que teve consequências mais sérias. Afinal de contas, se não for devidamente controlado, o aquecimento global tem potencial para degradar e destruir as condições climáticas que estão na base e que tornaram possível a ascensão da civilização humana ao longo dos últimos dez milénios.

Enquanto governador de Massachusetts, Romney mostrou que acreditava na realidade do aquecimento global. Como candidato presidencial, no entanto, juntou-se aos negacionistas - uma mudança que ficou clara quando, em Agosto, aceitou a nomeação do partido em Tampa, na Flórida. "O presidente Obama prometeu começar a abrandar o aumento do nível dos oceanos", disse Romney à convenção republicana, fazendo de seguida uma pausa com um sorriso de expectativa como o de um comediante que espera que o público perceba a piada.

E o público percebeu. Houve um crescendo de gargalhadas. Romney aproveitou este crescendo e rematou: "E curar o planeta" O público delirou. Foi, talvez, o momento mais marcante e lamentável numa campanha igualmente lamentável - um momento que está destinado à notoriedade indelével no que a história escreverá sobre o esforço da humanidade no sentido de preservar um planeta habitável.

Houve uma sequela surpreendente. Oito semanas mais tarde, o furacão Sandy  atingiu a costa de Nova Jersey e a cidade de Nova Iorque. A subida das águas, que atingiu os 4,2 metros, foi coadjuvada pelo aumento do nível do mar que já se faz sentir, em consequência de um século de aquecimento global e a extensão e a intensidade da tempestade foram alimentadas pelo aumento da temperatura das águas do mar de um planeta em aquecimento. Essa maré de realidade - que Alexander Solzhenitsyn designou como "o pé de cabra impiedoso dos acontecimentos" - rebentou a bolha da campanha de Romney, fragmentando as suas paredes de forma tão categórica como as da baixa de Manhattan e de Far Rockaway.

Na disputa entre a realidade e a fantasia, subitamente a realidade tinha um aliado poderoso. O mapa político foi redesenhado de forma subtil, mas consequente. Obama entrou em acção, desta vez não como um mero candidato questionável, mas como um presidente fiável, cujo apoio era extremamente necessário para a população afectada da Costa Leste. Tal como mostraram as sondagens, oito em cada dez eleitores avaliaram de forma positiva o seu desempenho e muitos declararam que essa opinião influenciou o seu voto.

Numa surpreendente reviravolta de forte impacto político, o governador de Nova Jersey, Chris Christie, que tinha sido o orador principal na convenção republicana em que Romney tinha troçado dos perigos do aquecimento global, acabou por fazer parte daqueles que ficaram bem impressionados com o desempenho de Obama, e afirmou-o publicamente.

O mundo político norte-americano - não só os republicanos, mas também os democratas (embora em menor escala) – tinham ignorado realidades enormes e aterradoras. Mas essas realidades, como se estivessem atentas, ripostaram e entraram em campo. Votaram cedo e podem muito bem ter influenciado o resultado. A Terra falou e os americanos, desta vez, ouviram.

Tradução: Teresa Bettencourt

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  1. Commentedjames durante

    There are many levels of delusional thinking that comprise the cultural heart of "civilization," the very thing Schell seems so desperate to save. There is the idea that you can somehow square the relentless expansionism of civilizations with justice. There is the idea that civilization can compensate for the loss of primitive innocence when all it does is destroy it with increasing rapacity. There is the idea that "this time is different" and civilization will magically save itself when every civilization, by its very operation, brings about its own collapse.

    Does Schell think that the slightly less delusional democrats have a plan for countering the constant growth model of this civilization? That is delusional.

  2. Commentedjack lasersohn

    You might consider that if a population is lied to often enough, it begins to distrust all historic sources of authority, and is easily preyed upon by charlatans.

    Since you have focused on the lies of the right i will mention a few on the left. The government has been a prime source for many of these 'big lies'.The biggest, and the source of much of the rational anger on the right, has been the claim since the days of FDR and Johnson that we could finance the kind of entitlement system they created without massive taxes on the American middle class at some point. We have reached that point and the portion of the American populous who actually pay taxes have recognized the lie and are now in open revolt.
    The 'big lie' of the recent campaign, that we can finance our enormous future public liabilities , with a tax increase on the upper 1%, was as outrageous as any on the republican side.
    The rejection of science on the left is just as crazy as on the right, from 'vaccines cause autism' , to 'herbal upper colonics cure cancer', to 'all the strontium 90 found in the baby teeth of children must come from nuclear power plants', etc.
    If carbon from fossil fuel is causing global warming, then the rational answer is to tax fossil carbon and let market innovators figure out how to deal with it. Instead, Obama grants special subsidies to favored constituents while implying that this is somehow the answer, so that his favored 'middle class' need never pay a penny to save the planet.
    And the rest of the left wing blogosphere offers similar 'pain free' solutions (debt financed stimulus) to a market crash caused by middle class families buying homes they could not afford on credit.
    Any objective observer should be as shocked by the fantasies of the left as by those of the right.
    If not, one is simply another wild eyed partisan arguing with other partisans about whose fantasies are more unbelievable.

  3. CommentedZsolt Hermann

    Unfortunately not only the Republicans are living in fantasy land.
    The whole of the US and together with them the whole global world is still living in a fantasy of constant quantitative growth as the only possible way of living.
    All the other problems, facts mentioned in the article, including humanity's opposition to nature is part of the same package, and the solution has to also address this root cause.
    The bottom line is that while humanity is simply part of the vast, natural ecosystem around, humans live as if they were above the system and could do whatever they want, inventing their own systems, laws and principles.
    Even if we do not attribute the climate and weather changes directly to human effect, the economical and financial system based on the same attitude is already collapsing burying all of us underneath.
    The only solution is to find our way back to the natural system, recognizing and following its laws, adapting to the intricately interconnected and interdependent system.
    And in that respect all the present leaders, experts and the public alike has to change fundamentally.
    Let us hope that President Obama and his team, freed from the worries of re-election understands this.

  4. CommentedJohn Simms

    In 2004 John Kerry refused to accept the result until Weds morning, yet something tells me Mr. Schell wouldn't have considered that a "denial of fact."

  5. Commentedjimmy rousseau

    Mr. Schell is actually being a little kind to republicans. There are some from this party who sit in congress, both as representatives and senators, who believe in a 6000 year old earth, mock evolution and geology and pay no price in the media for these views.
    But the author is correct in his assessment that eventually they must pay the price for this wilful ignorance. But no their is nothing equivalent on the democratic side of the fence.

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