Friday, August 1, 2014
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A Líbia Iraquiana

GENEBRA - Enquanto a Líbia da pós-revolução avança, o Iraque paira como um exemplo perigoso. Após 42 anos de ditadura, a Líbia, tal como o Iraque após a queda de Saddam Hussein em 2003, precisa de mais do que boas intenções para se tornar uma democracia vibrante. Precisa de uma construção do Estado organizada em Trípoli - e de formulação de políticas realistas em capitais ocidentais.

As transições bem-sucedidas dependem desde o início de factores cruciais que a Líbia ainda não tem - uma liderança relativamente coesa, uma sociedade civil activa e unidade nacional. Sem estes factores, é provável que a Líbia não encontre o seu equilíbrio e, à semelhança do que aconteceu no Iraque pós-Saddam, irá passar por uma divisão política persistente e uma desordem civil volátil, além de uma série multifacetada de pressões geopolíticas.

Evitar um tal desfecho pressupõe a existência de um centro político forte. Mas, desde o início das insurreições em Fevereiro de 2011, a Líbia foi politicamente volatilizada. Falta-lhe o tipo de sociedade civil que poderia ter conduzido a revolta e plantado as sementes para as políticas pós-autoritárias, como foi o caso na Tunísia e (mais problematicamente) no Egipto.

Transição da Líbia foi sem dúvida ainda mais dificultada pela intervenção da OTAN, uma vez que a rápida mudança de uma revolta popular espontânea para um movimento liderado por uma elite e com apoio externo impediu que a revolução seguisse o curso habitual, como se assistiu na Tunísia e no Egipto. Assim, apesar de contar com um substancial apoio internacional, o Conselho Nacional de Transição líbio (CNT) ainda não tem o nível de consenso necessário para formar um governo viável.

O CNT tem sofrido disputas internas regulares e os seus membros e funcionamento estão envoltos num manto de segredo. Em Julho passado, o líder militar do Conselho, Abdul Fatah Younis al-Obeidi, foi assassinado em circunstâncias ambíguas. Posteriormente, em Novembro, o promotor de justiça militar do CNT apontou o seu próprio ex-vice-primeiro-ministro, Ali al-Issawi, como principal suspeito daquele crime. O conflito e a opacidade que cercam o caso são sinais reveladores da fragilidade política do país desde a queda do coronel Muammar al-Gaddafi.

A Líbia deve analisar a forma como a transição do Iraque pós-Saddam tem sido caracterizada por lutas de poder e conflitos internos incessantes. Em 2010, as manobras dos líderes políticos iraquianos - pessoais, bem como tribais e sectárias - deixaram o país sem governo durante 249 dias.

Hoje, a Líbia parece estar pronta para se sujeitar a conflitos semelhantes, devido principalmente à presença de intervenientes políticos poderosos fora do CNT. O Conselho Militar de Trípoli com os seus 20.000 homens, por exemplo, que controla a capital, tem-se mantido constante na sua independência relativamente ao CNT e forçou a saída do seu primeiro ministro estrangeiro, Mahmoud Jibril.

Entretanto, o Conselho Revolucionário de Trípoli já avisou que irá derrubar qualquer novo governo que não cumpra as suas exigências em termos de representação. O CNT enfrenta também a pressão dos berberes da Líbia, que constituem 10% da população e que já saíram para as ruas para denunciar as novas medidas políticas e rejeitar qualquer sistema que não acolha a sua cultura e língua.

A discórdia pode muito bem ser agravada por dois fatores adicionais. O primeiro é o sentimento de competitividade das grandes cidades pelo direito aos frutos da revolução: Misrata, onde foi exibido o corpo de Gaddafi; Trípoli, que sediou a cerimónia de libertação e Zintan, onde está preso o filho de Gaddafi, Saif al-Islam el-Kadafi. E todos eles, como a maioria dos líbios, partilham a expectativa irrealista de que a sua liberdade recém-descoberta irá de alguma forma resolver os seus problemas socioeconómicos.

O segundo factor de complicação é o facto do poder político estar actualmente nas mãos de milícias rivais. As rivalidades destrutivas que começaram efectivamente no passado mês de Novembro entre combatentes de Zawiya e Warshefana e entre as várias facções de Trípoli serão difíceis de resolver. Os thowar (revolucionários) recusaram repetidos apelos do CNT para desarmar. Trípoli corre o risco de se tornar numa Bagdad igual à de 2005, com diferentes grupos a controlar o território e a instituir uma economia política de vizinhança clientelista.

A competição interurbana e independência de desafio das milícias são ainda mais preocupantes, porque a Líbia está repleta de armas, com esconderijos não vigiados, depósitos abandonados, depósitos de munições saqueadas e milhares de sistemas portáteis de mísseis terra-ar guiados por infravermelhos. Em Novembro passado, Mokhtar Belmokhtar, o comandante da al-Qaeda no Magrebe Islâmico (AQMI), confirmou que a AQIM aproveitou a oportunidade para garantir parte deste arsenal, quando a revolução começou.

Entretanto, no que diz respeito à França, Reino Unido, Estados Unidos, Liga Árabe, OTAN, e Qatar - tendo todos estes países desempenhado um papel na transformação da Líbia – os objectivos não serão provavelmente os mesmos. Por outras palavras, é provável que também as pressões externas empurrem a Líbia em várias direcções diferentes, o que só irá atrasar ainda mais o processo sustentável e autónomo de construção do Estado.

Gaddafi deixou uma armadilha. O colapso do regime autoritário criou um vácuo de segurança, sem um aparelho estatal em funcionamento, deixando a Líbia altamente exposta à influência internacional, muitas vezes a serviço de interesses empresariais. Para evitar a repetição dos erros que se fizeram no Iraque e que tiveram custos elevados, a Líbia vai exigir uma liderança hábil que seja capaz de elaborar uma nova visão nacional convincente para unificar as autoridades concorrentes, refrear milícias indisciplinados e minimizar a vulnerabilidade estratégica do país.

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  1. CommentedWim Roffel

    Neither Gaddafi nor Saddam left a "booby trap". The West and its revolutionary friends boobytrapped themselves when they allowed their hatred to throw away every element of the old order. It would have been much better to build on the old system instead of throw it away. But that would have meant compromise and accepting that old regime appointments will stay around.

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