Thursday, November 27, 2014
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O Ano Iraniano de Obama

PRINCETON – Agora que inicia o seu segundo mandato presidencial, Barack Obama terá de dedicar grande parte da sua atenção a encontrar uma forma de organizar as finanças internas do país. Mas as questões de política externa são igualmente motivo de grande preocupação e, não obstante o conflito que está em curso na Síria e a possibilidade da guerra poder alastrar à região africana do Sahel, a perspectiva consensual em Washington é que 2013 será o "ano decisivo" relativamente ao Irão.

A primeira administração de Obama teve início com uma proposta de diálogo com a República Islâmica. No seu primeiro discurso inaugural, em 2009, Obama afirmou, numa frase que ficaria memorável: "estender-vos-emos a mão se estiverdes dispostos a abrir os vossos punhos cerrados." Repetiu o compromisso, embora de forma muito mais oblíqua, no seu segundo discurso inaugural: "daremos provas de coragem na resolução pacífica das nossas divergências com as outras nações - não porque somos ingénuos perante os perigos com que somos confrontados, mas porque o diálogo permite acabar de forma mais duradoura com a desconfiança e o medo ".

Como observou recentemente  o académico e activista americano, Hussein Ibish, Obama nomeou um gabinete com o objectivo de obter maior margem de manobra para negociar um acordo com o Irão. Em especial, o facto de nomear veteranos de guerra para os cargos de Secretário de Estado e de Secretário da Defesa conferir-lhe-á uma valiosa cobertura política interna para um acordo que exigirá inevitavelmente o levantamento das sanções ao Irão e o reconhecimento quase certo do seu direito de enriquecer urânio a um baixo nível de concentração. O governo do Irão deveria considerar este facto como um sinal de que não só os EUA estão a levar a sério o acordo, como também de que qualquer que seja a proposta dos EUA, será provavelmente o melhor acordo que poderão conseguir.

A administração Obama reuniu uma coligação extraordinária de países para impor sanções económicas que estão a ter um efeito notável no preço e disponibilidade das mercadorias no Irão e na capacidade negocial, mesmo das instituições poderosas, como a Guarda Revolucionária.

Mas as coligações não se mantêm unidas infinitamente e o peso das sanções afecta, muitas vezes, ambos os lados, prejudicando compradores e vendedores. Houve países, como por exemplo a Coreia do Sul e o Japão, que só a custo reduziram suas importações de petróleo iraniano; e há países, como a China e a Rússia, que raramente levam a sério as sanções.

Além disso, Obama não pode lançar continuamente a ameaça de que "todas as opções estão sobre a mesa", sem perder a credibilidade junto dos iranianos e de outros países do Médio Oriente. Como refere Suzanne Maloney, especialista em política externa da Brookings Institution, os países da região e não só sentem-se actualmente desanimados perante a falta de liderança dos EUA em relação à Síria. Se os EUA tentarem uma vez mais uma negociação séria (uma oferta credível e uma verdadeira disponibilidade para o diálogo) e se nada fizerem caso a sua proposta seja refutada, o país irá assumir-se como um "tigre de papel". Nesse ponto, a coligação de sanções irá provavelmente desintegrar-se perante uma perda muito maior de confiança no papel de liderança dos EUA.

Assim, os EUA encontram-se numa situação de impasse. Recentemente, o antigo Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Zbigniew Brzezinski, manifestou a sua firme oposição face a uma intervenção militar, propondo, em vez disso, uma estratégia de continuidade de imposição de sanções e de alargamento das medidas de dissuasão. Tal como aconteceu com a política dos EUA em relação ao bloco soviético durante a Guerra Fria, "uma ameaça militar do Irão a Israel, ou a qualquer outro país defensor dos EUA no Médio Oriente, seria considerada como uma ameaça dirigida aos próprios Estados Unidos e precipitaria uma resposta proporcional por parte deste país."

Reconheço o bom senso na abordagem de Brzezinski. Mas Obama conduziu os EUA e os seus aliados demasiado longe no actual caminho. Além disso, e fundamentalmente, Brzezinski esquece-se de que a determinação de Obama em impedir o Irão de adquirir armas nucleares não tem origem apenas na sua preocupação pela segurança de Israel ou pela estabilidade do Médio Oriente.

Obama empenhou-se sucessivamente no objectivo de mudar o mundo, conduzindo-o ao "Global Zero" - um mundo isento de armas nucleares. Na opinião do Presidente norte-americano (partilhada pelos antigos Secretários de Estado, Henry Kissinger e George Shultz, pelo antigo Secretário da Defesa, William Perry e pelo antigo Senador, Sam Nunn), se o mundo não encontrar uma forma de viver sem armas nucleares, seremos confrontados com um sistema internacional no qual entre 30 e 50 Estados possuem armamento nuclear, aumentando para um nível inaceitavelmente elevado o perigo de um lançamento acidental ou deliberado. Convencer as grandes potências a proceder à eliminação total dos seus arsenais nucleares pode parecer tão politicamente fantasioso quanto conseguir aprovar a legislação relativa ao controlo de armas no Congresso dos EUA, mas Obama deixou claro que está disposto a agir também nesta matéria.

Por mais lógica ou atraente que uma política de contenção possa ser, o compromisso de Obama de levar a cabo uma desnuclearização global como parte do seu legado implica que não permitirá que outro país adquira armamento nuclear durante o seu mandato, ao contrário dos seus antecessores que permitiram que a Índia, Israel, a Coreia do Norte e o Paquistão o fizessem. Assim sendo, o desafio é enorme tanto para os EUA como para o Irão.

Os outros países não deveriam subestimar a determinação de Obama; os governos que têm relações com o Irão deveriam salientar que agora é o momento propício para estabelecer um acordo. E países como a Turquia e o Brasil (e talvez a Índia e o Egipto) poderiam desempenhar um papel útil, idealizando uma forma que permita aos iranianos satisfazer as exigências da comunidade internacional, em conjunto com alternativas a longo prazo para o enriquecimento de combustível que sejam compatíveis com a redução da ameaça nuclear global. Os aliados dos Estados Unidos, por sua vez, devem estar preparados para cerrar fileiras com aquele país, tanto no sentido de traçar as linhas gerais de um acordo, como no sentido de uma intervenção militar.

A arte de governar não assenta na escolha entre a guerra e a diplomacia como se fossem alternativas mutuamente exclusivas, mas sim na compreensão da forma como ambas se combinam. No caso da Síria, o Ocidente apelou repetidamente a uma abordagem diplomática, afastando a possibilidade de uma intervenção militar, sendo os resultados previsivelmente negativos. Os EUA não cometerão o mesmo erro em relação ao Irão.

Tradução: Teresa Bettencourt

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    1. CommentedCharles Holley

      Read the article "Rothschild Wants Iran's Banks" and that will explain everything. American banks and corporations want to take over Iran's successful economy.

      http://americanfreepress.net/?p=2743

    2. CommentedZsolt Hermann

      Unfortunately the US and its President more and more resembles those speakers in London's Hyde Park, who stand on the podium, producing beautiful speeches, long term goals but apart from some lonely people or the pigeons nobody truly listens.
      The world is not for the US to rescue or solve, moreover wherever they entered they left very confusing, unsettled situations behind that will hunt them for a long time.
      The President and the US most probably will find themselves in a reactive state, firefighting, trying to answer, defuse multiple exploding scenarios around Iran, Pakistan, Afghanistan, China, North Korea.
      What not only the US but other countries also have to understand today we evolved into such an interconnected and interdependent human network, where even the "smallest" conflict necessitates a truly global, and truly mutual cooperation, where all the participants enter, and participate as equals.
      The age of superstars, "most valuable players" is over, we have to get used to simple, but effective teamwork.

    3. CommentedPatrick Lietz

      If the explosion that seems to have happened at the Fordo facility is anything to go by, we can expect that the Obama administration is not going to attack Iran.

      Rather, current evidence suggest that a low intensity war is already being waged by means of economic sanctions, terrorist attacks, assassinations and electronic malware.

      Whether or not Iran's nuclear activities are the actual drivers of Washington's behaviour is, however, much more debatable.

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