Saturday, August 2, 2014
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De Volta à Utopia?

PARIS - A França já não reivindica para si o centro do palco da história mundial, mas continua a ter influência além das suas fronteiras. A partir do século XVIII - incluindo o papel épico de Charles de Gaulle na Segunda Guerra Mundial, a descolonização em África e a revolta estudantil de Maio de 1968 - a França tem sido reiteradamente líder de profundas mudanças sociais em toda a Europa. Será que a sua recente eleição presidencial irá dar continuidade a essa tradição?

François Hollande, brando e burocrático, fez campanha com a promessa de ser um presidente "normal", ao contrário do titular pitoresco, Nicolas Sarkozy - e, na realidade, ao contrário de todos os seus antecessores desde a instauração da Quinta República em 1959. Assim, a vitória de Hollande pode ser um sinal de que os países democráticos se tornaram relutantes em ser governados por presidentes ou primeiros-ministros extravagantes ou carismáticos.

De facto, actualmente na Europa nenhuma democracia é liderada por uma personalidade forte ou carismática. A Itália continua sob uma administração provisória, mas também aí os eleitores parecem ter virado as costas a um governante rococó. A Europa não tem Sarkozy nem Silvio Berlusconi, mas também não tem Margaret Thatcher, Helmut Kohl, ou José Maria Aznar. Num momento que é de crise económica e institucional na Europa, todos os líderes europeus parecem ser extremamente normais.

Para muitos, a vitória da normalidade sobre o carisma deve ser motivo de celebração. A democracia tem a ver com cidadãos normais que elegem homens e mulheres normais para os governar por um período de tempo limitado, de acordo com regras estabelecidas.

Mas a tendência de normalidade entre os líderes europeus coincide com uma notável ausência de visão e estratégia. Se qualquer um destes líderes normais tiver uma estratégia de longo prazo para a Europa (será que alguém consegue imaginar uma coisa destas vinda do Presidente do Conselho da UE, Herman Van Rompuy, ou da Alta Representante da UE para a Política Externa, Catherine Ashton?), será evidentemente incapaz de transmiti-la.

No caso de Hollande, os raros vislumbres de uma visão abrangente lembram a democracia social bem-sucedida da França dos anos 60: um Estado providência forte, em conjunto com um forte investimento público para revitalizar o crescimento económico e fomentar o emprego. O ponto de referência de Hollande parece ser o idílio do pós-guerra da sua juventude, um período de rápido crescimento, recuperação demográfica, fraca imigração e pouca concorrência global.

Por outras palavras, Hollande vai tentar atrair outros líderes europeus com uma visão de um mundo que não já existe. Esta política de nostalgia é preocupante, não só porque a França e a Europa enfrentam graves desafios económicos, mas também porque a França e outras democracias se vêem confrontadas com desafios reais para a sua legitimidade.

Em retrospectiva, as eleições presidenciais francesas de 2012 poderiam muito bem ser lembradas não tanto pela vitória de Hollande e pelo triunfo da normalidade, mas como o passo decisivo dos partidos populistas na longa marcha para o poder. Na primeira volta das eleições presidenciais francesas, a extrema-esquerda e um conjunto variado de anticapitalistas e ambientalistas radicais obtiveram 14% dos votos. Na extrema-direita, a Frente Nacional de Marine Le Pen, a herdeira política do fascismo francês, obteve 18% dos votos, o melhor resultado de sempre para este partido.

Por outras palavras, um terço dos eleitores franceses sentem-se agora mais cativados por candidatos com ideologias extremas que partilham uma rejeição antiliberal do euro, do capitalismo e da globalização. Ambos os lados encontram as suas raízes num passado idealizado: a Revolução Francesa e a sua promessa igualitária para a extrema-esquerda, e, para a extrema-direita, o Império francês e o seu domínio dos povos não-brancos do mundo.

Além disso, ambos os extremos são fortemente nacionalistas. Convencidos como estão de que a França deve agir sozinha, iriam fechar a economia à concorrência externa, suprimir os mercados financeiros e enviar os imigrantes de volta à sua terra natal. A convergência vai além da irracionalidade comum dos seus objectivos. Tanto a extrema-esquerda como a extrema-direita encontram o seu núcleo eleitoral entre o grande número de franceses que se sentem inseguros a nível económico e marginalizados a nível político - na sua essência, todos aqueles que sentem que não têm uma oportunidade numa sociedade aberta.

O cunho de normalidade de Hollande não é apelativo para estes eleitores populistas. Mas, seria imprudente ignorá-los, porque as suas aspirações utópicas são baseadas em preocupações genuínas e legítimas. O crescimento lento e a globalização dividiram todas as sociedades europeias - e os Estados Unidos - em duas novas classes: uma delas composta por aqueles cuja educação e capital social lhes permitem fazer face à economia globalizada de hoje e a outra inclui aqueles que têm de viver com remunerações baixas, trabalhos muitas vezes transitórios (sendo, por conseguinte, afectados de forma mais directa pela concorrência de imigrantes legais e ilegais).

Nenhum líder tradicional europeu, incluindo Hollande, faz sequer referência a esta nova divisão. Na verdade, tanto Hollande como Sarkozy representavam as pessoas que estavam adaptadas à globalização e viam as demais como um reservatório de eleitores a serem cativados, não como uma nova subclasse.

Esta compreensão superficial do populismo torna as eleições presidenciais francesas num sintoma assustador da liderança cega da Europa. A fachada de normalidade não consegue resistir aos perigos reais que ameaçam as bases das sociedades europeias.

Tradução: Teresa Bettencourt

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  1. CommentedZsolt Hermann

    We are in a transitional phase today.
    The world as we know it, our present civilization has served its time it has become obsolete, and we have to move on together with evolution.
    Today national identities, borders, even cultures are gradually eroded in the ocean of a single, global, integral humanity.
    We need to understand that we do not have any free choice about it, it is part of human evolution, that through multiple factors we are merging together into a single interdependent network.
    Actually it has already happened, we just still try to resist it, especially the populist politicians who still try to incite nationalistic fervor for their own personal benefit, for their own agendas. But real life is already conducted on a global scale.
    We can easily see that national governments, presidents or prime ministers, even from the most influential countries have less and less influence, and are totally and desperately helpless to make any impact on the global, or even on local crisis situations.
    The future is supra-national, a global, mutual, public based governance system.

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