Wednesday, July 23, 2014
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A Esperança Europeia do Islão

MADRID - A onda de crimes de Mohamed Merah em Toulouse e nas suas imediações no passado mês de Março, tal como os atentados bombistas em comboios na cidade de Madrid em 2004 e os ataques suicidas de 2005 no Metro de Londres, colocou uma vez mais em destaque os dilemas que a Europa enfrenta no que diz respeito à sua crescente minoria muçulmana. Nenhum modelo de integração social provou ser livre de falhas. Mas será o quadro realmente tão desolador quanto nos querem fazer crer aqueles que desesperam perante uma emergente "Eurábia"?

Nem os princípios multiculturais (respeito pela "diversidade cultural numa atmosfera de tolerância mútua", como declarou o Ministro do Trabalho britânico Roy Jenkins em 1966), nem a indiferença oficial relativamente a identidades religiosas (como em França, onde, nas palavras do historiador do século XIX, Jules Michelet, o Estado " toma o lugar de Deus") resultaram como previsto. O multiculturalismo na Grã-Bretanha consolidou comunidades muçulmanas praticamente auto-suficientes e transformou o Islão num símbolo de identidade para combater a exclusão. Da mesma forma, a imposição do laicismo (secularismo republicano estrito da França) parece ter intensificado a dedicação dos muçulmanos franceses à sua identidade religiosa.

As taxas de desemprego tremendamente elevadas entre muçulmanos europeus (um número três vezes superior à média nacional na maioria dos países) agravam a o seu estado marginalização social e de auto-segregação cultural. Isolados, desamparados e num estado de raiva permanente, os banlieues (subúrbios) franceses e os guetos de imigrantes das cidades britânicas transformaram-se em barris de pólvora, onde os jovens muçulmanos são presas fáceis da prédica religiosa radical e do extremismo político.

Pelo menos 85 tribunais da sharia estão actualmente em funcionamento na sociedade paralela muçulmana da Grã-Bretanha, enquanto o número de mesquitas (1.689) é agora quase idêntico ao número de igrejas anglicanas que encerraram recentemente (1.700). Mohammed é o nome mais popularmente escolhido na Grã-Bretanha para os bebés do sexo masculino. Para o primeiro-ministro David Cameron, toda esta situação, tal como deu a entender na Conferência de Segurança de Munique de 2011, representa o fruto estragado do multiculturalismo.

Na verdade, não será de admirar que o entusiasmo pela auto-afirmação religiosa seja mais forte entre os jovens, imigrantes de segunda geração. Os seus pais, ainda influenciados por uma vida dominada por autocracias repressivas das quais fugiram, tendem a ser submissos aos poderes constituídos. As gerações mais jovens rebelam-se precisamente porque interiorizaram os valores da liberdade e da escolha oferecidos pela democracia. De certa forma, sua revolta é a marca da sua identidade britânica ou francesa.

É verdade que alguns jovens muçulmanos de origem europeia foram para o Afeganistão, Paquistão e Iraque, alguns chegaram mesmo a ir para o Iémen e para a Somália e regressaram como radicais endurecidos, soldados numa guerra contra um Ocidente que, na sua opinião, desonra o Islão. Tal como afirma o jovem muçulmano de origem britânica Mohammed Sidique Khan (expressando-se com um forte sotaque de Yorkshire), participou nos atentados do metro de Londres "para vingar meus irmãos e irmãs muçulmanos.

Mas tornar-se um homicida fanático como Merah ou Sidique Khan é a escolha pessoal de uma mente patológica, não a tendência de uma geração. A rejeição social não transformou os jovens muçulmanos franceses e britânicos em assassinos em série e o fascínio de muitos pela Al-Qaeda não oprimiu o seu desejo de integração.

Importa lembrar que o forte influxo de muçulmanos na Europa nas duas últimas gerações constitui o maior encontro entre o Islão e a modernidade na história humana e este facto trouxe benefícios inestimáveis, como uma crescente classe média muçulmana, uma intelectualidade emergente e maior liberdade para as mulheres muçulmanas. As sondagens em França - onde a taxa de casamentos entre membros de diferentes grupos é a maior da Europa -demonstraram que a maioria dos muçulmanos aceita o laicismo, a igualdade de género e outros valores fundamentais republicanos.

Além disso, uma parte considerável ​​da comunidade muçulmana está em ascensão em termos socioeconómicos. Cerca de 30% dos que nasceram antes de 1968 são quadros médios ou superiores. De um modo mais geral, o Islão não conseguiu superar outros padrões de identidade, tais como a classe e o estatuto económico.

Também na Grã-Bretanha os imigrantes têm vindo a mudar o perfil étnico das classes média e profissional. Cada vez mais instruídos e bem-sucedidos a nível financeiro, os britânicos paquistaneses também estão empenhados de forma activa na vida política, com mais de 200 representantes dos principais partidos políticos em conselhos locais. Nas eleições de 2010, o número de membros britânicos muçulmanos da Câmara dos Comuns duplicou para 16. A mulher muçulmana mais influente na política britânica, a baronesa Sayeeda Warsi (também presidente do Partido Conservador), juntou-se aos outros muçulmanos na Câmara dos Lordes, tal como Lord Ahmed, o deputado trabalhista decano e a liberal democrata, baronesa Kishwer Falkner.

Considerar o Islão como uma civilização que não é susceptível de mudanças constitui uma falácia histórica. A moderação religiosa, ou mesmo a secularização, continua a ser a chave não só para a integração social, mas também para a oportunidade dos muçulmanos influenciarem o futuro da Europa.

O exemplo do mundo judeu europeu não é inteiramente irrelevante. Uma comunidade oprimida de Ostjuden, imigrantes pobres das comunidades devastadas da Europa Oriental, transformou-se em apenas duas gerações: de sapateiros, alfaiates e vendedores ambulantes tementes a Deus, transformaram-se numa comunidade de escritores, filósofos, cientistas e magnatas.

Isso aconteceu justamente porque reformaram o seu judaísmo à luz dos valores ocidentais. Eles sabiam que não havia outra maneira de aproveitar as oportunidades de melhoria humana apresentadas pelo Ocidente. O Judaísmo Reformista na Alemanha teve como resultado um particularismo religioso e cultural que cedeu a um grau muito maior de universalismo do que alguma vez se pensou no passado judaico.

Qualquer minoria religiosa que procure um lugar no projecto europeu deveria reflectir sobre essa mudança teológica.

Tradução: Teresa Bettencourt

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  1. CommentedScott Allen

    "light of Western values". To what "light" do you refer? To what "values"? And are they only available to those who either abandon or halter their religious convictions? I question whether any such "values" are - in fact - values, and also how much "human improvement" has occurred in the West divorced from Judeo-Christian influence. Maybe I'm taking you wrong, but this is how your text strikes me.

    As for the strongest forces within Islam giving up on political domination - even through bloodshed, when it comes to it - you can think again. For all of the fact that there are many moderate Muslims in the world, they are not the ones in charge of the Islamic conversation, not the ones with the force of conviction behind them. The Islamists are the ones driving things in the Islamic world, for whatever reasons anyone may think.

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