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As Ideias antes dos Interesses

CAMBRIDGE – A teoria política mais difundida é também a mais simples: os poderosos conseguem o que querem. A regulação financeira é conduzida pelos interesses dos bancos, a política de saúde pelos interesses das companhias de seguros, e a política fiscal pelos interesses dos ricos. Aqueles que podem influenciar mais o governo – através do controlo de recursos, informação, acesso, ou da mera ameaça de violência – no fim conseguem o que querem.

O mesmo acontece globalmente. A política externa é determinada, diz-se, antes de mais por interesses nacionais – e não por afinidades com outras nações ou por preocupação pela comunidade global. Os acordos internacionais são impossíveis a não ser que estejam alinhados com os interesses dos Estados Unidos e, de modo crescente, com os de outras potências nascentes. Em regimes autoritários, as políticas são a expressão directa dos interesses do governante e dos seus sequazes.

É uma narrativa convincente, com a qual podemos prontamente explicar como a política tantas vezes gera desfechos perversos. Seja em democracias, ditaduras, ou na arena internacional, esses desfechos reflectem a capacidade, que interesses limitados e especiais têm, de alcançar resultados que prejudicam a maioria.

E no entanto esta explicação está longe de ser completa, e é por vezes enganadora. Os interesses não são fixos nem predeterminados. Eles próprios são moldados por ideias – crenças sobre quem somos, o que tentamos alcançar, e como o mundo funciona. As nossas percepções de interesse próprio são sempre filtradas pela lente das ideias.

Consideremos uma empresa em dificuldades que tenta melhorar a sua posição competitiva. Uma estratégia é despedir alguns trabalhadores e terceirizar a produção para locais mais baratos na Ásia. Em alternativa, a firma pode investir em formação de competências e criar uma força de trabalho mais produtiva com maior lealdade e portanto com menores custos de rotatividade de pessoal. Pode ser competitiva no preço ou na qualidade.

O simples facto de que os donos da empresa seguem o interesse próprio diz-nos pouco relativamente a qual das estratégias será seguida. O que em última análise determina a escolha da empresa é uma série de avaliações subjectivas da probabilidade de diferentes cenários, acompanhadas por um cálculo dos seus custos e benefícios.

Similarmente, imagine que é um governante despótico num país pobre. Qual é o melhor modo de manter o seu poder e de prevenir ameaças domésticas e externas? Vai construir uma economia forte e orientada para as exportações? Ou vira-se para dentro e recompensa os seus amigos militares e outros sequazes, em detrimento de quase todas as outras pessoas? Os governantes autoritários da Ásia Oriental escolheram a primeira estratégia; os seus homólogos do Médio Oriente optaram pela segunda. Tinham concepções diferentes sobre onde residiam os seus interesses.

Ou considere-se o papel da China na economia global. Á medida que a República Popular se torna uma grande potência, os seus líderes terão que decidir que tipo de sistema internacional pretendem. Talvez escolham construir sobre e fortalecer o regime multilateral existente, que os serviu bem no passado. Mas talvez prefiram relações bilaterais e adhoc que lhes permitam extrair maiores vantagens nas suas transacções com países específicos. Não podemos prever a forma que tomará a economia mundial apenas por observar que a China e os seus interesses continuarão a agigantar-se.

Poderíamos multiplicar tais exemplos interminavelmente. Será o êxito político doméstico da Chanceler Alemã Angela Merkel melhor servido por forçar austeridade na garganta da Grécia, a um custo de mais outra reestruturação da dívida, ou por um relaxamento nas suas condições, que poderia dar à Grécia uma hipótese de crescer para além do fardo da sua dívida? São os interesses do EUA no Banco Mundial melhor servidos pela nomeação directa de um Americano, ou por cooperar com outros países para seleccionar o candidato mais adequado, Americano ou não?

O facto de debatermos apaixonadamente tais questões sugere que todos temos concepções variáveis sobre onde reside o interesse próprio. Os nossos interesses são na realidade reféns das nossas ideias.

Então, de onde vêm essas ideias? Os legisladores, como todos nós, são escravos da moda. As suas perspectivas sobre o que é realizável e desejável são moldadas pelo zeitgeist (al.;”espírito do tempo” – NdT) , pelas “ideias no ar”. Isto significa que os economistas e outros líderes de pensamento podem exercer muita influência – para o bem ou para o mal.

John Maynard Keynes disse famosamente que “até o mais prático homem de negócios é geralmente escravo das ideias de um economista morto há muito.” As ideias que produziram, por exemplo, a liberalização desabrida e o excesso financeiro das últimas décadas emanaram de economistas que estão (na sua maior parte) bem vivos.

No rescaldo da crise financeira, tornou-se moda para os economistas condenar o poder dos grandes bancos. É porque os políticos são tributários dos interesses financeiros, dizem, que o ambiente regulatório permitiu a esses interesses colher enormes recompensas à custa de grande despesa social. Mas este argumento ignora convenientemente o papel legitimizador desempenhado pelos próprios economistas. Foram os economistas e as suas ideias que tornaram respeitável, para os legisladores e reguladores, acreditar que o que é bom para o sector financeiro é bom para toda a economia.

Os economistas adoram teorias que coloquem interesses especiais organizados na raiz de todos os males políticos. No mundo real, não podem sacudir tão facilmente a responsabilidade pelas más ideias que tão frequentemente têm gerado. A influência deve vir acompanhada da responsabilização.

Traduzido do inglês por António Chagas