Tuesday, October 21, 2014
13

As Ideias antes dos Interesses

CAMBRIDGE – A teoria política mais difundida é também a mais simples: os poderosos conseguem o que querem. A regulação financeira é conduzida pelos interesses dos bancos, a política de saúde pelos interesses das companhias de seguros, e a política fiscal pelos interesses dos ricos. Aqueles que podem influenciar mais o governo – através do controlo de recursos, informação, acesso, ou da mera ameaça de violência – no fim conseguem o que querem.

O mesmo acontece globalmente. A política externa é determinada, diz-se, antes de mais por interesses nacionais – e não por afinidades com outras nações ou por preocupação pela comunidade global. Os acordos internacionais são impossíveis a não ser que estejam alinhados com os interesses dos Estados Unidos e, de modo crescente, com os de outras potências nascentes. Em regimes autoritários, as políticas são a expressão directa dos interesses do governante e dos seus sequazes.

É uma narrativa convincente, com a qual podemos prontamente explicar como a política tantas vezes gera desfechos perversos. Seja em democracias, ditaduras, ou na arena internacional, esses desfechos reflectem a capacidade, que interesses limitados e especiais têm, de alcançar resultados que prejudicam a maioria.

E no entanto esta explicação está longe de ser completa, e é por vezes enganadora. Os interesses não são fixos nem predeterminados. Eles próprios são moldados por ideias – crenças sobre quem somos, o que tentamos alcançar, e como o mundo funciona. As nossas percepções de interesse próprio são sempre filtradas pela lente das ideias.

Consideremos uma empresa em dificuldades que tenta melhorar a sua posição competitiva. Uma estratégia é despedir alguns trabalhadores e terceirizar a produção para locais mais baratos na Ásia. Em alternativa, a firma pode investir em formação de competências e criar uma força de trabalho mais produtiva com maior lealdade e portanto com menores custos de rotatividade de pessoal. Pode ser competitiva no preço ou na qualidade.

O simples facto de que os donos da empresa seguem o interesse próprio diz-nos pouco relativamente a qual das estratégias será seguida. O que em última análise determina a escolha da empresa é uma série de avaliações subjectivas da probabilidade de diferentes cenários, acompanhadas por um cálculo dos seus custos e benefícios.

Similarmente, imagine que é um governante despótico num país pobre. Qual é o melhor modo de manter o seu poder e de prevenir ameaças domésticas e externas? Vai construir uma economia forte e orientada para as exportações? Ou vira-se para dentro e recompensa os seus amigos militares e outros sequazes, em detrimento de quase todas as outras pessoas? Os governantes autoritários da Ásia Oriental escolheram a primeira estratégia; os seus homólogos do Médio Oriente optaram pela segunda. Tinham concepções diferentes sobre onde residiam os seus interesses.

Ou considere-se o papel da China na economia global. Á medida que a República Popular se torna uma grande potência, os seus líderes terão que decidir que tipo de sistema internacional pretendem. Talvez escolham construir sobre e fortalecer o regime multilateral existente, que os serviu bem no passado. Mas talvez prefiram relações bilaterais e adhoc que lhes permitam extrair maiores vantagens nas suas transacções com países específicos. Não podemos prever a forma que tomará a economia mundial apenas por observar que a China e os seus interesses continuarão a agigantar-se.

Poderíamos multiplicar tais exemplos interminavelmente. Será o êxito político doméstico da Chanceler Alemã Angela Merkel melhor servido por forçar austeridade na garganta da Grécia, a um custo de mais outra reestruturação da dívida, ou por um relaxamento nas suas condições, que poderia dar à Grécia uma hipótese de crescer para além do fardo da sua dívida? São os interesses do EUA no Banco Mundial melhor servidos pela nomeação directa de um Americano, ou por cooperar com outros países para seleccionar o candidato mais adequado, Americano ou não?

O facto de debatermos apaixonadamente tais questões sugere que todos temos concepções variáveis sobre onde reside o interesse próprio. Os nossos interesses são na realidade reféns das nossas ideias.

Então, de onde vêm essas ideias? Os legisladores, como todos nós, são escravos da moda. As suas perspectivas sobre o que é realizável e desejável são moldadas pelo zeitgeist (al.;”espírito do tempo” – NdT) , pelas “ideias no ar”. Isto significa que os economistas e outros líderes de pensamento podem exercer muita influência – para o bem ou para o mal.

John Maynard Keynes disse famosamente que “até o mais prático homem de negócios é geralmente escravo das ideias de um economista morto há muito.” As ideias que produziram, por exemplo, a liberalização desabrida e o excesso financeiro das últimas décadas emanaram de economistas que estão (na sua maior parte) bem vivos.

No rescaldo da crise financeira, tornou-se moda para os economistas condenar o poder dos grandes bancos. É porque os políticos são tributários dos interesses financeiros, dizem, que o ambiente regulatório permitiu a esses interesses colher enormes recompensas à custa de grande despesa social. Mas este argumento ignora convenientemente o papel legitimizador desempenhado pelos próprios economistas. Foram os economistas e as suas ideias que tornaram respeitável, para os legisladores e reguladores, acreditar que o que é bom para o sector financeiro é bom para toda a economia.

Os economistas adoram teorias que coloquem interesses especiais organizados na raiz de todos os males políticos. No mundo real, não podem sacudir tão facilmente a responsabilidade pelas más ideias que tão frequentemente têm gerado. A influência deve vir acompanhada da responsabilização.

Traduzido do inglês por António Chagas

Hide Comments Hide Comments Read Comments (13)

Please login or register to post a comment

  1. CommentedCarol Maczinsky

    The argument is like throwing merde at shit. Just because some Americans don't get the difference between pro-business and pro-market does not mean these beliefs are universally shared. Corruption comes from an inprudent mind. If you embrace the idea that indecency is acceptable and pander to power instead virtues, your nation will suffer the consequences. Corruption may be helpful for economical development but it is an insults the principle of merits.

  2. CommentedMichael Zanette

    I always loved this quote from The General Theory:

    The ideas of economists and political philosophers, both when they are right and when they are wrong, are more powerful than is commonly understood. Indeed the world is ruled by little else. Practical men, who believe themselves to be quite exempt from any intellectual influences, are usually the slaves of some defunct economist.

  3. CommentedPaul A. Myers

    Economists' ideas are held accountable in the open marketplace of ideas. One only has to look at the comment sections in the New York Times, the Financial Times, and Project Syndicate to see that.

    However, in Congress, big money and powerful interests shape legislation late at night behind closed doors in important committee rooms, often simply ratifying decisions made in other rooms, over drinks at campaign fund raisers, etc. In the formal halls of power, how much real accountability is there?

    Today, the Congress has about an 11 percent approval rating, which implies 89 percent is somewhere else. I would say that the ratio of 11 to 89 is the relative power ratio between special economic interests and representative democratic interests coming from the broad base of voters. Let's simplify: 9 to 1 in favor of powerful special interests versus the people. Some pollster should go out and ask the American people if 9 to 1 seems like the right ratio. Care to guess where the majority will come down?

  4. CommentedKevin Remillard

    Economist’s ideas affect thinking and private sector executives embrace or refute ideas depending upon their interests. Organized special political interests are another indeed. Free market mortgage ideas are disciplined while idealistic undisciplined interests will be taken advantage of.

  5. CommentedProcyon Mukherjee

    Ideas will continue to shape the world regardless of whether they stem from self-interests or from altruism. In other times we have seen pre-ponderance of the latter, current times see the former in over-abundance. In corporate life as well, times have changed and ideas follow interest, numbers are established without the final analysis is done, in fact analyses are made to prove a point already made in advance.

    Between rational inattention to these things and irrational attention, there is still hope that true leadership will not cease to influence and change the world for the better; interests will remain and is important for progress.

    Procyon Mukherjee

  6. CommentedVineet Bewtra

    Agreed, but surely also vice versa - ideas are also (consciously or subconsciously) influenced by interests. Concur that analyses based on 'static' interest group concepts should be viewed as archaic.

  7. CommentedJohnny Houdini

    If this IDEA really is new to mainstream economists' thinking the discipline still has a long way to go. One doesn't have to be a genius to see that economics needs to reevaluate its position within the social sciences. The ignorance of the economists' caste has finally exposed it as the naked emperor of social sciences. It is time to acknowledge the interdependence of discplines and analytically dissolve their boundaries. To hear a renowned economist state the importance IDEAS to the discipline as something new, is like hearing a political scientist acknowledging the analytical value of a supply and demand curve, outdated if not embarrassing!
    Sincerly
    Your political scientist

  8. Commentedabilio rguez

    This seems to me as a kind of new-keynesenian-hegelianism. And I desagree. It would be also possibly to argue, in a marxist fashion, that are material relations what shape social consciousness. Yet this is not my point, but to argue that "the most widely held theory of politics" is true. Whatever ideas have the powerfull in their mind, that rules. let's call this «political kaleckianism».

  9. CommentedZsolt Hermann

    Very interesting overview article describing the different scenarios all over the world.
    If we want to go a bit deeper into the root of these scenarios we can see we all act by a simple program: maximum pleasure/profit for ourselves with minimum investment. This basic program acts placed into the different local, cultural environments we are operating in.
    The reason today we enter into a crisis and why this basic program, that served us well before seems to be destructive is, that we evolved into a very intricate, closed, integral, interdependent system.
    Our previous selfish, many times exploitative attitude in this global Matrix is causing harm every time we do something with the old method.
    Using a biological example, we always existed as "cancer cels" always self calculating, trying to obtain everything for ourselves, way above our necessities. But previously we did it in a relatively "loose" system, where there was the possibility for expansion, adjustment, or organization along smaller communities, sort of "side by side".
    Today in our interconnected system it is not possible any more.
    It is as if we have to re-engineer these cancer cells into "normal" cells, that can operate in order to sustain the whole organism above themselves.
    If we understand that a single cell or even a single organ has no chance of surviving in our new system, we might be able to do the necessary adjustments.

  10. CommentedA. T.

    Instead of abstracting interests into ideas, interests can be made even less abstract. Ultimately, interests are something that only human beings can have. Banks do not have interests – their managers or shareholders do. And when it comes to human interests, there are only two (though they do compete against one another) – the pursuit of glory and the avoidance of hassle. Pretty much all events can be explained by a set of powerful individuals trying to find some balance between the two.

  11. CommentedPedro Sellers

    Excellent article Dani. I´d like to add two quotes:

    1) Chesterton: "Men have always one of two things: either a complete and conscious philosophy or the unconscious acceptance of the broken bits of some incomplete and shattered and often discredited philosophy."

    2) Obama: "We reject as false the choice between our interests and our ideals."

    Regards.


  12. CommentedEdoardo Traversa

    I fully agree with the view that political and economical decisions are mostly taken on the basis of representations of the reality that are part of a Zeitgeist which may vary with time and space.
    I would also add that these economic ideas which are part of the Zeitgeist do not necessarily come from economists. There is a very interesting communication between all fields of human knowledge and expression, which sometimes converges to give both a scientifil and moral foundation to the most questionable ideas.
    It can be observed not only looking at the developments of social sciences, arts and literature, but also at the findings in the area of physics, biology and other experimenatl sciences. Every empirical finding depends on what the researcher wanted to find, which is often influenced by the Zeitgeist. Fro example, it would hardly come to mind to a 19th century-biologist to try to find empirical support that nature is not ordered according eternal laws and is not necessarily evolving in a positive acception. This would not have been...politically correct.
    However, it is true that economists have played a very dominant role in shaping the Zeitgest of the last decades. It is probably because they enjoy (or enjoyed) a status similar to the oracles in the Roman times.
    Thank you for the inspiring article!

Featured