Wednesday, July 30, 2014
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O eixo central da Ásia

NOVA DELI - Isolada e empobrecida por décadas de sanções internacionais, Myanmar (ou Birmânia) emergiu nos últimos meses como um farol de esperança e como um potencial novo ponto explosivo asiático. Com a Prémio Nobel Aung San Suu Kyi, liberta de duas décadas de prisão domiciliária, a bater-se vigorosamente por um assento no parlamento na eleição especial a ter lugar no dia 1 de Abril, o compromisso da Birmânia para reingressar na comunidade internacional parece ser genuíno. Mas esta abertura tem outras consequências, sobretudo criar as condições para um novo “grande jogo”de competição estratégica.

Ninguém se deve surpreender com o facto de a Birmânia ser um centro de interesse para grandes potências. Afinal, é maior que França e tem uma dimensão populacional semelhante. No seu recente livro Monsoon, Robert Kaplan afirma que na Idade Média três reinos situavam-se entre a Tailândia (nessa época era denominada Sião) e a Índia. Um deles era Myanmar, que significa “aquilo que é central”. Séculos mais tarde, a Birmânia continua a ser central, não só em matéria de segurança asiática, mas também pela vasta e ainda muito inexplorada riqueza natural do país.

A importância estratégica da Birmânia reflecte, em primeiro lugar e acima de tudo, a sua localização geográfica entre a Índia, a China, a Tailândia e o sudeste Asiático. Circundada a norte pelos cumes no sul dos Himalaias, a leste pelos sopés das densas florestas de teca e a oeste e a sul pela Baía de Bengala e pelo Oceano Índico, a geografia da Birmânia moldou sempre a história e a política do país.

Em 1885, durante uma época anterior de grande competição pelo poder na Ásia, o Lorde Randolph Churchill, pai de Winston Churchill, anexou de modo impulsivo a Birmânia ao Raj britânico na Índia, a seguir à terceira guerra anglo-birmanesa. Thant Myint-U, um importante historiador da Birmânia contemporânea (e filho do ex-secretário-geral das Nações Unidas, U Thant), comparou a mudança de Churchill ao acto de “atirar a Birmânia de um penhasco”.

Somente em 1937, por um decreto do vice-rei britânico, a Birmânia foi finalmente separada da Índia britânica. Mas a invasão japonesa, cinco anos depois, subjugou a Birmânia e o seu povo ao regime colonial, mais uma vez, com a conquista arrebatadora do exército imperial japonês a verificar-se apenas em Imphal, no estado indiano de Manipur.

O fim do Império Britânico, em 1947, deu à Birmânia a sua liberdade mas não acabou com as suas agruras. O assassinato de Aung San (pai de Suu Kyi e líder do movimento de independência da Birmânia) desestabilizou o país, preparando o caminho para o exército assumir o poder. Sob a sua junta militar de longa data, a Birmânia desligou-se do mundo, interiorizou os seus problemas e estagnou, enquanto o resto da Ásia crescia. O mundo retribuiu, isolando a Birmânia economicamente e diplomaticamente.

Foi para esta Birmânia que eu viajei de Imphal, há cerca de 10 anos, o primeiro ministro dos Negócios Estrangeiros indiano a viajar por terra para o país vizinho, desde a independência. A Organização indiana de Estradas de Fronteira concluiu recentemente a primeira estrada resistente ao clima que liga os dois países, desde a II Guerra Mundial. Viajar nesta “estrada para a lendária Mandalay”, que registei no meu diário, foi um dos pontos altos de “uma das visitas ao estrangeiro mais memoráveis, satisfatórias e felizes, na minha experiência como ministro dos Negócios Estrangeiros”.

A China também se tem empenhado, ao longo de séculos, em ligar-se à Birmânia, principalmente por querer arranjar uma rota para a Índia e para o Oceano Índico, a sul. Nas últimas décadas, a China beneficiou do facto da comunidade internacional estar a evitar a Birmânia, para proteger seus próprios interesses estratégicos, construindo estradas nacionais, vias-férreas, portos e gasodutos que ligam o sul e o oeste da China ao Oceano Índico.

Mas o comércio não tem sido a única motivação da China para investir tão fortemente na Birmânia. A China também vê a Birmânia como sendo vital na sua procura pela segurança, bem como para a expansão regional do poder chinês.

Ao reflectir os seus medos acerca do potencial do cerco da China, a Índia democrática, após contratempos iniciais de dúvida, põe de lado os seus escrúpulos em relação ao regime militar birmanês. Os laços culturais, económicos, sociais e, por vezes, militares da Índia com a Birmânia - na verdade, com toda a região - são mais antigos do que os da China. Assim, por razões de Realpolitik, a Índia expandiu as suas actividades e os seus investimentos na Birmânia, ao longo das últimas duas décadas de governo da junta.amp#160;

Às vezes, a competição com a China é directa. Nos campos de gás em Shwe, ao longo da costa birmanesa, estimada em estar entre as maiores reservas do mundo, dois gasodutos estão para ser construídos: um para a China, a partir do porto próximo de Kyauk Phru, e o outro para a Índia, a partir do porto de Sittwe.

Para Thant, esta competição estratégica é preocupante. Os “cruzamentos por toda a Birmânia”, ele argumenta, não podem “ser uma simples ligação dos países”, porque as regiões da “China e da Índia, que estão a ser traçadas em conjunto sobre a Birmânia, estão entre os locais mais longínquos dos dois estados gigantes, regiões com uma diversidade étnica e linguística inigualável... sociedades isoladas das terras altas que estavam, até recentemente, fora do controlo de Deli ou de Pequim”.

Enquanto a China procura profundidade estratégica na Birmânia, os interesses da Índia são agora reanimados pela abertura da comunidade internacional a um país que parece ansiar pelas mesmas liberdades democráticas que os indianos possuem. E, em Aung San Suu Kyi, que estudou em Nova Deli (tal como fez a sua mãe, Daw Khin Kyi, que foi embaixadora na Índia e no Nepal em 1960), a Birmânia possui um líder moral carismático que lembra aos indianos os fundadores do seu país.

Como resultado, a Realpolitk e o interesse económico por si só, não moldarão mais o grande jogo disputado na Birmânia. Os ideais e a procura da liberdade também desempenharão um papel fundamental.

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