Wednesday, July 30, 2014
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A imaginação mundial do protesto

NOVA IORQUE - Quando uma pintura grafiti apareceu, na Primavera passada, numa parede perto do Ministério do Interior na Tunísia, com os dizeres “Obrigado, ‘Facebook’”, não foi só o elogio a uma rede social que facilitou a revolta do país. Foi também a celebração do sentimento de experiência partilhada que definiu a revolução tunisina - e os muitos outros protestos e revoluções históricas que surgiram em 2011.

À medida que recolhíamos ensaios para o nosso novo livro, From Cairo to Wall Street: Voices from the Global Spring, descobrimos queuma das características que define a nova era do protesto é a articulação do desejo e a capacidade de ligação - dos bairros, das cidades, dos países e até dos continentes. Em cada país contribuinte, uma nova consciência de destinos partilhados e de uma comunidade global espalhou movimentos de protesto. A tecnologia social-media foi uma ferramenta que permitiu o seu avanço, bem como a reconceptualização do significado de espaço público e da visão de que a pluralidade de ideias é superior ao dogma – que o acto de colaboração é tão importante quanto o resultado.

Sendo assim, estas não foram apenas revoluções políticas. Foram também revoluções de ideias - a globalização do protesto como estratégia.

Para ter a certeza, as queixas dos manifestantes variam muito consoante as circunstâncias locais (embora haja uma surpreendente coerênciaentre as regiões e até entre os continentes, quando se trata de questões como a habitação, o desemprego, a desigualdade e a frustração dos jovens que estudaram muito e não conseguem encontrar emprego). Ao mesmo tempo, a filosofia de mudança através da acção massiva, colaborativa e inclusiva é comum - e estimulada entre eles - em quase todos os movimentos.

Considere o exemplo da Tunísia, onde Mouheb Ben Garoui, um activista de 24 anos, escreve no nosso livro sobre como os concidadãos de todos os estratos sociais e sem filiação política definida, saíram das suas casas para ocuparem as praças e exigiram ter uma palavra a dizer no futuro do país. O facebook ajudou, mas sobretudo porque intensificou e acelerou o processo.

Como em outros países, o simples acto de tomar o território significou muito para os manifestantes. Nas praças da Tunísia e do Egipto, os manifestantes que se sentiam afastados e isolados sob regimes repressivos, estavam exultantes por descobrirem que não estavam sozinhos. As reuniões nas praças tornaram-se mais do que actos de desafios: em Espanha, na Grécia e nos movimentos de ocupação dos Estados Unidos e do Reino Unido, as zonas ocupadas tornaram-se em locais onde uma nova sociedade democrática podia ser praticada, por vezes através de processos da Assembleia Geral bastante demorados nas tomadas de decisões em grupo.

Na Grécia e em Espanha, os manifestantes disseram-nos que as histórias dos seus vizinhos eram uma revelação. As pessoas desabafaram com estranhos. À medida que os indignados de Espanha se sentavam nas praças, sentiam-se, pela primeira vez, ligados ao povo nas suas comunidades - um sentimento que se tornou grande parte da razão por terem ficado.

No nosso livro, a história do manifestante egípcio Jawad Nabulsi, de 29 anos, mostra como alguns activistas utilizaram a tecnologia para mobilizarem pessoas. Nabulsi, que trabalhou para instituições de caridade, no Alto Egipto, que angariavam dinheiro para fornecerem água potável e energia eléctrica às famílias pobres, escreveu sobre como o Tipping Point de Malcolm Gladwell e o Good to Great de Jim Collinsafectaram o seu modo de pensar sobre a mudança social.

“Fui às aldeias e aos bairros degradados, vi a profundidade dos problemas nesses locais e assumi que não podiam ser permanentes. Disse a mim mesmo, 'São demasiado avassaladores, é como atirar algo para o mar'” ele escreve. Ao ler Gladwell e Collins, Nabulsi percebeu que não precisava de mudar o país inteiro, mas apenas “um círculo de figuras-chave que poderiam ter alguma influência” e que ele “precisava de se concentrar nos líderes da comunidade e de trabalhar com eles”. Começou a organizar grupos no Facebook, com o intuito de ligar pessoas que partilhassem as mesmas ideias.

Estes grupos ganharam vida própria. Ao verem que havia mais gente que sentia as mesmas frustrações, as pessoas ficaram com vontade de fazer ouvir as suas vozes na Praça Tahrir, e, tal como os espanhóis, redescobriram as suas comunidades. Por satélite, no Twitter e no Facebook difundiram essa mesma mensagem para todo o mundo.

Os resultados políticos imediatos desta nova conectividade são ténues. O Egipto, a Tunísia e a Líbia tiveram as suas mudanças de regime, mas não está claro sobre qual o papel, no caso de haver algum, que os jovens revolucionários idealistas irão desempenhar no futuro dos seus países.

No Egipto, o poder dos militares está mais concentrado agora, do que estava no governo do ex-presidente Hosni Mubarak. Nos EUA, os protestos de 2011 só terão um efeito duradouro se os ocupantes continuarem organizados e prosseguirem o seu trabalho na luta contra as execuções hipotecárias. Certamente não se sentirão motivados a apoiar a campanha de reeleição do presidente Barack Obama, se as suas vozes não forem ouvidas na Casa Branca,como eram em Zuccotti Park e em outros espaços públicos desde Oakland a Madison.

Mas se os benefícios dos movimentos são incertos, a ligação que eles criaram é susceptível de se aguentar. Com os manifestantes norte-americanos a indicarem os egípcios e os espanhóis como uma inspiração directa, com a polinização cruzada das comunidades online, desde a Síria até à Europa, e com a continuidade da forte participação nos comícios, como a que ocorreu no 1.º de Maio nos EUA, está claro que o espírito de comunidade veio para ficar. E, a nível mundial, está claro que se os políticos não responderem às exigências de justiça, de liberdade, de um futuro mais próspero e de um governo que realmente esteja ao serviço do povo, os protestos continuarão.

Tradução: Deolinda Esteves

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