Wednesday, July 30, 2014
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Objectivo além do Poder

BUDAPESTE - A repetição das eleições legislativas gregas em 17 de Junho é apenas o sintoma mais recente da mais grave crise que assola as democracias ocidentais e as sociedades abertas desde 1960.

O fim da Guerra Fria deixou aos nossos líderes o legado de um novo conjunto de desafios no que respeita a governação, que prontamente cresceram em magnitude, em grande parte devido à aceleração da globalização, às consequências da liberalização económica da década de 1980 e à revolução nas tecnologias da informação da década de 1990. Estas questões foram abordadas de forma insuficiente e rapidamente levaram muitas pessoas a questionar a sustentabilidade do encanto da democracia liberal a nível interno e a sua universalidade no exterior e a analisar os supostos méritos do "modelo chinês", melhor caracterizado como uma forma de capitalismo autoritário ou de estado.

O colapso financeiro de 2008, que rapidamente se transformou na mais profunda recessão económica ocidental desde a década de 1930, lançou mais achas na fogueira, enquanto os responsáveis políticos se mantinham num modo de gestão de crise pouco transparente, aprovando uma intervenção estatal considerável na economia e a socialização das perdas do sector privado numa escala sem precedentes. A austeridade fiscal daí resultante levou a que muitos caíssem abaixo da linha da pobreza e acelerou a desigualdade económica, enquanto muitas instituições privadas, que provocaram o fracasso de 2008, recuperaram graças ao dinheiro dos contribuintes.

Para piorar as coisas, na Grécia e na Itália, dois dos países mais duramente atingidos, os mercados financeiros depuseram governos, que apesar de imperfeitos, tinham sido eleitos. O infeliz ex-primeiro-ministro grego, George Papandreou, teve que se demitir no ano passado, após ter tido o atrevimento de sugerir um referendo para decidir o futuro económico dos seus concidadãos. (Ironicamente, as próximas eleições servirão de facto como o referendo que Papandreou sugeriu em Outubro de 2011.)

Na raiz da crise europeia (e no seu equivalente nos Estados Unidos) encontra-se uma mudança na configuração do poder económico, social e político. As democracias liberais e as sociedades abertas sempre dependeram de um bom equilíbrio entre estas três formas de poder. Durante as duas últimas décadas, as nossas elites têm sido incapazes de manter esse equilíbrio, com um poder económico que há muito se tornou global e se destacou do poder político, corrompendo frequentemente a política democrática no processo.

Ao mesmo tempo, o poder social, que fornece o oxigénio para a legitimidade democrática, tem sido marginalizado e desiludido e está a afastar-se cada vez mais das formas tradicionais de conduzir a política. O resultado é a erosão da importância dos principais partidos políticos e sindicatos e os mais baixos níveis de confiança de todos os tempos nos grandes governos. Alimentadas por novos meios de comunicação social, começam a formar-se identidades em torno de novas redes de interacção social que muitas vezes desafiam os limites estatais e pouca relação têm com as instituições tradicionais da democracia liberal de governação.

A recusa das elites actuais em promover um equilíbrio eficaz entre os três poderes - em reconhecer um objectivo maior que vá mais além do que maximizar cada poder individual - traduziu-se visivelmente na diminuição da consideração pelo bem público. Este facto tem consequências dramáticas para a democracia liberal e para as sociedades abertas.

Estando o poder político diminuído (e às vezes usurpado) pela transformação da sua contraparte económica e com o distanciamento da respectiva base social que o torna cada vez mais ilegítimo, é chegada a hora dos populistas e dos extremistas. Estes deleitam-se agora com democracias enfraquecidas em muitos países europeus, enquanto os movimentos marginais se tornam sérios candidatos ao poder e ameaçam acabar com as conquistas de mais de 60 anos de integração europeia. Nos EUA, o sistema político acabou por cair numa paralisia partidária difícil de superar, que compromete seriamente o sistema de controlos e equilíbrios e cria uma profunda sensação de mal-estar e frustração.

Estamos perante uma grave conjuntura. Recriar a democracia e as sociedades abertas numa era global requer investimento em novas ideias para reequilibrar o poder político, económico e social, tanto a nível nacional como a nível global. A nível nacional, temos de experimentar novos mecanismos de formulação de políticas e implementação, voltando a unir as instituições democráticas aos cidadãos e às redes emergentes da sociedade civil. A nível global, temos de permitir que os poderes político e social estabeleçam a sua legítima posição ao lado do poder económico.

De nada servirá a introdução de simples remendos, precisamos de uma transformação de toda a arquitectura institucional. A menos que possamos criar um espaço sociopolítico global, não seremos capazes de deliberar de forma legítima sobre a provisão de bens públicos globais nem fornecê-los com sucesso. O esforço para criar um tal espaço precisa ser liderado por actores que assumam os riscos - empreendedores sociais e políticos que não tenham receio de trabalhar transpondo as linhas que tradicionalmente dividem sectores e estados e que ajudem a recriar uma comunidade global com objectivos que vão além do poder.

Certa vez, o filósofo francês Jean-Paul Sartre caracterizou o Muro de Berlim como um espelho. Tendo em conta sistema soviético, era realmente fácil ignorar as nossas próprias fraquezas e falibilidades. Com a queda do Muro, as nossas elites esforçaram-se por manter a ficção de uma iminente marcha de vitória para democracia liberal em todo o mundo, actualmente posta a nu pela crise económica de ambos os lados do Atlântico.

Perdemos duas décadas valiosas para dar uma resposta adequada à globalização e à crise da democracia liberal e sociedades abertas. Chegou o momento de fazermos uma reflexão honesta sobre o poder e o seu objectivo num contexto de rápida evolução mundial.

Tradução: Teresa Bettencourt

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  1. CommentedGreg Rushing

    I find this article quite vague. "reach across party lines"well, duh. Of course this needs to be done. It is always better for citizens when their self-serving politicians act like disinterested statesmen. But the trick is to think of a way to incentivize them into doing this in a reliable manner. For example, both term limits and being elected "President for life" are possible solutions to the problem of politicians being obsessed with short term political gamesmanship. But these two solutions may raise other problems. The author does not offer any realistic SOLUTIONS for actually accomplishing this aspirational goal.

  2. CommentedKevin Lim

    "At the root of the European crisis (and its equivalent crisis in the United States) is a shift in the configuration of economic, social, and political power. Liberal democracies and open societies have traditionally relied on a fine balance of these three forms of power. Over the last two decades, our elites have been unable to maintain it, as economic power has long since gone global and dislodged itself from political power, often corrupting democratic politics in the process"

    Rubbish. First, this is not a problem plauging liberal democracies. New Zealand, Chile, Australia and Canada arent having any problems. This is a European problem plain and simple. The fact that the author concludes that liberal democracy is under threat simply reveals his eurocentrc view of the world.

    Second, each country has come to this dire state in different ways. In Spain, it was an asset bubble that rocked the boat, so arguably economic power has disrupted political life. But in Greece, it was the political elites abusing economic power to ensure their short term political survival that got them into a mess. Grossly inflating their civil service beyond all reason, allowing a culture of tax evasion to persist (a political decision, it was routine b4 an election to tell tax collectors to stop doing their jobs).

    There is no grand threat to liberal democracy. The roots of this current crisis are awesome only in their magnitude, but otherwise utterly banal and predictable in their nature.

  3. CommentedZsolt Hermann

    This very precise review article says the following:

    "...We stand at a critical juncture. Recreating democracy and open societies in a global age requires investment in new ideas to rebalance political, economic, and social power at both the national and the global level. Nationally, we need to experiment with new mechanisms for policymaking and implementation, reconnecting democratic institutions to citizens and emerging networks of civil society. Globally, we must allow political and social power to establish their rightful place next to economic power.
    Mere tinkering will not do; we need a transformation of the global institutional architecture. Unless we can establish a global socio-political space, we cannot legitimately deliberate over the provision of global public goods, let alone deliver them successfully..."

    I could not agree more, we are at crossroads, and our decision will decide our immediate future and even our long term survival.
    On the other hand I do not fully agree with the following statement:

    "...The push toward such a space needs to be spearheaded by risk takers – social and political entrepreneurs who are unafraid to work across lines traditionally dividing sectors and states, and who help to re-create a global community of purpose beyond power..."

    Risk taking will not do, we have already done enough experimenting and wasting resources. This is why before we do anything, even planning we need a global education program for each and every one of us from leaders to the common people of the street regardless of culture, education, talent, age or nationality.
    Before we move we need to understand what it means to live in a global, interconnected world, what it means that the whole of humanity and the environment around us is totally interdependent, how it is possible to live within available resources, still providing mutual, equal necessities to everybody.
    The information for this education is already around us, we simply have to put it together into a cohesive, complete picture providing us with the blueprint of the global, integral reality we exist in.

  4. CommentedJohn Aho

    I like this analysis but continue to fear the growing darkness of our times. Yes, there is a purpose beyond power, but there is no money in it and our people has been trained aggressively for generations to equate money with purpose. The regulatory, political and media capture of America's democracy by moneyed elites has been breathtaking to observe. The ease of this takeover probably has much to do with the relentless creation of a consumerist society. In addition, tens of thousands of "management consultants" continue to canvass the world, pursuing the project to monetize all human interaction at the expense of local community and ethics. The decades lost that you refer to seem to have begun (at least in America) with the rise of Reagan (and the rejection of Carter and his impossibly naive call for shared sacrifice and public trust). Part of the problem is that the legitimate spaces that individuals previously occupied to promote values other than power (and money) have been serially corrupted and undermined. What sane and decent person would enter politics in the current system? Or the church? Or social work? They are all headed to the dustbin or revamped to serve corporate interests. Instead, what is left over is the doctrine of the corporation itself, a particularly soulless ideology, where increased short-term profit is the fiduciary duty and very meaning of all human activity. With capital flight now a global prospect, domestic democracies are simply not able to rule. Instead, the bond markets dictate major economic policy. This is intolerable to many humans (and strangely comforting that is Greece that finds it so hard to swallow this lifeless pill), who desire to control their own fate and are completely disillusioned with the financial system that elites have bribed or forced upon them. You rightly note that "mere tinkering" will not do, and yet also warn of the rise of radical politics. This seems somewhat contradictory, what may be needed is a rise of a radical center (if such a thing is possible) to brush away crony capitalism and its enablers (and reset the absurd amounts of wealth being plundered at the top), while reforming the state project of institutionalized unproductivity at the bottom. Those are truly radical proposals, but likely necessary if we as a species are to survive.

  5. CommentedAlok Shukla

    Very aptly said private sector losses have been taken care off by tax payer. Austerity is imposed at the individual i.e. no bail out for common citizen. Irony of the moment is what we believe in the western world i.e. free markets, democracy, and preaching the virtues of austerity to bailed out countries by IMF and when the moment of truth came we have done exactly opposite of what we have said so far. Seeds of present rot lies in the past what we need at this moment is some plain talking and soul searching in society and leaders with some spine. At least this way we will restore the trust between the polity and population and this will lead to slow painful organic growth. Be sure there will be no quick fixes for the mess we are in.

  6. CommentedFrank O'Callaghan

    An excellent piece of work. The roots of the problem are in the past. When there was a perceived threat to the existence of capitalism from the Soviet system the response was to compromise between the classes. It has been thought of as 'the bribe' of capitalism.

    Since the end of Eastern European Communism this bribe has been withdrawn. The view that we need to rebalance our society and the power dynamic between social, economic and political is hopeful more than realistic. Power is rarely allowed to slip away.

    This time the threat to capitalism must not be merely external.

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