Sunday, October 26, 2014
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Sombras Chinesas

NOVA IORQUE – Vivem-se tempos interessantes na China. Um membro destacado do Partido Comunista, Bo Xilai, foi deposto – acusado de ofensas que incluem escutas a outros caciques do partido, incluindo o Presidente Hu Jintao – enquanto a sua esposa é investigada pela seu alegada intervenção no possível assassínio dum homem de negócios Britânico. Entretanto, um invisual activista dos direitos humanos evade-se de prisão domiciliária ilegal, consegue refúgio na embaixada dos Estados Unidos em Beijing, e deixa o edifício apenas após alegações de que as autoridades Chinesas da sua localidade natal teriam ameaçado a sua família.

Apesar de uma exaustiva cobertura jornalística destes acontecimentos, é notável o pouco que na verdade sabemos. O corpo do homem de negócios Britânico foi alegadamente cremado antes de qualquer autópsia ser realizada. Nenhuma das histórias sinistras sobre a esposa de Bo foi provada. E as razões para a desgraça política do seu marido permanecem, no mínimo, turvas.

As coisas tendem sempre a ficar interessantes na China antes de um Congresso Nacional do Povo, onde os próximos líderes do Partido são ungidos. A mudança de liderança na maior parte das democracias é um processo relativamente transparente; segue-se a eleições nacionais. É verdade que mesmo as democracias abertas têm o seu quinhão de manobras opacas e de transacções no que antes se chamavam de salas cheias de fumo. Isto é particularmente verdade nos países da Ásia do Leste, como o Japão.

Mas, na China, tudo acontece fora da vista. Como os líderes não podem ser depostos através de eleições, devem ser encontrados outros meios para resolver conflitos políticos. Por vezes, isso origina espectáculos deliberadamente públicos.

A desgraça de Bo, antigo líder do Partido de Chongqing, certamente cai nesta categoria. Populista carismático e bem parecido, nascido no seio da élite do Partido, Bo era conhecido como um funcionário duro, cujos métodos de luta contra o crime organizado – e contra outros que se atravessaram no seu caminho – operavam muitas vezes fora da lei. O antigo chefe de polícia de Bo, de quem se diz ter feito o trabalho sujo, envergonhou o Partido ao voar para o consulado dos EUA em Chengdu em Fevereiro, depois de ter sido arrastado na queda do seu patrão. Apesar da nostalgia de Bo pela retórica Maoista, ele é visivelmente abastado. O dispendioso estilo de vida do seu filho enquanto estudante em Oxford e Harvard foi descrito na imprensa em profuso detalhe.

Por outras palavras, Bo apresentava todas os características de um patrão do crime: corrupto, impiedoso para com os seus inimigos, desdenhoso da lei, e no entanto apresentando-se como um moralista. Mas o mesmo poderia ser dito da maior parte dos chefes do Partido na China. Todos têm mais dinheiro do que o pode ser explicado pelo seu salário oficial. Muitos têm filhos a estudar em caras universidades Britânicas ou Americanas. Todos se comportam como se estivessem acima das leis que limitam os cidadãos normais.

O que era incomum acerca de Bo era a sua ambição abertamente demonstrada. Supõe-se que os caciques partidários Chineses, como os políticos Japoneses – ou, mesmo, os Dons da Mafia – sejam discretos no seu apetite pelo poder. Bo portava-se mais como um político Americano. Ele gostava de mostrar a sua autoridade em público. Isso foi suficiente para aborrecer outros chefes do partido.

Já que a rivalidade entre facções no seio do Partido não pode ser tratada discretamente, alguns dos colegas de Bo acharam que ele tinha que desaparecer. O modo que os chefes do partido, na China não menos que no Japão, se livram de rivais incómodos, é deitá-los abaixo com escândalos públicos, transmitidos a uma imprensa obediente, que se encarrega então de atear as chamas.

O aparecimento de uma esposa perversa nos escândalos públicos Chineses é um fenómeno comum. Quando Mao Zedong purgou o seu chefe do Partido mais antigo, Liu Shaoqi, durante a Revolução Cultural, a mulher de Liu foi exposta pelas ruas usando bolas de pingue-pongue à volta do pescoço como um símbolo de decadência e extravagância perversas. Depois da morte do próprio Mao, a sua esposa Jiang Qing foi presa e apresentada como uma Lady Macbeth Chinesa. É possível que as acusações de assassínio contra a esposa de Bo, Gu Kailai, façam parte dum tal teatro político.

Na verdade, a queda de Bo envolve não apenas a sua esposa, mas toda a sua família. Isto, também, é uma tradição Chinesa. A família deve ser responsabilizada pelos crimes de um dos seus membros. Quando esse indivíduo cai, também eles devem cair. Por outro lado, quando as coisas lhe correm bem, eles beneficiam, como foi o caso com muitos dos familiares de Bo e da sua esposa, cujos negócios floresceram enquanto ele esteve no poder.

Tem havido muita especulação sobre as consequências da queda de Bo, e da fuga ousada do activista dos direitos humanos, Chen Guangcheng, depois de 18 meses de prisão domiciliária. Irá a sua fuga para a embaixada dos EUA endurecer as atitudes dos lideres da China? Irá forçar os EUA a ser mais duros relativamente aos direitos humanos na China? Se sim, o que se seguirá?

Já que Bo se apresentou como um crítico populista do moderno capitalismo Chinês e um promotor autoritário da ética Maoista, os seus inimigos naturais dentro da liderança do Partido pareceriam ser os chefes mais “liberais”, que favorecem o capitalismo de livre mercado e até mesmo algumas reformas políticas. O actual primeiro-ministro, Wen Jiabao, pareceria ser o lider desta facção. Ele fez discursos sobre a necessidade de reformas democráticas, e tem criticado abertamente Bo. Chen pediu-lhe para investigar abusos contra si e a sua família.

Então, poderia a queda de Bo levar a uma sociedade mais aberta, menos hostil a vozes dissidentes? É possível que os Comunistas Chineses favoráveis a mais liberalismo económico também estejam mais receptivos a uma sociedade mais aberta? Mas o oposto também pode ser verdade: quanto maiores as disparidades na riqueza, e quanto mais o povo protestar contra a desigualdade económica, mais o regime combaterá os dissidentes.

Essa repressão não pretende proteger o comunismo, muito menos o pouco que sobra do Maoísmo. Pelo contrário, pretende proteger o tipo de capitalismo do Partido Comunista Chinês. Pode ter sido por isso que Bo teve que ser deposto, e seguramente porque dissidentes como Chen, bem como a sua família, têm tanto que sofrer que o refúgio numa embaixada estrangeira é a sua opção final e desesperada.

Traduzido do inglês por António Chagas

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