Saturday, April 19, 2014
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O Momento G-Zero da América

NOVA IORQUE – A crise financeira de 2008 marcou o fim da ordem global como a conhecíamos. Antecipando a próxima cimeira do G-8, é impossível ignorar o facto de que, pela primeira vez em sete décadas, os Estados Unidos não podem fazer avançar a agenda internacional ou fornecer liderança global nos problemas mais prementes da actualidade.

Na verdade, os EUA diminuíram a sua presença no exterior ao recusar contribuir para um resgate da zona euro, intervir na Síria ou usar a força para conter o ímpeto nuclear do Irão (apesar de forte apoio Israelita). O Presidente Barack Obama terminou oficialmente a guerra no Iraque, e está a retirar as tropas dos EUA do Afeganistão, a um ritmo limitado apenas pela necessidade de manter as aparências. A América está a entregar o testemunho da liderança – mesmo que nenhum outro país ou grupo de países esteja disposto ou capaz para o receber.

Em suma, a política externa dos EUA pode estar tão activa como sempre, mas está a reduzir os seus efectivos e a tornar-se mais específica sobre as suas prioridades. Como resultado, muitos desafios globais – mudanças climáticas, comércio, escassez de recursos, segurança internacional, guerra cibernética, e proliferação nuclear, para referir alguns – tenderão a agigantar-se.

Bem-vindos ao mundo G-Zero, um ambiente mais turbulento e incerto onde a coordenação de questões políticas globais não tem lugar. Paradoxalmente, este novo ambiente, embora assustador, é menos problemático para os EUA; de facto, proporciona oportunidades novas para os EUA capitalizarem a sua posição única. Este mundo G-Zero não é mau de todo para os EUA – se estes jogarem bem as suas cartas.

Num mundo assim, muitas forças residuais assumem maior importância, e a América continua a ser a única verdadeira superpotência do mundo e a sua maior economia – mais que duas vezes maior do que a economia Chinesa. As suas despesas com defesa correspondem a quase metade do total mundial, e excedem as de 17 países combinados. O dólar permanece a divisa de reserva mundial, e a corrida dos investidores à dívida pública dos EUA, em todos os picos da crise desde 2008, sublinhou o estatuto de porto seguro da América (mesmo em crises causadas pela América).

Do mesmo modo, os EUA continuam a liderar no empreendedorismo, na investigação e desenvolvimento, no ensino superior, e na inovação tecnológica. Além disso, são agora o maior produtor mundial de gás natural e o maior exportador de calorias, o que reduziu a sua vulnerabilidade a choques de preço ou à escassez de alimentos.

Nenhum país rivaliza com a promoção que a América faz do Estado de Direito, da democracia liberal, da transparência, e da livre iniciativa. Enquanto outros países são certamente apoiantes destes valores, só os EUA têm a disposição, a saúde, e o tamanho suficientes para garantir a sua prevalência. Portanto, à medida que a América for limitando a sua liderança global, essa será cada vez mais procurada.

Olhe-se para a Ásia, por exemplo. À medida que crescem a importância económica e a influência regional da China, os seus vizinhos procuram fortalecer laços com os EUA. O Japão, a Austrália, a Indonésia e Taiwan fecharam recentemente acordos comerciais e de segurança com os EUA. Até a Birmânia embarcou, retomando o envolvimento diplomático com os EUA ao mesmo tempo que tenta escapar da sombra da China.

Por outras palavras, num mundo G-Zero, um ambiente global crescentemente agressivo torna os EUA ainda mais atraentes a países que procurem garantir as suas apostas. Como resultado, os EUA têm uma oportunidade para agir de modo mais preciso na defesa dos seus interesses. Fornecer menos liderança permite aos EUA pesarem custos de oportunidade antes de encetarem acções, e de seleccionar os assuntos e circunstâncias que melhor se lhe adequam. Neste ambiente, uma intervenção militar na Líbia não exige uma acção semelhante na Síria.

Ainda falta ver até que grau os EUA capitalizarão estas oportunidades. De facto, as vantagens de curto prazo da América constituem o maior obstáculo às suas perspectivas de longo prazo. Chame-se a isto a “maldição do porto seguro”: enquanto os EUA permanecerem o porto mais seguro em qualquer tempestade, não enfrentarão qualquer pressão imediata para resolver as suas fraquezas.

Por exemplo, apesar de todas as lamentações sobre a dívida nacional da América, os investidores continuarão a emprestar dinheiro aos EUA. No longo prazo, todavia, os legisladores dos EUA devem assegurar um progresso estável na recuperação da confiança na saúde fiscal da nação cortando programas politicamente sagrados como a segurança social, o Medicare, e a defesa. Os funcionários deverão deixar de lado motivos de curto prazo e a ortodoxia partidária para reforçar as envelhecidas infraestruturas da América, reformar os seus sistemas educativo e de imigração, e perseguir uma consolidação fiscal de longo prazo.

As vantagens da América no mundo G-Zero conferem-lhe a hipótese de investir no futuro. Mas, ao amortecerem contra riscos suficientemente calamitosos, as mesmas vantagens permitem aos EUA procrastinar. Os políticos Americanos precisam de reconhecer a nova realidade G-Zero e reconstruir as fontes internas de força da América, mesmo que só de um modo incremental. Se o fizerem, os EUA terão o vigor e a flexibilidade para moldar a nova ordem mundial.

O sistema politico Americano funciona normalmente bem durante as crises. Mas, graças às suas vantagens residuais num mundo sem liderança, os EUA não precisam de esperar por uma crise para precipitar a acção. Só precisam de agarrar o momento G-Zero.

Traduzido do inglês por António Chagas

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  1. CommentedZsolt Hermann

    I would like to add some observations.
    What has started in 2008 is just the beginning and we still only scratching the tip of the iceberg, we are not in a crisis but in a system failure.
    The present socio-economic system, based on constant growth, expansion, and constant self calculation on the expense of others, has become self destructive since it is unsustainable in a closed, finite system, and we have passed the tipping point in 2008.
    Whatever happened since is just a series of desperate cosmetic adjustments, simply deepening the problem instead of solving it, like pumping a terminally ill patient full of morphine.
    What is happening now in Europe will appear in the US and other parts of the world very soon due to the inevitable natural laws governing our global, integral system.
    Since the US is the epitome of our excessive, overproduction, over consumption lifestyle that is collapsing, they will feel it possibly more than any other country.
    On the other hand the foundations, and resources of the US are good, thus there is good base to start recovery from, but only if they understand what went wrong and how we need to adapt to our global, interdependent conditions in order to recover.
    And it will be difficult because the new attitude humans need in relation to each other is totally opposite to how Americans viewed themselves and world for decades.
    Even in this article the writer is already analyzing how the US can use the global troubles ahead for their own purposes and benefit without any thought of others. This is impossible in our interconnected system.
    From now on each and every one of us need to take the whole system into consideration before individual or even national self calculations.
    The motivation to do so against our present thinking would come from the full understanding of our 21st century global, integral network, and how we fit into this network.
    Thus we need to take into consideration the countless of objective scientific data already surrounding us regarding this.
    Otherwise we do not stand a chance.

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