5

Uma Nova Missão para o Banco Mundial

WASHINGTON, DC – A Revolução Verde é considerada um dos grandes sucessos da história do desenvolvimento econômico. Na década de 1960 e 1970, a criação e adoção de variedades de cereais de alto rendimento conseguiu tranformar a economia indiana e salvar bilhões de pessoas da fome em toda aquela grande parcela do mundo em desenvolvimento.

Mas atualmente, o futuro da instituição responsável pela Revolução Verde - um consórcio de 15 centros de pesquisa ao redor do mundo chamado Grupo Consultivo sobre Pesquisa Agrícola Internacional (CGIAR)- está ameaçado. O Banco Mundial, um dos seus principais financiadores, está considerando a retirada de seu apoio financeiro.

Chicago Pollution

Climate Change in the Trumpocene Age

Bo Lidegaard argues that the US president-elect’s ability to derail global progress toward a green economy is more limited than many believe.

Por si só, esta decisão já seria muito preocupante. A missão do CGIAR é a segurança alimentar mundial e a pesquisa agrícola básica possui enorme potencial para proporcionar retorno econômico à população pobre do mundo. Mas o que é ainda mais preocupante é o sinal que o Banco Mundial está enviando: que já não irá apoiar os bens públicos globais carentes de recursos que são cruciais para preservar o progresso social, econômico e político do século passado.

Os cortes propostos ao CGIAR fazem parte do esforço do Banco Mundial para diminuir seu orçamento administrativo em $400 milhões - uma promessa feita pelo presidente da organização, Jim Yong Kim, em 2013. Atualmente, o Banco Mundial proporciona subsídio anual de $50 milhões ao CGIAR; o que teria que ser cortado em $20 milhões, com o montante total possivelmente zerado em alguns anos.

O dinheiro envolvido não seria muito significativo para qualquer organização. Os números sendo discutidos são minúsculos em comparação aos $ 52 bilhões concedidos em 2013 por doadores do Banco Mundial para ajudar a combater a pobreza global e prestar assistência aos países de baixa renda. Para o CGIAR, os cortes propostos, apesar de dolorosos, não seriam devastadores; em 2013, o grupo gastou $ 984 milhões para financiar suas atividades.

Não obstante, o Banco Mundial - a notável instituição de desenvolvimento global – está basicamente fazendo declarações no sentido de que a pesquisa agrícola não é uma prioridade de desenvolvimento. De fato, o financiamento ao CGIAR não é a única fonte de recursos que está em risco. O Banco Mundial também está considerando cortar suas contribuições pequenas mas importantes e aglutinadoras para a Rede Global de Desenvolvimento, que financia os pesquisadores dos países em desenvolvimento. Seu apoio à Iniciativa para a Transparência nas Indústrias Extrativistas, que promove a divulgação de ofertas relativas aos recursos naturais no interesse de reduzir a corrupção, também está em risco, bem como seu financiamento para o Programa Especial para Pesquisa e Treinamento em Doenças Tropicais. Esses e outros programas são apoiados pelos Mecanismos de Subvenção de Desenvolvimento do Banco, que têm sido o alvo de uma possível fonte de cortes no orçamento administrativo.

O dinheiro fornecido pelo Banco Mundial para apoiar a provisão de bens públicos mundiais relacionados com o desenvolvimento nunca foi uma parte substancial de seus gastos. Os quase $200 milhões por ano que ele gastou no apoio ao CGIAR e outros usuários autorizados parecem irrisórios em comparação com os $35 bilhões em empréstimos que ele concedeu em 2012. Mas os cortes propostos iriam esvaziar uma área de atividades do banco que deveria ser expandida e não reduzida.

De fato, em sua origem, o Banco Mundial não foi concebido como fornecedor de subvenções a instituições que trabalham com os bens públicos globais. Sua missão principal era – e ainda é – conceder empréstimos e assistência técnica aos governos.  Mas é interessante notar que, em relação a empréstimos soberanos, investimentos privados e remessas de migrantes, a relevância do Banco Mundial para as finanças dos países em desenvolvimento foi drasticamente reduzida no século XXI.

Uma vez que seus empréstimos ou garantias vêm junto com expertise e consultoria, o Banco Mundial ainda é um produto viável. Mas, como argumentei anteriormente, deveria haver outros. Como pioneiro no mundo e a única instituição de desenvolvimento totalmente global, ele está bem colocado - e certamente tem a responsabilidade - de ajudar a patrocinar, financiar e estabelecer prioridades na gestão dos bens públicos mundiais.

É hora de um ou mais governos que são membros do Banco Mundial assumirem a causa. A resposta rápida da organização para a recente pandemia de Ebola é um exemplo impressionante de sua capacidade para com as preocupações globais. Além disso, este ano, a comunidade internacional vai realizar acordos sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável - metas que estariam bem servidas por investimentos em áreas como pesquisas agrícolas e desenvolvimento, esforços para otimizar a terra e água e proteção florestal.

Fake news or real views Learn More

Os Estados Unidos, em estreita colaboração com Alemanha, Reino Unido e China, devem ser capazes de oferecer uma ordem clara para o Banco Mundial neste sentido. A missão do Banco do século XX - ajudar os países a financiar seus desenvolvimentos - continuará a ser fundamental para o futuro próximo. Mas também há espaço para o Banco Mundial ajustar seu foco para o século XXI, com ênfase crescente em um dentre os pré-requisitos do núcleo de desenvolvimento: a gestão cautelosa e a proteção dos bens públicos mundiais.

Traduzido do Inglês por Roseli Honório