Latin America market Federico Parra/Getty Images

Prosperidade “produzida nas Américas”?

WASHINGTON, DC – Enquanto Canadá, México e Estados Unidos se concentram na quinta rodada de negociações para a modernização do Acordo de Livre Comércio da América do Norte – uma meta bastante incerta – os governos do resto das Américas estão debatendo uma questão de comércio mais fundamental. Quem será seu parceiro comercial dominante do futuro: os Estados Unidos, a Europa ou a China?

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Durante mais de um século, a resposta óbvia a essa pergunta foi: “os Estados Unidos”. A proximidade, o poder de influência e a própria força econômica do país faziam dele o centro natural de atenção comercial para a América Latina. E a América Latina é o primeiro ou segundo parceiro comercial mais importante de 37 dos 50 estados norte-americanos.

Em 2016, empresas norte-americanas exportaram um total de US$ 515 bilhões em bens e serviços para a América Latina e o Caribe – quase três vezes mais do que exportaram para a China. Além disso, enquanto os Estados Unidos têm um déficit comercial grande e recorrente com a China, o país tipicamente registra um superávit com seus vizinhos do sul, o que, tradicionalmente, favorece os bens de alto valor e serviços sofisticados que as empresas norte-americanas fornecem.

No entanto, esse quadro está mudando depressa. Nas duas últimas décadas, empresas chinesas estiveram discretamente capturando fatias de mercado na América Latina e no Caribe. A participação de importações dos Estados Unidos na América Latina caiu de 50% em 2000 para 33% em 2016, enquanto a da China saltou de 3% para 18%. Em muitos lares latino-americanos, laptops, smartphones, televisões e automóveis chineses substituíram marcas norte-americanas famosas.

Claro que essa mudança é em parte resultado dos fatores temporais que impulsionaram o rápido crescimento e expansão global da China. Mas também reflete a estratégia de longo prazo da China para consolidar sua posição em um dos mercados emergentes mais atraentes do mundo.

Até 2030, a América Latina e o Caribe terão uma população combinada de cerca de 720 milhões de habitantes. De acordo com previsões conservadoras, seu PIB estará por volta de US$ 9 trilhões, com apenas seis economias – Brasil, México, Argentina, Colômbia, Chile e Peru – respondendo por 86% desse total.

Além disso, os países da América Latina e do Caribe estão se movimentando para se tornar um bloco integrado. Graças a uma série de acordos, 80% do comércio entre países latino-americanos e caribenhos já é isento de tarifas. Várias medidas de facilitação do transporte, de procedimentos alfandegários menos burocráticos à harmonização de regras de origem, estão desmontando pouco a pouco as barreiras que ainda restam. Os dois maiores blocos regionais – Mercosul e Aliança do Pacífico, que, juntos, incluem as seis maiores economias da região – estão considerando muito a sério a possibilidade de uma convergência.

Essa tendência para uma maior integração regional oferecerá uma oportunidade única para explorar todo um mercado altamente lucrativo a partir de algumas poucas bases de operações. Empresas chinesas que estão agora fazendo aquisições e construindo fábricas no Brasil, por exemplo, poderão distribuir seus produtos com condições preferenciais em países vizinhos, ao mesmo tempo em que utilizam cadeias de valor regionais para peças e matéria-prima.

Como a China, a União Europeia reconhece o amplo potencial da América Latina como parceiro comercial. Na verdade, a participação da UE nas importações totais da América Latina esteve em declínio e encontra-se agora em 13,5%. Mas eles estão trabalhando com afinco para reverter essa tendência, inclusive fechando acordos que cobrem quase todas as economias da região. E as negociações para um acordo de livre comércio com os países do Mercosul estão nos estágios finais. Isso colocará a Europa à frente tanto da China como dos Estados Unidos em termos de acesso ao mercado.

Mas a China continua a se empenhar em muitas frentes para consolidar uma posição vantajosa na América Latina. Uma dessas estratégias é despejar grandes volumes de investimento direto na região. Por algumas estimativas, a China já investiu mais de US$ 106 bilhões na América Latina em anos recentes, incluindo US$ 60 bilhões somente no Brasil. O investimento chinês foi direcionado, até o momento, primariamente para agricultura, energia e projetos de mineração. Mas uma porcentagem crescente está sendo agora canalizada para a manufatura em setores que geram empregos de altos salários e transferem competências muito necessárias para as economias hospedeiras.

A China também se tornou um grande investidor na nova infraestrutura de que a América Latina precisa com urgência. O país está organizando esses investimentos no âmbito de sua Belt and Road Initiative, ou Iniciativa de Cinturão e Rota, uma visão global de conectividade, cooperação e prosperidade que tem sido muito bem recebida pelos líderes latino-americanos.

Enquanto a China e a UE agarram as oportunidades na América Latina e no Caribe, os Estados Unidos continuam a ceder participação no mercado. No entanto, essa é a sua vizinhança e o país poderia facilmente propor uma iniciativa de integração similar aqui. E os Estados Unidos certamente têm fortes incentivos para buscar uma estratégia de reaproximação ativa com a América Latina: o Banco Interamericano de Desenvolvimento calcula que, se os EUA recuperassem a fatia das importações para a América Latina que tinha em 2000, poderiam estar exportando por volta de US$ 788 bilhões a cada ano para a região. Isso é suficiente para possibilitar a criação de um milhão de empregos adicionais no país.

Essa estratégia poderia atrair o interesse e a iniciativa empreendedora dos 57 milhões de cidadãos norte-americanos que têm raízes ao sul do Rio Grande, incluindo os 3,3 milhões de empresas americanas de propriedade hispânica, muitas das quais estão ansiosas para se expandir para o exterior. Poderia até mesmo ajudar a conduzir os difíceis debates sobre migração e tráfico de drogas para uma direção mais produtiva.

Em um tempo de incerteza global, uma visão de prosperidade “produzida nas Américas” proporciona uma agenda unificadora para o continente. Com sua implementação, os Estados Unidos poderiam reafirmar sua liderança histórica entre um grupo de países que compartilham seus valores fundamentais, além de um interesse por um crescimento econômico inclusivo e melhores padrões de vida.

http://prosyn.org/Nn3uP3T/pt;

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