14

Verdades comerciais para apoiantes de Trump e do Brexit

LONDRES – Eis um banho de realidade para os decisores Britânicos e Americanos, e para os inúmeros especialistas que frequentemente comentam sobre o comércio internacional sem compreenderem as suas realidades: os dados relativos às exportações e importações totais da Alemanha em 2016 indicam que o seu maior parceiro comercial é agora a China. A França e os Estados Unidos foram empurrados para o segundo e terceiro lugares.

Esta notícia não deveria surpreender. Já por várias vezes referi que, em 2020, as empresas (e os decisores) da Alemanha poderão preferir uma união monetária com a China em vez de uma união monetária com a França, dado que o comércio entre a Alemanha e a China continuaria provavelmente a crescer.

E foi o que aconteceu, principalmente devido às exportações chinesas para a Alemanha. Mas as exportações alemãs para a China também têm aumentado. Apesar de um abrandamento recente, a Alemanha poderá em breve exportar mais para a China do que para a sua vizinha e parceira França, e já exporta para a China mais do que exporta para Itália. Para os exportadores alemães, a França e o Reino Unido são os únicos mercados nacionais Europeus maiores do que a China.

Os observadores experientes do comércio internacional tendem a seguir duas regras genéricas. Primeiro, o nível de comércio entre os dois países costuma diminuir à medida que aumenta a distância geográfica a que estão. E, em segundo lugar, é mais provável que um país tenha mais comércio com países grandes que apresentem uma forte procura interna, do que com países mais pequenos que tenham uma procura mais fraca.

Os últimos dados do comércio na Alemanha confirmam ambas as regras, mas especialmente a segunda. Um país grande, mas geograficamente distante, é diferente de um país mais pequeno, não só na dimensão, mas também na sua natureza. Este facto é muitas vezes esquecido nas discussões sobre acordos comerciais, especialmente em atmosferas políticas tão carregadas como as que prevalecem actualmente no Reino Unido e nos EUA.

No Reino Unido, a Câmara dos Comuns já aprovou um projecto de lei para estabelecer um processo de saída da União Europeia; mas a Câmara dos Lordes exige agora que o projecto-lei seja alterado para proteger os cidadãos da UE que vivam no Reino Unido. Na minha própria breve contribuição para a maratona de debates que ocorreu no mês passado na Câmara dos Lordes, defendi que, mesmo que o Brexit não seja actualmente o maior desafio de política económica do Reino Unido, agravará quase certamente outros problemas, nomeadamente o crescimento persistentemente reduzido da produtividade, os deficientes programas de formação e de criação de competências, e as desigualdades geográficas.

Além disso, adverti que o Reino Unido precisará de adoptar uma abordagem muito mais direccionada e ambiciosa ao comércio, semelhante à da China ou da Índia, se pretender sair-se bem depois do Brexit. Infelizmente, a estratégia comercial pós-Brexit do Reino Unido está a ser determinada pela política interna, de tal modo que se considera “patriótica” a ênfase em novos acordos comerciais com a Austrália, o Canadá, a Nova Zelândia, e outros países da Commonwealth, ao mesmo tempo que é ignorada a dura realidade económica.

A Nova Zelândia pode ser um país maravilhoso, mas não tem uma economia especialmente desenvolvida, e está muito longe do Reino Unido. Com efeito, apesar dos seus enormes problemas, a economia da Grécia ainda é maior que a da Nova Zelândia.

Muitos decisores no Reino Unido (e todos aqueles que apoiam o Brexit) ignoram os custos prováveis de sair do mercado único da UE: mas isto é razão mais do que suficiente para prestar seriamente atenção, dadas a dimensão e a proximidade geográfica do mercado único. É muito importante que, depois do Brexit, o Reino Unido mantenha laços comerciais fortes com muitos estados-membros da UE. Para isso, a Grã-Bretanha deveria reforçar as suas exportações de serviços, já que este é um sector onde ainda terá uma verdadeira vantagem natural.

Ao mesmo tempo, o Reino Unido deveria urgentemente tentar levar o seu relacionamento com a China (apelidado de “relacionamento áureo” pelo antigo Primeiro-Ministro britânico, David Cameron) a um novo nível. Se existe um país com quem o Reino Unido deveria querer celebrar um novo acordo comercial, é certamente a China. Durante a minha curta passagem pelo governo Britânico, ajudei o então Chanceler, George Osborne, a convencer Cameron de que deveríamos aspirar a transformar a China no nosso terceiro maior mercado de exportação, no prazo de uma década. Será que o novo governo ainda considera isto prioritário?

Para além da China, a Grã-Bretanha também precisa de se concentrar mais nos seus laços comerciais com a Índia, a Indonésia, e a Nigéria, países que terão uma influência significativa na economia mundial e nos modelos comerciais globais nas décadas vindouras.

Nos EUA, o presidente Donald Trump e os seus conselheiros de política económica precisam de voltar à realidade, especialmente no que diz respeito ao comércio. Poderão começar por estudar os modelos comerciais da Alemanha, principalmente os relacionados com a China. Na verdade, a China tem um grande excedente comercial bilateral com os EUA, mas também representa um mercado de exportação em expansão para as empresas dos EUA. E se a tendência dos últimos 10-15 anos continuar, a China poderá suplantar em breve o Canadá e o México como o mercado de exportação mais importante para a América.

À medida que o rendimento das famílias chinesas continuar a subir, a procura para alguns dos bens e serviços mais competitivos dos EUA só poderá aumentar. Trump, em vez de vomitar disparates sobre a manipulação da moeda pela China, deveria encorajar as forças de mercado para reequilibrar o comércio bilateral.

O mesmo pode ser dito do défice externo global dos EUA. A menos que os EUA consigam aumentar a sua taxa de poupança relativamente às suas necessidades de investimento interno, continuarão a necessitar de entradas de capital estrangeiro. E isto, por sua vez, implica que deverão manter o desequilíbrio da balança comercial e de transacções correntes.

Finalmente, ao insistir numa renegociação do Acordo de Comércio Livre Norte-Americano, Trump assume um risco semelhante ao dos apoiantes do Brexit. Apesar dos ganhos recentes da China, o Canadá e o México ainda são vizinhos próximos e parceiros comerciais fundamentais. Ao perturbar os padrões de importação com os três países, as políticas de Trump deverão provavelmente fazer subir os preços das importações, ao mesmo tempo que põem em perigo o crescimento das exportações dos EUA.