20

A Educação é uma Questão Securitária

LONDRES – Em Novembro, falei no Conselho de Segurança das Nações Unidas pela primeira vez em 13 anos. Reparei como está diferente agora o ambiente. Em Setembro de 2000, o mundo parecia muito diferente. Tentávamos articular a nova ordem securitária para a década seguinte à queda do Muro de Berlim. Claro que existiam desafios. Mas a atmosfera era leve, até positiva, enquanto discutíamos erradicar a pobreza no mundo em desenvolvimento.

Desta vez, o ambiente era sombrio. E os primeiros dias de 2014 tornaram-no ainda mais escuro. Percorramos o resumo noticioso de qualquer dia e encontraremos histórias de terrorismo e violência perpetrados em nome de uma visão falsa da religião. Algumas são cometidas por personagens não-estatais, e outras por personagens estatais; mas todas são cometidas no contexto da divisão e do conflito definido por diferenças de fé religiosa.

Erdogan

Whither Turkey?

Sinan Ülgen engages the views of Carl Bildt, Dani Rodrik, Marietje Schaake, and others on the future of one of the world’s most strategically important countries in the aftermath of July’s failed coup.

Esta é a nova luta do vigésimo primeiro século. Não a venceremos a não ser que combatamos as suas causas principais e as suas consequências sinistras.

Hoje, num arco que se estende do Extremo Oriente, passando pelo Médio Oriente, até às ruas das cidades na Europa e nos Estados Unidos, enfrentamos um flagelo que ceifou vidas inocentes, marcou comunidades, e desestabilizou países. É uma ameaça que está constantemente a evoluir, a crescer, e a mudar para contrariar a luta que lhe fazemos.

Os extremistas que propagam esta violência têm redes que chegam aos jovens e conhecem o poder da educação, seja formal ou informal. Os extremistas estão a encher as mentes jovens com a crença de que todos os que discordam são inimigos – e não apenas inimigos seus, mas inimigos de Deus.

Compreensivelmente, o debate securitário tem sido frequentemente centrado nas consequências. Depois de um ataque, os estados consideram medidas de segurança imediatas. Os terroristas são perseguidos. Depois voltamos às nossas vidas quotidianas, até à próxima vez que acontecerem.

Mas a mudança duradoura depende de lidarmos com as causas principais do extremismo. Claro que a política tem o seu papel. E os extremistas são bons a aproveitar as queixas políticas. Mas o solo onde plantam as sementes do ódio é adubado com a ignorância.

É por isso que precisamos de começar a pensar na educação como uma questão securitária.

Os extremistas justificam matar em nome de Deus. Esta é uma perversão obscena da adequada fé religiosa. E é uma ameaça, tanto pelo dano que provoca directamente como pela divisão e sectarismo danosos que alimenta indirectamente. Cada morte é uma tragédia humana. Mas também provoca uma reacção em cadeia de amargura e ódio. Há medo real nas comunidades atormentadas por um tal extremismo, um medo que paralisa a vida normal e afasta as pessoas umas das outras.

A globalização está a intensificar-se e a multiplicar este extremismo. Não sendo limitado por fronteiras, pode manifestar-se em qualquer lugar. Estamos mais ligados do que em qualquer ponto da história humana, e mais e mais pessoas começam a contactar com aqueles que são diferentes deles. Portanto a necessidade de respeitar um vizinho que não é como nós é muito maior: mas a possibilidade de identificá-lo como um inimigo é também maior.

E isto não acontece apenas com o extremismo Islâmico. Há actos extremistas perpetrados contra Muçulmanos por causa da sua religião, e hoje há Cristãos, Judeus, Hindus e Budistas fanáticos que desfiguram a verdadeira natureza da sua fé.

É por isso que a educação no vigésimo primeiro século é uma questão securitária para todos nós. O desafio consiste em mostrar, aos jovens que estão vulneráveis aos apelos dos terroristas, que existe um melhor caminho para fazerem ouvir a sua voz, um modo mais significativo para se relacionarem com o mundo.

A boa notícia é que sabemos como fazê-lo. Uso a minha Faith Foundation apenas como um exemplo. O nosso programa escolar promove o diálogo intercultural entre estudantes dos 12 aos 17 anos em todo o mundo. Chegando a estudantes em mais de 20 países, o nosso programa liga estudantes através de um sítio Web seguro, onde interagem a partir das suas salas de aula sob a supervisão de professores treinados.

Através de videoconferências facilitadas, os estudantes discutem questões globais a partir de uma variedade de perspectivas de fé e crença. Adquirem as capacidades de diálogo necessárias para prevenir o conflito ultrapassando estereótipos religiosos e culturais. Para escolas nas áreas mais pobres, usamos acordos especiais, porque não conseguem aceder à Internet.

É certo que somos apenas uma gota no oceano. Mas temos agora experiência em mais de mil escolas; mais de 50.000 estudantes já foram ensinados, e estamos a trabalhar em países tão diversos como o Paquistão, a Índia, os EUA, a Jordânia, o Egipto, o Canadá, a Itália, as Filipinas, e a Indonésia. Tive o privilégio de testemunhar como estes estudantes se familiarizaram com as culturas, fés, e crenças que inspiram tantas pessoas em todo o mundo.

Existem muitos outros exemplos fantásticos deste tipo de trabalho. Mas faltam-lhes os recursos, o peso, e o reconhecimento de que necessitam.

Temos que mobilizar-nos para derrotar o extremismo. E precisamos de agir globalmente. Todos os governos devem levar a sério a sua responsabilidade para educar os jovens no sentido de aceitar e respeitar pessoas de diferentes fés e culturas.

Não há questão que seja mais urgente. Existe o perigo real de que o conflito religioso substitua as lutas de base ideológica do último século de um modo igualmente devastador.

Support Project Syndicate’s mission

Project Syndicate needs your help to provide readers everywhere equal access to the ideas and debates shaping their lives.

Learn more

Compete a todos nós mostrar às pessoas que temos uma ideia melhor do que a dos extremistas – aprender uns com os outros e viver uns com os outros. E isto precisa de ser uma parte essencial da educação dos jovens.

Traduzido do inglês por António Chagas