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A luta de classes na Turquia

NOVA IORQUE – Uma das interpretações que se pode fazer das manifestações anti-governo que agora agitam as cidades turcas é que são um protesto em massa contra o Islão político. O que começou como um protesto contra os planos oficiais para destruir um pequeno parque no centro de Istambul, que daria lugar a um centro comercial kitsch, rapidamente evoluiu para um conflito de valores.

Superficialmente, a luta parece representar duas visões diferentes da Turquia moderna, a secular contra a religiosa, a democrática contra a autoritária. Foram realizadas comparações com o movimento Occupy Wall Street. Alguns observadores até falam mesmo falar de uma “Primavera turca”.

Não há dúvida de que muitos cidadãos turcos, especialmente nas grandes cidades, estão fartos do estilo cada vez mais autoritário do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, da sua mão de ferro sobre a imprensa, do seu gosto pelas novas mesquitas grandiosas, das restrições no álcool, das detenções de dissidentes políticos e, agora, da resposta violenta às manifestações. As pessoas temem que a lei islâmica sharia substitua a legislação secular e que o islamismo estrague os frutos do esforço de Kemal Ataturk para modernizar a Turquia pós-otomana.

Depois, há a questão dos alevitas, uma minoria religiosa ligada ao sufismo e ao xiismo. Os alevitas, que têm sido protegidos pelo Estado secular kemalista, desconfiam profundamente de Erdogan, que os perturbou ainda mais ao planear dar o nome de um sultão do século XVI, que massacrou os seus antepassados, a uma nova ponte sobre o estreito de Bósforo.