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Aprendendo com a Derrocada Política da Austrália

CAMBERRA – A política australiana devia, à primeira vista, ter tanto interesse para o resto do mundo como o canto difónico dos tuvanos ou os rituais fúnebres do povo bantu. Contudo, nas viagens que efectuei recentemente à América do Norte, Europa e à Ásia, verifiquei o contrário. Inversamente ao que se poderia esperar, existe um estranho fascínio nos círculos políticos e nos meios de comunicação social relativamente ao governo agonizante do actual Partido Trabalhista Australiano (ALP, na sigla em inglês).

Decisores políticos e analistas questionam como é possível que um governo que orientou facilmente a Austrália durante a crise financeira global e que liderou, nos últimos seis anos, um período de prosperidade sem precedentes, possa encontrar-se na eminência de uma extinção eleitoral em Setembro, conforme indicam todas as sondagens de opinião?

Como é que um país pluralista e socialmente tolerante, com padrões que grande parte do mundo inveja, se revoltou face a tanta divisão política e amargura? Haverá aqui uma mensagem para os governos democráticos em geral, ou para os governos de centro-esquerda de outros locais, ou apenas para o ALP?

É possível que algumas particularidades da situação australiana estejam a criar mais tensões do que seria provável acontecer em outro local. Um ciclo eleitoral, ridiculamente curto, de três anos torna quase impossível governar num ambiente livre de campanha. As regras do partido permitem que os líderes - incluindo primeiros-ministros em exercício de funções - sejam politicamente executados, da noite para o dia, pelos seus colegas do parlamento. É impressionante a preocupação que os nossos meios de comunicação social demonstram por trivialidades - e a falta de consciência colectiva existente - mesmo segundo os padrões dos tablóides britânicos.