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Um enterro grego para a austeridade alemã

BERLIM – Não há muito tempo, jornalistas e políticos alemães declararam com confiança que a crise do euro tinha acabado; a Alemanha e a União Europeia, pelo menos assim acreditavam, tinham resistido à tempestade. Hoje, sabemos que isso foi apenas mais um erro numa crise que tem estado repleta deles. O erro mais recente, semelhante à maioria dos anteriores, proveio de esperanças vãs – e, mais uma vez, foi a Grécia que quebrou a fantasia.

Mesmo antes de o partido de esquerda, Syriza, dominar por completo a vitória nas recentes eleições gerais da Grécia, era óbvio que, longe de ter acabado, a crise ameaçava piorar. Austeridade – a política de salvar alguém de uma escassez da procura – simplesmente não funciona. Numa economia em contracção, o rácio da dívida em relação ao PIB de um país aumenta, em vez de descer, e os países em crise assolados pela recessão da Europa juntaram-se agora numa depressão, resultando num desemprego em massa, em níveis alarmantes de pobreza e em pouca esperança.

As advertências sobre um retrocesso político grave passaram despercebidas. Sombreado pelo tabu da forte inflação da Alemanha, o governo da chanceler Angela Merkel insistiu teimosamente que a dor da austeridade era essencial para a recuperação económica; a UE tinha pouca escolha a não ser seguir o mesmo caminho. Agora, com os eleitores da Grécia a expulsarem a elite exausta e corrupta do seu país, a favor de um partido que prometeu acabar com a austeridade, as repercussões chegaram.

Mas, apesar de a vitória do Syriza poder marcar o início do próximo capítulo na crise do euro, o perigo político - e, possivelmente, existencial - que a Europa enfrenta é mais profundo. O abandono inesperado da fixação de um limiar mínimo do franco suíço face ao euro por parte do Banco Nacional Suíço (SNB), no dia 15 de Janeiro, embora não represente qualquer ameaça financeira imediata, foi um enorme golpe psicológico, que reflectiu e reforçou uma enorme perda de confiança. O euro, tal como a atitude do SNB sugere, continua tão frágil como nunca. E a decisão subsequente do Banco Central Europeu de comprar mais de um bilião de euros (1,14 biliões de dólares) em títulos de governos da zona euro, embora correcta e necessária, esmoreceu ainda mais a confiança.