Two students just got hepatitis vaccination Xinhua News Agency/Getty Images

Uma fórmula para a equidade na saúde

KIGALI – Imaginem um país onde perto de 90% da população goza da cobertura de seguros de saúde, mais de 90% das pessoas com VIH são consistentemente medicadas, e 93% das crianças estão vacinadas contra doenças transmissíveis comuns, incluindo o VPH. Onde calculam que se situaria essa terra encantada de equidade médica? Na Escandinávia? Na Costa Rica? Em Nárnia?

The Year Ahead 2018

The world’s leading thinkers and policymakers examine what’s come apart in the past year, and anticipate what will define the year ahead.

Order now

Experimentem a África; o Ruanda, mais precisamente.

No meu país natal, os cuidados de saúde são um direito garantido para todos, e não um privilégio reservado aos ricos e poderosos. O Ruanda continua pobre, mas, durante os últimos 15 anos, o seu progresso na saúde atraiu as atenções globais, e por bons motivos. Em 2000, a esperança de vida à nascença era apenas de 48 anos; hoje, é de 67. Os apoios internacionais ajudaram, mas as nossas conquistas foram principalmente realizadas por inovações de uma outra ordem, não-financeira.

Para começar, o Ruanda implementou uma abordagem colaborativa à governação, baseada em agrupamentos, que nos permite conseguir fazer mais com o mesmo montante de financiamento. Além disso, os nossos funcionários públicos dedicam-se à resolução de problemas, demonstrando um nível de engenho que produziu muitas soluções localizadas a desafios do desenvolvimento humano, tais como assegurar a segurança alimentar e o fornecimento adequado de água potável e de alojamento.

Mas talvez o mais importante factor motivador dos nossos enormes ganhos em saúde tenha sido a agenda nacional para a equidade, que define metas para apoio aos necessitados e monitoriza os avanços no sentido da sua consecução. Desde que implementou esta abordagem, o Ruanda conseguiu diminuir a percentagem de pessoas que vivem em condições de pobreza extrema de 40% da população em 2000 para 16.3% em 2015.

Para além dos benefícios óbvios, estes ganhos são importantes porque, como notou recentementea UNICEF, o retorno potencial do investimento em serviços sociais para crianças vulneráveis é duas vezes maior quando os benefícios são distribuídos pelos mais vulneráveis. Por outras palavras, o Ruanda conseguiu tanto e tão rapidamente porque estamos a desfrutar de maiores taxas de retorno no investimento nos mais pobres.

Ao trabalhar no sentido da equidade na saúde, o Ruanda fez da acessibilidade uma prioridade principal. Em 2016, nove em cada dez ruandeses estavam inscritos num dos programas nacionais de seguros de saúde. A maioria da população está inscrita no esquema de Seguro de Saúde de Base Comunitária (SSBC), que aumentou o acesso aos cuidados de saúde para os cidadãos mais vulneráveis, através da isenção de encargos.

Como consequência, o alcance da cobertura de cuidados de saúde no Ruanda é elevado em termos globais, o que é ainda mais notável para um país que sofreu os horrores do genocídio na geração anterior. Comparemos com a situação nos EUA: embora a taxa de Americanos sem seguro tenha caído acentuadamente graças à Lei dos Cuidados de Saúde Acessíveis de 2010, os segurados enfrentam aumentos rápidos dos prémios e das despesas antecipadas. Talvez os EUA devessem considerar a adopção de um programa análogo ao SSBC, para reduzir ainda mais o número de americanos que enfrentam problemas financeiros nos cuidados médicos.

O Ruanda concebeu a entrega dos cuidados de saúde tendo também o acesso em mente, distribuindo profissionais de saúde comunitária (PSC) pelas 15 000 aldeias do país. Estes clínicos locais servem de guardiões de um sistema que reduziu os tempos de espera e os fardos financeiros tratando directamente os doentes, frequentemente nas suas casas.

OS EUA também poderiam beneficiar com um programa de PSC. Os EUA transbordam de jovens qualificados que, como os PSC, poderiam transpor o fosso entre as instituições de saúde e os doentes, melhorando assim o capital social e os resultados de saúde dos americanos. Conforme demonstrou a experiência do Ruanda, estes programas fazem mais do que alargar o acesso aos cuidados de saúde: também diminuem os custos globais, ao reduzirem os internamentos desnecessários.

Já foi comprovado que estes programas podem ser transferidos. Desde 1997 que o Brigham and Women’s Hospital apoia a comunidade VIH+ de Boston, com o programa de Prevenção e Acesso a Cuidados e Tratamento (PACT). Esta iniciativa baseou-se no modelo de PSC implementado na região rural do Haiti pela Partners In Health, uma organização de cuidados de saúde sem fins lucrativos que integra PSC nos cuidados primários e na saúde mental.

Como consequência dessa iniciativa, o sistema de segurança governamental Medicaid gastou menos dinheiro em internamentos hospitalares, e as despesas com o internamento desceram 62%. Outras comunidades dos EUA poderiam (e deveriam) incorporar modelos semelhantes nos seus programas de tratamento para doenças crónicas.

Foi a inovação que deu início ao relançamento dos cuidados de saúde no Ruanda, e é o pensamento progressista que o impele ainda hoje. Por exemplo, os centros de saúde criados pelo país distribuem vacinas e tratam doenças que os PSC nas aldeias não conseguem tratar, e alargaram os serviços de obstetrícia à maioria das mulheres ruandesas.

Para ampliar ainda mais o acesso, cada distrito no Ruanda tem um hospital, e cada região no país tem um hospital de referência ou universitário, onde existem especialistas que conseguem tratar dos casos mais difíceis. Embora alguns hospitais ainda tenham problemas com a carência de pessoal, o governo está a tentar colmatar estas falhas com uma iniciativa de contratação de professores de mais de 20 instituições dos EUA, para apoiar a formação dos nossos especialistas clínicos.

Em pouco mais de duas décadas, graças a soluções de origem local e à colaboração internacional, o Ruanda diminuiu enormemente o fardo da doença sobre o seu povo e a sua economia. Olhando para o futuro, o nosso objectivo consiste em educarmos os líderes de amanhã para que aproveitem o sistema equitativo de cuidados de saúde que criámos. É esta a missão da Universidade da Equidade Global em Saúde, uma nova universidade baseada na região rural do Ruanda que adoptou a justiça, a colaboração e a inovação para seus princípios orientadores.

Como médica ruandesa que contribuiu para a construção do sistema de saúde do meu país desde a sua infância, estou orgulhosa daquilo que conseguimos em tão pouco tempo. Não se tratou de magia; tratou-se de uma fórmula. Graças à cooperação global continuada, outros países, incluindo os países desenvolvidos, podem aprender a aplicá-la.

http://prosyn.org/B53GuTK/pt;

Handpicked to read next

  1. Patrick Kovarik/Getty Images

    The Summit of Climate Hopes

    Presidents, prime ministers, and policymakers gather in Paris today for the One Planet Summit. But with no senior US representative attending, is the 2015 Paris climate agreement still viable?

  2. Trump greets his supporters The Washington Post/Getty Images

    Populist Plutocracy and the Future of America

    • In the first year of his presidency, Donald Trump has consistently sold out the blue-collar, socially conservative whites who brought him to power, while pursuing policies to enrich his fellow plutocrats. 

    • Sooner or later, Trump's core supporters will wake up to this fact, so it is worth asking how far he might go to keep them on his side.
  3. Agents are bidding on at the auction of Leonardo da Vinci's 'Salvator Mundi' Eduardo Munoz Alvarez/Getty Images

    The Man Who Didn’t Save the World

    A Saudi prince has been revealed to be the buyer of Leonardo da Vinci's "Salvator Mundi," for which he spent $450.3 million. Had he given the money to the poor, as the subject of the painting instructed another rich man, he could have restored eyesight to nine million people, or enabled 13 million families to grow 50% more food.

  4.  An inside view of the 'AknRobotics' Anadolu Agency/Getty Images

    Two Myths About Automation

    While many people believe that technological progress and job destruction are accelerating dramatically, there is no evidence of either trend. In reality, total factor productivity, the best summary measure of the pace of technical change, has been stagnating since 2005 in the US and across the advanced-country world.

  5. A student shows a combo pictures of three dictators, Austrian born Hitler, Castro and Stalin with Viktor Orban Attila Kisbenedek/Getty Images

    The Hungarian Government’s Failed Campaign of Lies

    The Hungarian government has released the results of its "national consultation" on what it calls the "Soros Plan" to flood the country with Muslim migrants and refugees. But no such plan exists, only a taxpayer-funded propaganda campaign to help a corrupt administration deflect attention from its failure to fulfill Hungarians’ aspirations.

  6. Project Syndicate

    DEBATE: Should the Eurozone Impose Fiscal Union?

    French President Emmanuel Macron wants European leaders to appoint a eurozone finance minister as a way to ensure the single currency's long-term viability. But would it work, and, more fundamentally, is it necessary?

  7. The Year Ahead 2018

    The world’s leading thinkers and policymakers examine what’s come apart in the past year, and anticipate what will define the year ahead.

    Order now