A man begs for money Jewel Samad/Getty Images

A pobreza é também um problema psicossocial

BRIGHTON – Ser pobre é uma experiência altamente vergonhosa, degradando a dignidade e a auto-estima. Embora as manifestações e as causas da pobreza sejam diferentes, a humilhação que a acompanha é universal. Um estudo recente realizado na Universidade de Oxford, constatou que, desde a China até ao Reino Unido, as pessoas que enfrentam dificuldades económicas — inclusivamente as crianças — passam por um ataque quase idêntico ao seu orgulho e auto-estima.

The Year Ahead 2018

The world’s leading thinkers and policymakers examine what’s come apart in the past year, and anticipate what will define the year ahead.

Order now

No entanto, apesar das provas claras que associam a pobreza ao sofrimento psicológico, as políticas que abordam a pobreza, de um modo geral, não têm em consideração a vergonha. Contrariamente, os esforços para reduzir a pobreza tendem a concentrar-se em manifestações concretas de privação, como a falta de rendimentos ou de escolaridade. Como resultado, as soluções para a pobreza assumem frequentemente de forma implícita que o aumento da riqueza material ou a melhoria das condições de vida se traduzirão automaticamente em benefícios não tangíveis, incluindo a melhoria do bem-estar mental.

Esta falta de atenção prestada à vertente "psicossocial" da pobreza — a interacção entre as forças sociais e a atitude ou comportamento individual — é um erro. Se quisermos aliviar o sofrimento humano e alcançar o principal objectivo de desenvolvimento sustentável da ONU de erradicar a pobreza "em todas as suas formas" até 2030, a abordagem dos papéis intrínsecos e instrumentais que a vergonha desempenha na pobreza deve estar na frente e no centro dos nossos esforços.

O devastador sentimento de desonra que acompanha a pobreza e impede as pessoas de tomarem medidas positivas para melhorar a sua situação foi constatado em todo o mundo. Na Índia, a vergonha associada à perda de colheitas e a pressão financeira levou os agricultores ao abuso de substâncias e, em casos extremos, ao suicídio. Na Tanzânia, os investigadores que estudam o ensino bilíngue constataram que o receio de ridicularização pode impedir que os alunos com competências mais fracas a nível de inglês participem nas aulas participem nas aulas. Além disso, no Uganda, os alunos do ensino secundário pobres afiram que a incapacidade de pagar propinas, comprar fardas ou obter materiais escolares é uma constante fonte de humilhação.

Para enfrentar a vergonha da pobreza e explicar adequadamente o papel que a vergonha desempenha na perpetuação da pobreza, devem ser tomadas várias medidas.

Para começar, os decisores políticos devem reconhecer o problema. Em vez de considerar a vergonha como um subproduto infeliz de viver na pobreza, os promotores do desenvolvimento humano deviam ter em consideração a forma como a pobreza prejudica a dignidade humana. O Prémio Nobel da Economia, Amartya Sen, uma das vozes mais influentes sobre a redução da pobreza, argumentou há muito que a vergonha é uma força motriz da pobreza “absoluta”. Considerar a vergonha com seriedade deve fazer parte de qualquer estratégia de redução da pobreza.

Além disso, a vergonha, a falta de autoconfiança e a auto-estima baixa podem ter um efeito negativo na forma como as pessoas vêem a sua capacidade de influenciar a mudança, sustentando uma percepção de inadequação que pode ser debilitante e armadilhá-los na pobreza. Para ajudar as pessoas a escapar desta situação, as estratégias de desenvolvimento humano devem considerar a forma reforçar a acção pessoal, a aspiração e a auto-eficácia — a convicção na capacidade para influenciar os eventos que afectam a própria vida.

Finalmente, os decisores políticos devem estar cientes de que os programas destinados a reduzir a pobreza, se não forem adequadamente aplicados, podem efectivamente aumentar o sentimento de vergonha. Por exemplo, os investigadores que trabalhavam na Índia em 2005 constataram que as mulheres indianas deixaram de ir aos centros de saúde para evitar o tratamento humilhante pelos profissionais de saúde — em detrimento do seu próprio bem-estar e do bem-estar dos seus filhos. Na África do Sul, algumas mulheres que solicitaram subsídios para apoio à criança relataram experiências semelhantes, e o mesmo sucedeu com os utilizadores do banco alimentar no Reino Unido.. Na verdade, muitos entrevistados na Grã-Bretanha afirmaram que o estigma de receber comida gratuita era de tal modo grave que o "medo" e o "constrangimento" eram emoções comuns.

A questão da vergonha e a necessidade de considerar este tema com mais seriedade nas políticas de redução da pobreza está lentamente a progredir. Os académicos que estudam o sofrimento humano reconheceram que a “dignidade do destinatário” constitui um elemento fundamental do alívio eficaz da pobreza. Por exemplo, um estudo realizado em 2016 dos programas de transferência de dinheiro em África constatou que a ausência de stresse e vergonha aumentou a confiança nos destinatários, levando à melhoria das tomadas de decisão e da produtividade. Com base nestas evidências, a Universidade de Oxford está a ampliar a sua investigação sobre a "relação entre vergonha e pobreza", a fim de analisar de que forma o sector do desenvolvimento internacional pode elaborar políticas de combate à pobreza “à prova de vergonha”.

Os programas destinados a reduzir a pobreza estão a avançar na direcção certa, mas ainda há muito trabalho a fazer para integrar o elemento psicossocial da pobreza nas políticas e no planeamento. Só será possível erradicar a pobreza em todas as suas formas quando os decisores políticos compreenderem verdadeiramente que a dignidade e o respeito próprio são requisitos prévios inevitáveis na luta contra a privação, e não os resultados do seu alívio.

http://prosyn.org/3gnfjtP/pt;

Handpicked to read next

  1. Patrick Kovarik/Getty Images

    The Summit of Climate Hopes

    Presidents, prime ministers, and policymakers gather in Paris today for the One Planet Summit. But with no senior US representative attending, is the 2015 Paris climate agreement still viable?

  2. Trump greets his supporters The Washington Post/Getty Images

    Populist Plutocracy and the Future of America

    • In the first year of his presidency, Donald Trump has consistently sold out the blue-collar, socially conservative whites who brought him to power, while pursuing policies to enrich his fellow plutocrats. 

    • Sooner or later, Trump's core supporters will wake up to this fact, so it is worth asking how far he might go to keep them on his side.
  3. Agents are bidding on at the auction of Leonardo da Vinci's 'Salvator Mundi' Eduardo Munoz Alvarez/Getty Images

    The Man Who Didn’t Save the World

    A Saudi prince has been revealed to be the buyer of Leonardo da Vinci's "Salvator Mundi," for which he spent $450.3 million. Had he given the money to the poor, as the subject of the painting instructed another rich man, he could have restored eyesight to nine million people, or enabled 13 million families to grow 50% more food.

  4.  An inside view of the 'AknRobotics' Anadolu Agency/Getty Images

    Two Myths About Automation

    While many people believe that technological progress and job destruction are accelerating dramatically, there is no evidence of either trend. In reality, total factor productivity, the best summary measure of the pace of technical change, has been stagnating since 2005 in the US and across the advanced-country world.

  5. A student shows a combo pictures of three dictators, Austrian born Hitler, Castro and Stalin with Viktor Orban Attila Kisbenedek/Getty Images

    The Hungarian Government’s Failed Campaign of Lies

    The Hungarian government has released the results of its "national consultation" on what it calls the "Soros Plan" to flood the country with Muslim migrants and refugees. But no such plan exists, only a taxpayer-funded propaganda campaign to help a corrupt administration deflect attention from its failure to fulfill Hungarians’ aspirations.

  6. Project Syndicate

    DEBATE: Should the Eurozone Impose Fiscal Union?

    French President Emmanuel Macron wants European leaders to appoint a eurozone finance minister as a way to ensure the single currency's long-term viability. But would it work, and, more fundamentally, is it necessary?

  7. The Year Ahead 2018

    The world’s leading thinkers and policymakers examine what’s come apart in the past year, and anticipate what will define the year ahead.

    Order now