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Uma estratégia para unir e salvaguardar a Europa

BRUXELAS – O propósito – e até mesmo a sobrevivência – da União Europeia está a ser questionado como nunca antes. Na verdade, os cidadãos da Europa e o mundo precisam agora de uma UE forte, mais do que nunca.

A região da Europa em geral tornou-se menos estável e mais insegura nos últimos anos. Além disso, as crises dentro e fora das fronteiras da UE estão a afetar diretamente a vida de todos os cidadãos europeus.

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Em tempos difíceis como estes, uma UE forte é aquela que pensa estrategicamente, partilha uma visão e atua de forma conjunta. No rescaldo do referendo em que o Reino Unido decidiu sair da UE, nós, os europeus, teremos mesmo de repensar como é que a nossa União funciona; mas sabemos perfeitamente quais são os nossos objetivos. Sabemos quais são nossos princípios, interesses e prioridades. Isto não é hora para incertezas políticas. A UE precisa de uma estratégia que una uma visão partilhada a uma ação comum.

Nenhum dos estados-membros da UE, a agir sozinho, tem a força para abordar as ameaças que a Europa enfrenta. Nem podem, sozinhos, agarrar as oportunidades apresentadas pela atual economia global. Mas sendo uma União com mais de 500 milhões de cidadãos, o potencial da Europa é incomparável.

A nossa rede diplomática é ampla e profunda, cobrindo todos os cantos do globo. Economicamente, estamos no G3 do mundo, ao lado da China e dos Estados Unidos. Nós somos o parceiro comercial e o investidor estrangeiro de quase todos os países do mundo. Juntos, os estados-membros da UE investem mais na cooperação para o desenvolvimento do que todo o resto do mundo junto.

É também evidente, contudo, que na Europa não estamos a fazer pleno uso deste potencial, pelo menos por enquanto. A grande maioria dos nossos cidadãos entende que precisamos de assumir uma responsabilidade coletiva para o nosso papel no mundo. Os nossos parceiros também esperam que a União Europeia desempenhe um papel importante, inclusive como provedor da segurança global.

A UE só consegue atender às necessidades dos seus cidadãos e fazer as suas parcerias funcionarem, se todos agirmos juntos – as instituições da UE e os governos nacionais, em todos os níveis, unidos. É mesmo este o objetivo da Estratégia Global para a Política Externa e de Segurança da União Europeia, a qual apresentei recentemente aos líderes dos estados-membros, e à Comissão Europeia e ao Conselho Europeu.

Esta estratégia, a primeira da UE em mais de uma década, concentra-se tanto nas capacidades de defesa e na luta contra o terrorismo, como nas oportunidades de emprego, na inclusão social e nos direitos humanos. Ocupa-se com a construção da paz e a resiliência dos Estados e das sociedades dentro e ao redor da Europa.

A UE sempre se orgulhou do seu poder brando – e continuará a fazê-lo, porque somos os melhores neste campo. Mas a ideia de que a Europa é exclusivamente uma “potência civil” não faz justiça a uma realidade em constante evolução. Por exemplo, a UE realiza atualmente 17 operações civis e militares em todo o mundo. Em lugares tão distantes como Afeganistão e Congo, Geórgia e Sahel, Moldávia, Somália e Mediterrâneo, milhares de homens e mulheres servem sob a bandeira da Europa. Para a Europa de hoje, o poder brando e o poder duro andam de mãos dadas.

A estratégia nutre a ambição de uma autonomia estratégica para a UE, que é necessária para promover os interesses comuns dos nossos cidadãos, bem como os nossos princípios e valores. No entanto, sabemos que essas prioridades são melhor atendidas quando não estamos sozinhos e num sistema internacional baseado no multilateralismo e em regras, e não em polícias globais e guerreiros solitários.

É por isso que a UE continuará a aprofundar a ligação transatlântica e a nossa parceria com a OTAN [NATO], enquanto irá também ligar-se a novos intervenientes e explorar novos formatos para fazer progredir a nossa Estratégia. A UE investirá em instituições regionais e na cooperação dentro e entre regiões. E iremos promover reformas de governação global que possam fazer frente aos desafios deste século.

Enquanto fazemos isso, iremos comprometer-nos de forma prática e com princípios, partilhando responsabilidades globais com os nossos parceiros e contribuindo para os seus pontos fortes. Duas décadas de propagação de incertezas globais ensinaram-nos uma lição clara: as fraquezas do meu vizinho e as fraquezas do meu parceiro são as minhas próprias fraquezas. Deste modo, iremos ultrapassar a ilusão de que a política internacional pode ser um jogo de soma zero.

Atuar desta forma com resolução, irá melhorar cada um dos estados-membros da UE (e cada cidadão da nossa União). Mas todas as metas aqui descritas podem ser alcançadas apenas com uma Europa verdadeiramente unida e empenhada. Juntando todas as nossas culturas para atingir os nossos objectivos partilhados e servir os nossos interesses comuns é um desafio diário, mas também é nossa maior força: a diversidade é o que nos torna fortes.

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Os nossos interesses são, de facto, os interesses comuns europeus e a única maneira de servi-los é através de meios comuns. É por isso que todos os europeus, e todos os estados-membros da UE, têm a responsabilidade coletiva de fortalecer a nossa União.

O povo da Europa precisa de uma união de objetivos e ações entre os nossos estados-membros. Um mundo frágil apela por uma UE mais confiante e responsável, equipada com uma política externa e de segurança virada para o exterior e em direção ao futuro. A nova Estratégia Global irá guiar-nos à medida que trabalhamos em direção a uma União que atenda verdadeiramente às necessidades, esperanças e aspirações dos seus cidadãos; uma União que se baseie no sucesso dos 70 anos de paz; e uma União suficientemente forte para contribuir para a paz e segurança na nossa região e em todo o mundo.