0

Combater o konzo

EAST LANSING, MICHIGAN – Muitas doenças evitáveis, desde a SIDA até à febre-amarela, há muito que afligem a África Subsaariana. Mas erradicá-las requer uma compreensão da doença a nível de debates, dinheiro, educação, apoio governamental, planeamento e, não menos importante, um interesse por parte da comunidade e do mundo para resolverem o problema.

Vejamos o exemplo de uma doença evitável que a maioria das pessoas nunca ouviu falar: o konzo, um distúrbio permanente e irreversível do neurónio motor superior, comum nas áreas rurais da África Subsaariana que dependem das variedades da mandioca amarga como alimento de base. O konzo ocorre quando as raízes de mandioca não estão devidamente tratadas antes de serem consumidas, algo que geralmente requer colocá-las de molho até fermentarem e depois secá-las ao sol para permitir a quebra de compostos cianogénicos. Centenas ou milhares de pessoas numa zona rural podem ser afectadas com cada surto.

Aleppo

A World Besieged

From Aleppo and North Korea to the European Commission and the Federal Reserve, the global order’s fracture points continue to deepen. Nina Khrushcheva, Stephen Roach, Nasser Saidi, and others assess the most important risks.

O konzo é especialmente comum na República Democrática do Congo, na República Centro-Africana, em Moçambique e na Tanzânia, e muitas vezes surge após secas ou conflitos, quando os alimentos são escassos. As mulheres e as crianças são as mais afectadas, especialmente em tempos de dificuldades económicas, quando têm menos acesso à carne, ao feijão e a outras fontes de aminoácidos sulfurados necessárias para o fígado desintoxicar o cianeto no corpo.

As consequências não passam despercebidas. A Organização Mundial da Saúde define o konzo como uma visível anormalidade espástica da marcha quando se anda ou corre; uma história que começa uma semana após um historial anteriormente saudável, seguida de um percurso não progressivo; e espasmos exagerados nos joelhos ou nos tornozelos, sem sinais de doença da coluna vertebral.

A gravidade do konzo varia. Segundo a classificação da OMS de 1996, a doença é considerada pouco grave quando a vítima não precisa de utilizar muletas regularmente; moderada quando são utilizadas uma ou duas bengalas ou muletas; e grave quando o doente, ou a doente, está acamado(a) ou incapaz de andar sem apoio.

Uma vez que o konzo foi inicialmente caracterizado como uma pura doença do neurónio motor superior, confinada às vias motoras do sistema nervoso central, foi sugerido que os efeitos cognitivos eram mínimos. Mas a evidência electrofisiológica surgiu mais tarde sugerindo que o funcionamento do cérebro superior também pode ser afectado. Ao documentar deficiências cognitivas em crianças com konzo, tanto eu como os meus colegas observámos sintomas sub-clínicos, mesmo em crianças que não tinham konzo mas que viviam em agregados familiares afectados pelo konzo, uma conclusão que teve como base o seu desempenho noutros testes cognitivos mais especializados de memória e aprendizagem.

Estes sintomas mais subtis podem constituir uma condição pré-konzo, fornecendo um aviso de que uma criança está a aproximar-se do início da doença. Assim, os efeitos neurocognitivos documentados em crianças que não sofriam da doença mas que viviam em agregados familiares e comunidades afectados pelo konzo são o motivo mais importante para garantir a segurança alimentar nas regiões dependentes das variedades de mandioca amarga com altos níveis de compostos cianogénicos.

Com este objectivo em mente, a Fundação Bill e Melinda Gates apoiou a investigação no desenvolvimento de elevadas produções de variedades de mandioca não-tóxica. Estas estirpes geneticamente modificadas podem prosperar mesmo em solos degradados, para que as pessoas já não tenham de recorrer às variedades mais tóxicas.

Mas propagar estas estirpes mais seguras tem-se mostrado difícil. As regiões afectadas pelo konzo não têm as capacidades e infra-estruturas necessárias, a nível da agricultura, educação e saúde pública, para implementarem as mudanças necessárias. Pelas mesmas razões, estas regiões não conseguem diversificar os seus alimentos principais de forma a incluírem culturas mais seguras, como o milhete, o milho ou o feijão.

Tendo em conta que não há nenhuma cura para os danos neurológicos que o konzo provoca, a batalha contra a doença deve concentrar-se na prevenção. Enquanto isso significar continuar a demonstrar os benefícios de novas variedades de mandioca e de outros alimentos de base, a primeira prioridade deve ser a de educar as pessoas, especialmente as mulheres das zonas rurais, sobre os perigos do consumo de mandioca não tratada e ensiná-las a prepará-la de forma segura. Utilizar o marketing social culturalmente adequado, semelhante aos utilizados na educação anti-VIH, a mensagem pode ser transmitida através das redes sociais, telemóveis, rádio e televisão.

Support Project Syndicate’s mission

Project Syndicate needs your help to provide readers everywhere equal access to the ideas and debates shaping their lives.

Learn more

Não há dúvida de que as comunidades nas regiões afetadas, há muito que adoptam práticas seguras e tradicionais. Mas elas podem não estar cientes da razão pela qual estas práticas são tão importantes e, portanto, das consequências de não aderirem a elas. Especialmente durante os períodos de turbulência e de escassez de alimentos, pôr de molho as raízes descascadas, durante três dias, até à fermentação e depois secá-las ao sol, durante um dia, pode parecer um luxo inacessível. Mas não é.

Milhões de pessoas estão em risco de contraírem o konzo, e os surtos podem ocorrer a qualquer momento. A lesão neurológica pode ser debilitante e é permanente. Uma vez que sabemos como preveni-la, somos obrigados a agir.