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Superando a inadequação de competências na América Latina

WASHINGTON, DC – A América Latina pode estar à beira de uma transformação notável. Nos próximos anos os empregos de renda média – especialmente no setor de serviços – deverão representar quase todo o aumento do emprego da região. Segundo as previsões, os países da região poderão acrescentar cerca de 14 a 23 milhões de empregos bem remunerados até 2018 – se os empregadores conseguirem encontrar trabalhadores com as aptidões de que necessitam.

E aí está o problema. Os sistemas educacionais da América Latina estão lutando para produzir um número suficiente de trabalhadores qualificados a fim de aumentar a produtividade. Mais de um terço das firmas da região mencionam os baixos níveis de aptidões profissionais dos trabalhadores como a principal restrição às empresas. Para impulsionar o crescimento econômico a América Latina precisa investir em uma força de trabalho qualificada. Ao ampliar o acesso à educação de alta qualidade de educadores dos setores tanto público como privados, os países da região aumentarão a produtividade, elevarão os padrões de vida e reduzirão a desigualdade.

Aleppo

A World Besieged

From Aleppo and North Korea to the European Commission and the Federal Reserve, the global order’s fracture points continue to deepen. Nina Khrushcheva, Stephen Roach, Nasser Saidi, and others assess the most important risks.

Enfrentar a inadequação no mercado de trabalho há muito é esperada. O primeiro passo para assegurar que na América Latina os estudantes tenham as qualificações necessárias para tirar proveito das oportunidades oferecidas na região é reconhecer que aumentar os orçamentos da educação e manter os estudantes mais tempo na sala de aulas, embora importantes, não bastam. Alguns países latino-americanos aumentaram o gasto com a educação. O México e o Brasil gastam 5%-6% do PIB na educação, mais do que muitos países desenvolvidos e quase três vezes mais do que a China. Mas a qualidade de seus programas não reflete esse gasto e é necessário um enfoque maisvoltado ao ensino superior.

Em geral, os governos latino-americanas gastam cerca de um terço menos no ensino superior (como parcela do PIB) do que as economias avançadas. Além disso, de 2000 a 2010 a despesa por estudante na região diminuiu, ao passo que aumentou o número de matrículas (a Argentina e El Salvador são exceções a esta tendência). Consequentemente, a qualidade da educação sofreu. Lição tirada dos países de maior desempenho na Europa e na Ásia: aumentar as aptidões cognitivas –segundo medidas em pontuações de testes –exige melhor instrução, reformas das políticas educacionais e melhorias na infraestrutura.

O segundo passo que os países latino-americanos precisam tomar é promover –e aplicar –normas claras de qualidade na educação tanto pública como privada. Isso deve ser acompanhado de soluções financeiras que tornem um ensino superior de qualidade mais viável e acessível a todos os grupos socioeconômicos.

As matrículas podem representar um ônus, principalmente para adultos e estudantes que trabalham e provêm de famílias de baixa renda. Os governos devem assegurar que o sacrifício compense sob a forma de bons empregos, renda mais elevada e mobilidade social –questões importantes em uma região assolada pela desigualdade. Os esforços do Governo brasileiro para melhorar a qualidade por meio de condições mais estritas sobre o financiamento subsidiado de estudantes é o melhor método/método certo.

Terceiro, a região precisa desenvolver programas de educação mais suscetíveis às necessidades do mercado. Isso reveste importância especial no treinamento profissionalizante em campos técnicos, nos quais a América Latina fica atrás da maioria das outras regiões do mundo.

Comparados com as universidades públicas, os programas do ensino privado tendem a focar mais nas qualificações técnicas e profissionais. A ênfase em uma gestão eficiente pode tornar as instituições privadas atraentes tanto a estudantes e governos como a investidores. Cursos on-line e escolas satélites, por exemplo, oferecem meios inovadores de ampliar o fornecimento da educação a um custo razoável.

No Chile colégios universitários, tais como o Duoc UC –proporcionam modelos excelentes de instituições que oferecem valor aos estudantes. O Duoc UC alinhou uma série de programas técnicos, profissionalizantes e profissionais com as necessidades do mercado de contar com aptidões práticas sólidas. Oferece também extensos serviços de carreira: em média, quatro quintos dos diplomados encontram empregos em menos de seis meses após a formatura, geralmente no campo em que estudaram.

O Duoc UC também demonstrou como instituições privadas, em parceria com o governo, podem ampliar o acesso economicamente viável à educação de qualidade. E não está sozinho. A parceria entre o Serviço Nacional de Aprendizagem da Colômbia (SENA) –instituição pública de ensino financiada por encargos sobre a folha de pagamento das empresas –e a Corporação Universitária Minuto de Deus (Uniminuto) –instituição privada sem fins lucrativos –é outro exemplo de um programa bem-sucedido.

A Uniminuto trabalha com o governo e com o setor industrial para assegurar que seus programas atendam às necessidades dos empregadores. A empresa tornou uma série diversificada de programas acadêmicos acessível a estudantes que trabalham e tem pouco tempo para se deslocar. A pesquisa recente da Corporação Financeira Internacional constatou que os graduados da Uniminuto – quase dois terços dos quais qualificados na matrícula como de baixa renda – aumentaram sua renda e responsabilidades profissionais, além de tirarem bom proveito de sua experiência educacional. Além disso, os empregadores classificaram as aptidões dos graduados da Uniminuto como comparáveis às dos graduados de universidades de maior prestígio.

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No Peru, a Universidade Peruana de Ciências Aplicadas (UPC) oferece educação de alta qualidade a cerca de 46.000 estudantes com um método que potencializa o uso da tecnologia. A UPC faz parte da rede de laureados de universidades privadas e programas de treinamento profissional, os quais em conjunto proporcionam educação a mais de 800.000 estudantes latino-americanos.

A educação é um investimento, um caminho para a prosperidade e mobilidade social. Por toda América Latina, estudantes e suas famílias deverão gastar US$ 176 bilhões por ano na educação de hoje até 2020 – ligeiramente mais do que no Sudeste Asiático. Eles estão à procura de bons programas que melhorem suas qualificações e aumentem suas oportunidades a um custo acessível, independentemente do fato de a instituição ser pública ou privada. Promover o valor para estudantes de escolas tanto públicas como privadas deve ser o ponto focal da reforma da educação na América Latina.