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Os vigilantes americanos de Merkel

BERLIM – Os alemães costumavam dizer na brincadeira que a “queda” da chanceler Angela Merkel para comunicar através de mensagens de texto efémeras tinha efectivamente marcado o fim da historiografia tradicional. Bem, pelo menos parece que as agências de espionagem americanas mantiveram-se a par de todas as comunicações efectuadas nos bastidores - em Berlim e além.

Infelizmente, o presidente dos EUA, Barack Obama e o seu governo ainda têm de compreender a dimensão e a gravidade dos danos causados à credibilidade dos Estados Unidos entre os seus aliados europeus. O problema não é que os países se vigiem uns aos outros (todos eles o fazem). É mais propriamente a extensão da recolha de informações dos EUA e a atitude da América para com os aliados que causa mais estragos.

Os confrontos anteriores nas mais diversas questões, tais como a alteração climática, os detidos na Baía de Guantánamo e a Guerra do Iraque expuseram uma ruptura na compreensão mútua, por vezes decorrente de diferenças acentuadas em relação à melhor forma de se atingir determinados objectivos em comum. Mas a crise das escutas telefónicas e outras revelações preocupantes do antigo analista da NSA, Edward J. Snowden, apontam para um problema mais profundo: a crise de desconfiança mútua que corre o risco de se tornar numa séria falha transatlântica, numa altura em que a cooperação mais próxima nas áreas da política, da economia e da segurança, entre a Europa e os Estados Unidos, é mais necessária do que nunca.

Provavelmente não há nada mais destrutivo para as relações amistosas entre os Estados democráticos do que o comportamento de um aliado que faz com que o outro lado prejudique a sua reputação a nível nacional. Afinal de contas, foi Merkel quem tentou acalmar os ânimos depois de o escândalo com a NSA ter atingido pela primeira vez a Europa, no Verão passado. É por isso que as alegadas escutas telefónicas dos EUA ao seu telemóvel são tão prejudiciais para ela, a nível pessoal e político.