5

Responder ao Ébola

NOVA IORQUE – A terrível epidemia do Ébola em pelo menos quatro países da África Ocidental (Guiné, Libéria, Serra Leoa e Nigéria) não exige apenas uma resposta de emergência para deter o surto; também apela a repensar alguns pressupostos básicos da saúde pública global. Vivemos numa era de doenças infecciosas emergentes e reemergentes que podem espalhar-se rapidamente através das redes globais. Precisamos por isso de um sistema global de controlo de doenças que seja comensurável com essa realidade. Felizmente, um tal sistema está ao nosso alcance se investirmos de modo apropriado.

O Ébola é a última de muitas epidemias recentes, que também incluem a SIDA, a SRAS, a gripe H1N1, a gripe H7N9, e outras. A SIDA é o mais mortífero destes assassinos, reclamando perto de 36 milhões de vidas desde 1981.

Chicago Pollution

Climate Change in the Trumpocene Age

Bo Lidegaard argues that the US president-elect’s ability to derail global progress toward a green economy is more limited than many believe.

Evidentemente serão possíveis epidemias ainda maiores e mais súbitas, como a gripe de 1918, que durante a I Guerra Mundial reclamou 50-100 milhões de vidas (muito mais do que a própria guerra). E embora o surto de SRAS de 2003 tenha sido contido, causando menos de 1.000 mortos, a doença esteve à beira de perturbar profundamente várias economias da Ásia Oriental, incluindo a da China.

Existem quatro factos cruciais que devem ser compreendidos sobre o Ébola e as outras epidemias. Primeiro, a maior parte das doenças infecciosas emergentes são zoonoses, o que quer dizer que iniciam-se em populações animais, por vezes com uma mutação genética que permite a passagem aos humanos. O Ébola pode ter sido transmitido por morcegos; o VIH/SIDA emergiu dos chimpanzés; a SRAS veio muito provavelmente das civetas vendidas em mercados de animais do sul da China; e as estirpes de gripe como o H1N1 e o H7N9 surgiram de recombinações genéticas de vírus entre animais selvagens e domésticos. Novas doenças zoonóticas serão inevitáveis, à medida que a humanidade se lança para novos ecossistemas (como regiões florestais anteriormente remotas); a indústria alimentar cria mais condições para a recombinação genética; e as alterações climáticas baralham os habitats e as interacções naturais das espécies.

Segundo, assim que aparece uma nova doença infecciosa, a sua difusão através de companhias aéreas, navios, megacidades, e comércio de produtos animais será, com grande probabilidade, extremamente rápida. Estas doenças epidémicas são novos marcadores da globalização, revelando, através da sua cadeia de morte, como o mundo se tornou tão vulnerável devido ao movimento omnipresente de pessoas e bens. 

Terceiro, os pobres são os primeiros a sofrer e os mais afectados. Os pobres das áreas rurais vivem mais perto dos animais infectados que pela primeira vez transmitem a doença. Caçam e comem frequentemente animais selvagens, o que os deixa vulneráveis à infecção. Indivíduos pobres, muitas vezes iletrados, não estão normalmente conscientes do modo como as doenças infecciosas – especialmente as doenças pouco familiares – são transmitidas, tornando-os muito mais propensos a serem infectados e a infectarem outros. Além disso, devido à nutrição deficiente e à falta de acesso a serviços básicos de saúde, os seus sistemas imunitários enfraquecidos são facilmente vencidos por infecções, a que indivíduos melhor alimentados e tratados conseguem sobreviver. E as condições “des-medicalizadas” – com poucos ou nenhuns profissionais de saúde que garantam uma adequada resposta de saúde pública a uma epidemia (como o isolamento de indivíduos infectados, o rastreio de contactos, a vigilância, e assim por diante) – tornam mais severos os surtos iniciais.

Finalmente, as respostas médicas necessárias, incluindo ferramentas de diagnóstico e medicamentos e vacinas eficazes, são inevitavelmente posteriores às doenças emergentes. Após qualquer evento, essas ferramentas deverão ser continuamente reconstituídas. Isto requer tecnologia de ponta, imunologia, e em última análise bioengenharia, para criar respostas industriais de grande dimensão (tais como milhões de doses de vacinas ou medicamentos, no caso de grandes epidemias).

A crise da SIDA, por exemplo, canalizou dezenas de milhares de milhões de dólares para pesquisa e desenvolvimento – e compromissos substanciais por parte da indústria farmacêutica – para produzir, à escala global, medicamentos anti-retrovirais que salvam vidas. Contudo, cada avanço leva inevitavelmente à mutação do agente patogénico, tornando os tratamentos anteriores menos eficazes. Não existe uma vitória final, apenas uma constante corrida ao armamento entre a humanidade e os agentes causadores de doenças.

Portanto, estará o mundo pronto para o Ébola, uma nova gripe letal, uma mutação do VIH que pudesse acelerar a transferência da doença, ou o desenvolvimento de novas estirpes multi-resistentes da malária ou de outros agentes patogénicos? A resposta é: não.

Embora o investimento em saúde pública tenha aumentado significativamente depois de 2000, levando a sucessos notáveis nas lutas contra a SIDA, a tuberculose, e a malária, tem havido um marcado défice na despesa global em saúde pública relativamente às necessidades. Os países doadores, incapazes de antecipar e de responder adequadamente a desafios novos e em curso, sujeitaram a Organização Mundial de Saúde a um aperto orçamental debilitante, enquanto o financiamento para o Fundo Global de Luta contra a SIDA, Tuberculose, e Malária ficou aquém dos montantes necessários para vencer a guerra contra estas doenças.

Aqui está uma lista do que precisa de ser feito urgentemente. Primeiro, os Estados Unidos, a União Europeia, os países do Golfo e os estados da Ásia Oriental deverão criar um fundo flexível sob a liderança da OMS para combater a actual epidemia de Ébola, provavelmente com um nível inicial de 50 a 100 milhões de dólares, dependendo de desenvolvimentos futuros. Isto permitiria uma rápida resposta de saúde pública, comensurável com o desafio imediato.

Segundo, os países doadores deverão expandir rapidamente o orçamento e o mandato do Fundo Global, de modo a que se transforme num fundo global de saúde para países de rendimento baixo. O objectivo principal seria ajudar os países mais pobres a criar sistemas básicos de saúde em cada bairro e comunidade rural, um conceito conhecido como Cobertura Sanitária Universal (CSU). A maior urgência está na África Subsaariana e no Sul da Ásia, onde as condições de saúde e a pobreza extrema são piores, e onde doenças infecciosas evitáveis e controláveis continuam a grassar.

Em particular, estas regiões deveriam formar e colocar um novo quadro de trabalhadores comunitários de saúde, formados para reconhecer os sintomas de doenças, fornecer vigilância, e administrar diagnósticos e tratamentos apropriados. Por um custo de apenas 5 mil milhões de dólares por ano, seria possível garantir que trabalhadores de saúde bem treinados estivessem presentes em todas as comunidades Africanas, para contribuir com intervenções de salvamento e responder eficazmente a emergências de saúde como o Ébola.

Fake news or real views Learn More

Finalmente, os países de rendimento elevado deverão continuar a investir adequadamente na vigilância global de doenças, nas capacidades de divulgação da OMS, e em pesquisa biomédica que salve vidas, que têm consistentemente concedido benefícios enormes à humanidade durante o último século. Apesar dos orçamentos nacionais restritivos, seria imprudente colocarmos a nossa própria sobrevivência no cepo fiscal.

Traduzido do inglês por António Chagas