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O Próximo Acto da Internet

BERKELEY – Há dez anos, o mundo emergiu do rebentamento da bolha dot-com e passou a encarar mais sobriamente o potencial da Internet. Embora a cobiça especulativa e o medo de ficar de fora possam ter exagerado a perspectiva de curto prazo, as imensas possibilidades da Internet no longo prazo nunca estiveram em dúvida. Eu, e outros economistas optimistas, assumimos que a informação e comunicação livres seriam os arautos de uma era de rápido crescimento da produtividade e de melhoria do bem-estar – de forma mais ou menos acentuada – para todos, independentemente das suas capacidades, riqueza, ou antecedentes sociais. Estávamos certos?

Em muitos aspectos, a revolução nas tecnologias de informação e comunicação (TIC) deu-nos mais do que prometera – e frequentemente de maneiras imprevisíveis. Para muitos, a verdadeira maravilha da era digital foi ter criado um universo paralelo. Qualquer pessoa com um computador portátil e uma ligação à Internet pode mexericar com (ou sobre) amigos virtuais; testemunhar acontecimentos extraordinários que possam ou não ter acontecido; ou jogar num mundo simulado de complexidade incomparável.

Erdogan

Whither Turkey?

Sinan Ülgen engages the views of Carl Bildt, Dani Rodrik, Marietje Schaake, and others on the future of one of the world’s most strategically important countries in the aftermath of July’s failed coup.

A Internet criou uma paisagem onírica que está acessível a todos e que nos pode inspirar para níveis ainda mais altos de imaginação. Na verdade, todos os que ridicularizam o valor disto deveriam lembrar-se que desde que Homero cantou sobre a ira de Aquiles à volta da lareira, os sonhos têm sido a nossa maior fonte de prazer e de inspiração.

Mas os benefícios da Internet não foram colhidos apenas pelos que trabalham ou jogam online. Toda a gente lucrou até certo ponto. Entremos numa grande loja WalMart, Costco, Tesco ou Lidl em qualquer lugar no mundo, e comparemos o preço, a qualidade, e a gama dos bens de hoje com aqueles de há uma ou duas gerações. Esta mudança dramática para melhor reflecte em grande parte o rápido desenvolvimento das cadeias globais de fornecimento, com a monitorização em tempo real das preferências dos consumidores a permitir aos produtores localizados no outro lado do mundo saberem instantaneamente o que, quando e quanto produzir.

Muito mais estará para vir. As empresas estão a usar a Internet para a “criação colaborativa” (“crowdsource” no original - NdT) de novas ideias, e até a permitir aos clientes co-desenhar os seus próprios produtos. Novas plataformas baseadas na Web permitem a pessoas normais – sem dinheiro ou capacidades especiais – partilhar os seus carros, quartos vagos, e até ferramentas de faça-você-mesmo, desafiando assim o domínio das corporações globais. A “Internet das Coisas” está a ligar simples itens domésticos – como um termóstato – à Web, ajudando os proprietários a poupar dinheiro e até a reduzir as suas emissões de carbono.

E, contudo, devemos ainda perguntar-nos: Estará toda a gente realmente a beneficiar com a nova economia? Apenas uns poucos afortunados, especialmente aqueles que combinam o pensamento inovador com a perspicácia financeira, capturaram plenamente os lucros monetários da revolução TIC, tornando-se nos seus melhores exemplos durante o processo.

Mais abaixo na escala económica, a maior parte das pessoas, embora gozando de um fácil acesso à tecnologia e a preços baixos, perdeu terreno, com os salários reais em queda durante muitos anos. Este decl��nio não é temporário: a mão-de-obra nas economias Ocidentais avançadas já não consegue produzir uma vantagem salarial importante, e a situação dos trabalhadores poderá piorar ainda mais.

Além disso, os gestores e funcionários de colarinho branco – os recursos intelectuais que mantêm a intricada maquinaria corporativa global a zunir, e que já foram a espinha dorsal da classe média – já não estão a ser alvo de grande procura. Muitas das suas capacidades, que durante muito tempo sustentaram o seu estatuto, carreiras, e modo de vida, estão a tornar-se redundantes.

Para a normal família de classe média de hoje, um incidente clínico pode tornar-se numa catástrofe financeira. Possuir uma casa envolve uma vida de endividamento. Fornecer uma educação decente aos filhos requer luta e sacrifício. Os pressupostos que definiram as famílias de classe média – e muitas famílias da classe trabalhadora – durante pelo menos duas gerações estão a desaparecer em frente dos nossos olhos.

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Quem fala em nome deles? A maior parte das famílias ainda tem a ganhar com a continuação da revolução TIC. Mas as famílias da classe média e da classe trabalhadora beneficiariam mais se os hiperbaratos produtos e serviços, a informação livre, e as experiências de lazer virtual aumentassem, em vez de erodir, as suas capacidades aproveitáveis. O político que descobrir como dirigir esta revolução da maneira correcta poderá nunca mais perder outra eleição.

Traduzido do inglês por António Chagas