16

O Próximo Acto da Internet

BERKELEY – Há dez anos, o mundo emergiu do rebentamento da bolha dot-com e passou a encarar mais sobriamente o potencial da Internet. Embora a cobiça especulativa e o medo de ficar de fora possam ter exagerado a perspectiva de curto prazo, as imensas possibilidades da Internet no longo prazo nunca estiveram em dúvida. Eu, e outros economistas optimistas, assumimos que a informação e comunicação livres seriam os arautos de uma era de rápido crescimento da produtividade e de melhoria do bem-estar – de forma mais ou menos acentuada – para todos, independentemente das suas capacidades, riqueza, ou antecedentes sociais. Estávamos certos?

Em muitos aspectos, a revolução nas tecnologias de informação e comunicação (TIC) deu-nos mais do que prometera – e frequentemente de maneiras imprevisíveis. Para muitos, a verdadeira maravilha da era digital foi ter criado um universo paralelo. Qualquer pessoa com um computador portátil e uma ligação à Internet pode mexericar com (ou sobre) amigos virtuais; testemunhar acontecimentos extraordinários que possam ou não ter acontecido; ou jogar num mundo simulado de complexidade incomparável.

Chicago Pollution

Climate Change in the Trumpocene Age

Bo Lidegaard argues that the US president-elect’s ability to derail global progress toward a green economy is more limited than many believe.

A Internet criou uma paisagem onírica que está acessível a todos e que nos pode inspirar para níveis ainda mais altos de imaginação. Na verdade, todos os que ridicularizam o valor disto deveriam lembrar-se que desde que Homero cantou sobre a ira de Aquiles à volta da lareira, os sonhos têm sido a nossa maior fonte de prazer e de inspiração.

Mas os benefícios da Internet não foram colhidos apenas pelos que trabalham ou jogam online. Toda a gente lucrou até certo ponto. Entremos numa grande loja WalMart, Costco, Tesco ou Lidl em qualquer lugar no mundo, e comparemos o preço, a qualidade, e a gama dos bens de hoje com aqueles de há uma ou duas gerações. Esta mudança dramática para melhor reflecte em grande parte o rápido desenvolvimento das cadeias globais de fornecimento, com a monitorização em tempo real das preferências dos consumidores a permitir aos produtores localizados no outro lado do mundo saberem instantaneamente o que, quando e quanto produzir.

Muito mais estará para vir. As empresas estão a usar a Internet para a “criação colaborativa” (“crowdsource” no original - NdT) de novas ideias, e até a permitir aos clientes co-desenhar os seus próprios produtos. Novas plataformas baseadas na Web permitem a pessoas normais – sem dinheiro ou capacidades especiais – partilhar os seus carros, quartos vagos, e até ferramentas de faça-você-mesmo, desafiando assim o domínio das corporações globais. A “Internet das Coisas” está a ligar simples itens domésticos – como um termóstato – à Web, ajudando os proprietários a poupar dinheiro e até a reduzir as suas emissões de carbono.

E, contudo, devemos ainda perguntar-nos: Estará toda a gente realmente a beneficiar com a nova economia? Apenas uns poucos afortunados, especialmente aqueles que combinam o pensamento inovador com a perspicácia financeira, capturaram plenamente os lucros monetários da revolução TIC, tornando-se nos seus melhores exemplos durante o processo.

Mais abaixo na escala económica, a maior parte das pessoas, embora gozando de um fácil acesso à tecnologia e a preços baixos, perdeu terreno, com os salários reais em queda durante muitos anos. Este declínio não é temporário: a mão-de-obra nas economias Ocidentais avançadas já não consegue produzir uma vantagem salarial importante, e a situação dos trabalhadores poderá piorar ainda mais.

Além disso, os gestores e funcionários de colarinho branco – os recursos intelectuais que mantêm a intricada maquinaria corporativa global a zunir, e que já foram a espinha dorsal da classe média – já não estão a ser alvo de grande procura. Muitas das suas capacidades, que durante muito tempo sustentaram o seu estatuto, carreiras, e modo de vida, estão a tornar-se redundantes.

Para a normal família de classe média de hoje, um incidente clínico pode tornar-se numa catástrofe financeira. Possuir uma casa envolve uma vida de endividamento. Fornecer uma educação decente aos filhos requer luta e sacrifício. Os pressupostos que definiram as famílias de classe média – e muitas famílias da classe trabalhadora – durante pelo menos duas gerações estão a desaparecer em frente dos nossos olhos.

Fake news or real views Learn More

Quem fala em nome deles? A maior parte das famílias ainda tem a ganhar com a continuação da revolução TIC. Mas as famílias da classe média e da classe trabalhadora beneficiariam mais se os hiperbaratos produtos e serviços, a informação livre, e as experiências de lazer virtual aumentassem, em vez de erodir, as suas capacidades aproveitáveis. O político que descobrir como dirigir esta revolução da maneira correcta poderá nunca mais perder outra eleição.

Traduzido do inglês por António Chagas