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Uma Estrela Amarela para o Estado Judaico?

PARIS – O mundo assistiu recentemente uma rápida sucessão de esforços no sentido de desacreditar Israel. No início deste mês, o CEO da empresa francesa de telecomunicações, Orange, declarou numa conferência de imprensa realizada no Cairo o seu desejo de desassociar-se de um parceiro americano que está muito estreitamente ligado a Israel. Em Maio, os palestinos empreenderam esforços no sentido de expulsar da FIFA a federação de futebol de Israel. Além disso, a União Nacional dos Estudantes da Grã-Bretanha aprovou recentemente uma resolução que apoia os boicotes e as sanções contra Israel.

Entretanto, uma campanha que visa proibir os produtos israelitas tem vindo a ganhar força nos EUA e na Europa. Além disso, há muitos artistas que, seguindo o exemplo de Brian Eno, Elvis Costello, Vanessa Paradis, Roger Waters e outros, se questionam em voz alta se devem ou não fazer actuações na "Palestina ocupada".

Aleppo

A World Besieged

From Aleppo and North Korea to the European Commission and the Federal Reserve, the global order’s fracture points continue to deepen. Nina Khrushcheva, Stephen Roach, Nasser Saidi, and others assess the most important risks.

Nenhuma destas situações tem, por si só, grande importância. No entanto, consideradas no seu conjunto, geram um clima e talvez um ponto de viragem.

Isto não é por acaso. A origem dos episódios recentes pode ser atribuída, mais ou menos directamente, ao movimento internacional Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS), criado em 2005 por 171 organizações não-governamentais palestinianas. Por conseguinte, são uma boa oportunidade para lembrar da sua verdadeira natureza aqueles que apoiam esta campanha.

O BDS é aparentemente um movimento mundial da sociedade civil que incorpora o respeito pela lei, pela democracia e pelos direitos humanos. Se assim é, por que razão se foca no único país da região que foi fundado nesses valores e que se tem mantido, para o melhor e para o pior, (e apesar do estado de guerra com seus vizinhos persistir há quase 70 anos) bastante fiel a tais valores? Como é possível que estes humanistas escrupulosos não tenham tido absolutamente nada a dizer sobre as 200.000 vítimas do presidente sírio Bashar Al-Assad, os crimes do Estado islâmico ou a deportação em grande escala de cristãos da planície de Nínive, isto para citar apenas algumas questões contemporâneas?

O BDS é um movimento "anti-apartheid”, respondem, que adopta os métodos e o espírito de Nelson Mandela na África do Sul. Parece excelente. Mas então, mais uma vez, por que razão colocar o foco em Israel? Com a sua política e sociedade multiétnicas - uma combinação de europeus ocidentais e de Leste, norte-americanos e russos, etíopes e turcos, curdos, iranianos e árabes (17 dos quais têm assento no Knesset) - Israel é precisamente o oposto de um Estado com um regime de apartheid.

Em contrapartida, no Estado de Catar, cujas fundações (além dos grupos de reflexão sauditas) são a principal fonte de financiamento do movimento BDS, 95% da força de trabalho é composta por não cidadãos asiáticos que trabalham em condições análogas à escravidão sob o sistema kafala, que é "primo direito" do apartheid.

Talvez o objectivo seja pressionar Israel no sentido de celebrar um acordo de paz com os palestinos, o que certamente merece um certo ajuste face a Catar. Nesse caso, trata-se de uma estratégia de pacificação peculiar que coloca pressão sobre apenas um dos beligerantes e que, em vez de reforçar a posição do grande número de israelitas que são favoráveis à negociação, impõe uma punição colectiva sob a forma de exclusão da comunidade das nações.

Só há uma fórmula real para a paz, e todos sabemos qual é. Está consagrada nos Acordos de Oslo e consiste na solução dos dois Estados. Basta ler as declarações de Omar Barghouti, Ali Abunimah e de outros impulsionadores do movimento BDS para concluir que esta solução é precisamente o que não querem. Preferem uma "solução de um Estado único" (expressão utilizada por Abunimah), sob uma bandeira palestina, é claro.

Será apenas um pormenor que pode ser ignorado com segurança com o fundamento de que o foco do BDS incide "apenas" nos territórios, nos colonatos judeus que estão a ser construídos nesses territórios e nos bens que os colonos produzem? Trata-se de outro ardil para incautos.

Também relativamente a este ponto basta ler a declaração de fundação do movimento, datada de 9 de Julho de 2005, que especifica que um dos seus "três objectivos" consiste em "proteger" os "direitos dos refugiados palestinianos de regressar às suas casas e propriedades, conforme estipulado na resolução 194 da ONU". Tal seria equivalente, em matéria de facto e de direito, a estabelecer um novo país árabe naquelas terras que poderia, em pouco tempo, ser sujeito a uma limpeza étnica que o tornaria judenfrei.

Finalmente, como posso deixar de relembrar àqueles cuja memória é tão curta quanto o seu pensamento que a ideia de boicotar Israel não é tão nova como parece? Na verdade, é anterior ao Estado judaico. Surgiu em 2 de Dezembro de 1945 de uma decisão da Liga Árabe, que não perdeu tempo em apoiar-se nessa mesma decisão para rejeitar a resolução das Nações Unidas de criar dois Estados. Entre os promotores desta ideia brilhante figuravam os criminosos de guerra nazis que se tinham estabelecido na Síria e no Egipto, onde ensinaram os seus novos mestres a marcar as lojas e as empresas judaicas.

Uma comparação não constitui um argumento. E o significado de um lema não reside inteiramente na sua genealogia. Porém, as palavras têm uma história, tal como a têm os debates. Por conseguinte, é melhor conhecermos essa história se quisermos evitar a repetição das suas piores cenas.

A verdade é que o movimento BDS nada mais é do que uma caricatura sinistra das lutas anti-totalitaristas e anti-apartheid. Trata-se de uma campanha cujos instigadores têm como único objectivo discriminar, desacreditar e difamar Israel, um país que, para eles, nunca deixou de usar a sua estrela amarela.

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Aos activistas de boa-fé que se podem ter deixado levar por representações enganosas do movimento, diria apenas que existem demasiadas causas nobres necessitadas de assistência para que se deixem ser mobilizados para causas duvidosas. Entre essas causas dignas contam-se a luta contra os decapitadores jihadistas, a libertação das mulheres e raparigas escravizadas pelo Boko Haram, a defesa dos cristãos em perigo e dos democratas árabes do Médio Oriente e, evidentemente, a luta por uma paz justa entre israelitas e palestinos.

Tradução: Teresa Bettencourt