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Mesquita ou modernidade?

PARIS – O que é que aconteceu à “Primavera Árabe”? Quando as manifestações eclodiram na Tunísia, no Egipto e na Líbia, que culminaram com o fracasso de três ditaduras velhas e cansativas, ninguém sabia que forças, instituições e procedimentos iriam surgir da exigência dos manifestantes pela democracia. E, no entanto, apesar da natureza sem precedentes e imprevisível dos acontecimentos - ou talvez por causa dela - a esperança manteve-se elevada.

O que aconteceu desde então mostra claramente o que toda a gente sabia (ou deveria saber) o tempo todo: nada sobre a mudança de regime é simples. Nenhum dos três países encontrou ainda uma solução institucional estável que consiga neutralizar as tensões internas, que se intensificam cada vez mais, e responder eficazmente às exigências populares.

Outros países da região, incluindo o Iémen e alguns dos estados do Golfo, também vivenciaram diferentes graus de turbulência. A violência sectária está mais uma vez a consumir o Iraque, enquanto os confrontos entre as facções anti-regime na Síria tornam-se cada vez mais frequentes, com os islamistas a procurarem ganhar vantagem à frente da transição política que ocorreria se o governo caísse. Até mesmo em Marrocos, um rei com poder absoluto como Comandante dos Fiéis foi forçado, por uma intensa indignação pública, a caminhar em direcção a um sistema mais inclusivo em relação ao Islão político.

Da mesma forma, os novos acontecimentos nos dois poderes não árabes da região sugerem que nenhum é imune à instabilidade. Na Turquia, os protestos recentes têm destacado a crescente oposição ao poder arrogante e às políticas sociais divisórias, baseadas na religião, do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan. No Irão, grande parte da classe média apoiou o mais moderado dos candidatos, aceitável ​para os guardiães islâmicos do país, nas eleições presidenciais de Junho.