18

O antiliberal internacional

VARSÓVIA – Estaline, na primeira década do poder soviético, apoiou a ideia de “socialismo num só país”, o que significa que, até que as condições amadurecessem, o socialismo seria apenas para a URSS. Quando o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, declarou, em julho de 2014, a sua intenção de construir uma “democracia antiliberal”, assumiu-se largamente que ele estava a criar o “antiliberalismo num país”. Agora, Orbán e Jarosław Kaczyński, o líder do partido dirigente Lei e Justiça (PiS), da Polónia, e fantoche-mestre do governo do país (embora não exerça qualquer função), proclamaram uma contrarrevolução que visa transformar a União Europeia num projeto antiliberal.

Após um dia de sorrisos forçados e pacientes palmadinhas nas costas na conferência de Krynica deste ano, que se autointitula de Davos regional, e que nomeou Orbán o seu Homem do Ano, Kaczyński e Orbán anunciaram que liderariam 100 milhões de europeus numa tentativa de refazerem a UE segundo linhas nacionalistas/religiosas. Até se pode imaginar o Václav Havel, um anterior homenageado, a dar voltas na sepultura, aquando da declaração oficial. E a ex-primeira-ministra ucraniana, Yulia Tymoshenko, outra anterior vencedora, deve estar horrorizada: o seu país está a ser destruído pela Rússia sob o comando do presidente Vladimir Putin, a santidade do antiliberalismo e um modelo exemplar aos olhos de Kaczyński e de Orbán.

Os dois homens pretendem aproveitar a oportunidade dada pelo referendo Brexit do Reino Unido, que demonstrou que, na UE de hoje, o modo de discurso preferido dos democratas antiliberais - mentiras e calúnias - pode ser politicamente e profissionalmente gratificante (basta perguntar ao novo secretário de Estado do Reino Unido para os Assuntos Externos, Boris Johnson, um dos principais promotores do Brexit). A fusão das habilidades dos dois homens pode torná-los numa ameaça mais poderosa do que muitos europeus gostariam de acreditar.

O que Orbán traz para a parceria é claro: uma estirpe do populismo “pragmático”. Ele alinhou o seu partido Fidesz com o Partido Popular Europeu, que o mantém formalmente dentro do contexto político e faz da chanceler alemã, Angela Merkel, uma aliada que fornece proteção política, apesar da sua governação antiliberal. Kaczyński, no entanto, optou por aliar o PiS ao insignificante Aliança de Conservadores e Reformistas Europeus, e discutir quase incessantemente com a Alemanha e a Comissão da UE.