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O Que o Irão Quer em 2014

TEERÃO – Durante a campanha para me tornar Presidente do Irão, prometi equilibrar o realismo com a prossecução dos ideais da República Islâmica – e ganhei o apoio dos eleitores Iranianos por uma grande margem. Em virtude do mandado popular que recebi, estou comprometido com a moderação e com o senso comum, que conduzem agora todas as políticas do meu governo. Esse compromisso levou directamente ao acordo internacional interino alcançado em Genebra sobre o programa nuclear do Irão. Continuará a guiar a nossa tomada de decisões em 2014.

Na verdade, em termos de política externa, o meu governo está a rejeitar as abordagens extremas. Procuramos relações diplomáticas eficazes e construtivas e um foco na construção da confiança mútua com os nossos vizinhos e com outros actores regionais e internacionais, permitindo-nos assim orientar a nossa política externa no sentido do desenvolvimento económico interno. Para este fim, trabalharemos para eliminar tensões nas nossas relações externas e para fortalecer os nossos laços, tanto com parceiros tradicionais como com novos parceiros. Isto requer obviamente uma construção de consensos e uma definição transparente de objectivos no país – processos que estão agora em curso.

Erdogan

Whither Turkey?

Sinan Ülgen engages the views of Carl Bildt, Dani Rodrik, Marietje Schaake, and others on the future of one of the world’s most strategically important countries in the aftermath of July’s failed coup.

Embora evitemos a confrontação e o antagonismo, também prosseguiremos activamente os nossos interesses mais alargados. Mas, num mundo cada vez mais interligado e interdependente, os desafios só podem ser abordados através da interacção e da cooperação activa entre estados. Nenhum país – incluindo as grandes potências – pode abordar sozinho e de um modo eficaz os desafios que enfrenta.

Na verdade, o rápido “crescimento de recuperação” das economias emergentes e em desenvolvimento sugere que o seu peso económico agregado está prestes a ultrapassar o do mundo avançado. Os países actualmente emergentes e em desenvolvimento serão provavelmente responsáveis por quase 60% do PIB mundial em 2030, aumentando de cerca 40% em 2000, e permitindo-lhes desempenhar um papel muito maior no palco mundial.

Num período de transição como este, o Irão pode reforçar o seu papel global. A eleição deste ano, em que perto dos 75% dos eleitores inscritos participaram, mostrou como a nossa democracia religiosa está a amadurecer. A antiga cultura e civilização do Irão, a sua continuidade estatal prolongada, a sua posição geopolítica, a sua estabilidade social entre a turbulência regional, e a sua juventude instruída permitem-nos olhar para o futuro com confiança, e aspirar a assumir o papel global principal que o nosso povo merece – um papel que nenhum actor da política global pode ignorar.

Também estamos a reconsiderar como reconstruir e melhorar as nossas relações bilaterais e multilaterais com os países Europeus e Norte-Americanos baseando-nos no respeito mútuo. Isto requer o aligeiramento de tensões e a implementação de uma abordagem abrangente que inclua laços económicos.

Podemos começar por evitar quaisquer novas tensões entre o Irão e os Estados Unidos e, ao mesmo tempo, procurar eliminar as tensões herdadas que continuam a inquinar as relações entre os nossos países. Embora não possamos ser capazes de esquecer a desconfiança e suspeita que assombraram o pensamento dos Iranianos sobre os governos dos EUA durante os últimos 60 anos, deveremos agora concentrar-nos no presente e olhar para o futuro. Isso significa elevar-nos sobre a política mesquinha e liderar, em vez de seguir, grupos de pressão nos nossos países respectivos.

Na nossa perspectiva, a cooperação em assuntos de mútuo interesse e preocupação também contribuiria para aligeirar tensões na nossa região. Isto significa contrariar aqueles que nos EUA e na nossa região procuram distrair a atenção internacional de assuntos em que estejam directamente envolvidos e evitar que o Irão melhore o seu estatuto regional. Ao diminuir as perspectivas para um acordo negociado permanente sobre o nosso programa nuclear, este comportamento aumenta a probabilidade da continuação do impasse Irão-EUA.

A nossa região está a lidar cada vez mais com o sectarismo, com inimizades entre grupos, e com novos potenciais terrenos férteis para o extremismo e terrorismo. Ao mesmo tempo, o uso recente de armas químicas na Síria poderá assombrar os povos da região por muitos anos. Acreditamos que, sob tais circunstâncias, uma voz de moderação na região poderá afectar o desenrolar dos acontecimentos de uma maneira construtiva e positiva.

Não há dúvida de que a turbulência nos países vizinhos afecta os interesses de muitos actores regionais e globais, que deverão agir concertadamente para garantir a estabilidade no longo prazo. O Irão, como principal potência regional, está completamente preparado para se dirigir nesta direcção, não poupando esforços para facilitar soluções. Por isso, aqueles que retratam o Irão como uma ameaça e assim procuram minar a sua credibilidade regional e global deveriam parar – no interesse da paz e da tranquilidade na região e para além dela.

Estou profundamente perturbado com a tragédia humanitária na Síria e com o enorme sofrimento que o povo Sírio suportou durante quase três anos. Representando um povo que conheceu o horror das armas químicas, o meu governo condenou veementemente o seu uso no conflito Sírio. Também me preocupa o facto de que partes do território Sírio se tenham tornado um terreno fértil para ideologias extremistas e pontos de encontro para terroristas, que são reminiscentes da situação na nossa fronteira oriental na década de 1990. Este é um assunto de preocupação também para muitos outros países, e encontrar uma solução política durável na Síria requer cooperação e esforços conjuntos.

Por isso estamos satisfeitos que a diplomacia de 2013 tenha prevalecido sobre as ameaças de intervenção militar na Síria. Devemos ter em conta este progresso e compreender que a Síria precisa urgentemente de esforços regionais e internacionais coordenados. Estamos prontos para contribuir para a paz e estabilidade na Síria, durante negociações sérias entre partes regionais e extra-regionais. Aqui, também, devemos evitar que as conversações se transformem num jogo de soma nula.

Isso não é menos verdadeiro do que o programa pacífico Iraniano de energia nuclear, que tem sido sujeito a enormes exageros nas recentes décadas. Desde o início da década de 1990, previsões sucessivas sobre quão perto o Irão estava de adquirir uma bomba nuclear provaram ser infundadas. Durante este período, alarmistas tentaram pintar o Irão como uma ameaça ao Médio Oriente e ao mundo.

Todos sabemos quem é o principal agitador, e que propósitos são servidos por exagerar este assunto. Também sabemos que esta pretensão flutua proporcionalmente à quantidade de pressão internacional para interromper a construção de colonatos e terminar a ocupação de terras Palestinianas. Estes falsos alarmes continuam, apesar das estimativas dos serviços de informação dos EUA que apontam que o Irão não decidiu construir uma arma nuclear.

De facto, comprometemo-nos a não trabalhar no sentido de desenvolver e produzir uma bomba nuclear. Como enunciado na fatwa emitida pelo Líder Supremo Ayatollah Ali Khamenei, acreditamos firmemente que o desenvolvimento, produção, armazenagem e uso de armas nucleares são contrários às normas Islâmicas. Nós nem sequer alguma vez contemplámos a opção de adquirir armas nucleares, porque acreditamos que tais armas podem debilitar os nossos interesses de segurança nacional; como resultado, não têm lugar na doutrina de segurança do Irão. Até a percepção de que o Irão possa desenvolver armas nucleares é prejudicial ao nosso interesse de segurança e nacional.

Durante a minha campanha presidencial, comprometi-me a fazer tudo ao meu alcance para chegar a uma resolução rápida do impasse sobre o nosso programa de energia nuclear. Para cumprir este compromisso e beneficiar da janela de oportunidade aberta pelas recentes eleições, o meu governo está preparado para tomar todas as medidas necessárias a procurar uma solução permanente aceitável. Após o acordo interino de Novembro, estamos prontos para continuar a trabalhar com os P5+1 (os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas e a Alemanha) e com outros, com o objectivo de garantir a completa transparência do nosso programa nuclear.

A capacidade nuclear pacífica que atingimos será aplicada num enquadramento internacionalmente reconhecido de salvaguardas, e estará acessível à monitorização multilateral pela Agência Internacional de Energia Atómica, como tem sido o caso nos últimos anos. Deste modo, a comunidade internacional pode garantir a natureza exclusivamente pacifica do nosso programa nuclear. Nunca abdicaremos do nosso direito de beneficiar da energia nuclear; mas estamos prontos a trabalhar no sentido de remover qualquer ambiguidade e responder a qualquer questão razoável sobre o nosso programa.

A continuação da pressão, do braço de ferro, da intimidação, e das medidas destinadas a impedir o acesso dos Iranianos a toda uma gama de necessidades – da tecnologia aos medicamentos e produtos alimentares – só poderá envenenar a atmosfera e minar as condições necessárias ao progresso.

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Como mostrámos em 2013, o Irão está completamente preparado para se empenhar seriamente com a comunidade internacional e para negociar com os nossos interlocutores de boa-fé. Esperamos que também as nossas contrapartes estejam preparadas para retirar vantagens desta janela de oportunidade.

Traduzido do inglês por António Chagas