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Liberdade, Blasfémia, e Violência

PARIS - Os ataques violentos a postos diplomáticos dos Estados Unidos em todo o norte de África e no Médio Oriente levantaram uma vez mais a questão de como reagir quando os americanos e outros ocidentais se envolvem expressões provocatórias que outros consideram uma blasfémia. Embora o ataque à missão diplomática dos EUA em Benghazi, durante o qual o Embaixador J. Christopher Stevens e três membros da sua equipa foram assassinados, possa muito bem ter sido planeado, como asseverou o Departamento de Estado, os assassinos aproveitaram claramente a oportunidade criada pela indignação em relação a um filme antimuçulmano produzido nos EUA.

Nos últimos anos, houve várias situações em que o facto de se classificar algo como blasfémia originou ameaças de violência ou assassinatos reais, começando com a publicação de Os Versículos Satânicos de Salman Rushdie, há mais de duas décadas, e passando pelas caricaturas do profeta Maomé publicadas no jornal dinamarquês Jyllands -Posten. Na Holanda, Theo Van Gogh foi assassinado num passeio em Amsterdão, como represália pelo seu filme Submissão que criticava a forma como as mulheres eram tratadas no Islão.

Mesmo aqueles que defendiam a liberdade de expressão naqueles casos podem já não estar dispostos a fazê-lo agora. Desta vez, o filme que provocou motins no Cairo, Benghazi, Sana e em outros lugares é tão rude e provocatório que parecer ter havido uma clara intenção de desencadear a indignação que suscitou.

No entanto, os juízos de valor a respeito do mérito literário ou artístico não deveriam ser a base para decisões sobre liberdade de expressão. A tendência de algumas pessoas de outras proveniências para reagir violentamente ao que consideram ser uma blasfémia, não pode ser critério para a imposição de limites à liberdade de expressão nos EUA, no Reino Unido, na Dinamarca ou na Holanda (ou em qualquer outro lugar).