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A perigosa mitologia do cancro

GENEBRA – Este ano, o Dia Mundial do Cancro irá concentrar-se em dissipar os mitos prejudiciais sobre a doença. O tema - ilustrado no slogan “Cancro – Sabias que…?” - oferece uma oportunidade para reflectir nas verdadeiras consequências do cancro e melhorar os esforços globais na prevenção e no tratamento.

Um mito que prevalece é o de que o cancro é essencialmente um problema dos países desenvolvidos. Mas, embora seja verdade que o cancro infiltra-se nos países ricos, também é verdade que as pessoas dos países mais pobres do mundo perdem mais anos de vida devido à doença. Enquanto o avanço da medicina e os avanços tecnológicos têm ajudado os doentes com cancro, dos países com altos rendimentos, a viverem mais - na medida em que algumas formas de cancro têm-se tornado efectivamente condições crónicas - aqueles que vivem em países com baixos rendimentos continuam a morrer jovens.

Aleppo

A World Besieged

From Aleppo and North Korea to the European Commission and the Federal Reserve, the global order’s fracture points continue to deepen. Nina Khrushcheva, Stephen Roach, Nasser Saidi, and others assess the most important risks.

Além de ser injusto, isto é profundamente trágico. Se já se conseguiu eludir doenças assassinas, como a malária e a SIDA, não se devia então morrer prematuramente de cancro - sobretudo com as formas de cancro que poderiam ter sido evitadas com algo tão simples e tão acessível como uma vacina.

A relação, muitas vezes negligenciada, entre as vacinas e o cancro realça um segundo equívoco comum: o destino por si só (e talvez o acto de fumar) determina quem tem cancro. Na verdade, um em cada seis casos de cancro em todo o mundo é causado por um conhecido agente infeccioso, com a proporção a crescer para um terço em alguns países da África subsariana. Os quatro principais réus são o vírus da hepatite B, da hepatite C (VHB e VHC), o vírus do papiloma humano (HPV) e a bactéria Helicobacter pylori, que são colectivamente responsáveis por 1,9 milhões de casos de cancro do fígado, do colo do útero e do estômago, todos os anos.

O cancro do colo do útero mata actualmente mais mulheres do que o parto, ceifando uma vida a cada dois minutos. Das 275 mil mulheres que morrem de cancro do colo do útero anualmente, 85% vivem nos países mais pobres do mundo. Afinal de contas, o cancro do colo do útero tende a atingir em particular as mais vulneráveis, como as mulheres infectadas com o VIH. Se não for controlado, o número de mortes por cancro do colo do útero deverá aumentar para 430 mil por ano até 2030.

A seguir temos o VHB, que é 50 vezes mais infeccioso do que o VIH e é muitas vezes transmitido de mãe para filho, antes ou logo após o nascimento, aumentando a probabilidade de cancro do fígado um dia mais tarde. Estima-se que dois mil milhões de pessoas, que vivem actualmente, foram infectadas com o vírus VHB, enquanto 350 milhões de pessoas estão infectadas de forma crónica. Destes, cerca de um quarto morrerá de cancro do fígado relacionado com a transmissão do vírus VHB ou com a cirrose (consequência da doença crónica do fígado).

A boa notícia é que existem ferramentas poderosas disponíveis para evitar muitas dessas mortes. A vacina existente contra o HPV pode prevenir até 70% dos casos de cancro do colo do útero e há novas vacinas previstas que irão melhorar ainda mais estes números. Do mesmo modo, a vacina contra o VHB é 95% eficaz na prevenção da infecção e das suas consequências crónicas.

As vacinas contra a Helicobacter pylori e o VHC estão em desenvolvimento (embora esta última se esteja a revelar particularmente difícil). Até mesmo a vacina contra o vírus Epstein-Barr, que irá proteger contra alguns tipos de linfomas, está a alcançar resultados promissores.

Mas pagar e entregar estas vacinas aos cidadãos mais vulneráveis dos países pobres é um verdadeiro desafio. Embora a Organização Mundial de Saúde (OMS) tenha recomendado a inclusão da vacina contra a VHB nos Planos Nacionais de Vacinação, desde 1992, o seu preço elevado dificultou inicialmente a sua introdução em alguns países em desenvolvimento. Mais recentemente, o mesmo problema ameaça impedir a adopção da vacina contra o HPV. Mas a Aliança GAVI interveio para garantir que isto já não será um motivo de preocupação para a vacina VHB e que terá poucas probabilidades de o ser com a HPV.

Desde 2000, ano em que surgiu, a Aliança GAVI tem procurado aumentar o acesso das crianças pobres de todo o mundo às vacinas que salvam vidas. Em parceria com o Banco Mundial, a OMS, a UNICEF e a Fundação Bill & Melinda Gates têm utilizado ferramentas inovadoras de financiamento, de modo a arrecadarem fundos para os programas de imunização mundiais, enquanto negociam com a indústria para baixar os preços das vacinas.

Ao incluir a vacina contra o VHB, como parte de uma vacina pentavalente (cinco em um), a Aliança já facilitou a sua entrega às crianças de 70 países, como parte das imunizações de rotina. A Aliança está agora a trabalhar no sentido de tornar a vacina contra o HPV disponível para mais de 30 milhões de mulheres e raparigas de todo o mundo, que não tenham recursos financeiros, até 2020; como parte deste esforço, e coincidindo com o Dia Mundial do Cancro, lançou programas de demonstração em oito países em desenvolvimento.

Um conjunto crescente de evidências mostra que os benefícios das vacinas vão além da prevenção da doença e da morte. Também incluem a ajuda ao desenvolvimento cognitivo e à realização educacional das crianças, aumentando assim o potencial de crescimento económico dos países. Na luta contra o cancro, os avanços da medicina podem baixar preciosos pontos percentuais nas taxas de mortalidade, o que implica que a melhoria do acesso às vacinas pode ter um enorme impacto, reduzindo o número de casos futuros em países em desenvolvimento por apenas alguns dólares por dose.

As pessoas dos países ricos estão, sem dúvida alguma, familiarizados com a máxima “mais vale prevenir do que remediar”. Mas, dada a rápida disponibilidade de vacinas nos países desenvolvidos, o foco dos esforços de prevenção redireccionou-se para a mudança de estilos de vida susceptíveis de causarem o cancro.

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Enquanto isso, as pessoas dos países em desenvolvimento não têm acesso a ferramentas simples e eficazes para a prevenção de vários tipos de cancro mais comuns. Melhorar o acesso às vacinas é fundamental para enfrentar essa desigualdade mundial e reduzir o fosso cada vez maior entre ricos e pobres. Isto requer, em primeiro lugar, a dissipação do mito de que não se pode “apanhar” cancro.

Tradução: Deolinda Esteves