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A perigosa mitologia do cancro

GENEBRA – Este ano, o Dia Mundial do Cancro irá concentrar-se em dissipar os mitos prejudiciais sobre a doença. O tema - ilustrado no slogan “Cancro – Sabias que…?” - oferece uma oportunidade para reflectir nas verdadeiras consequências do cancro e melhorar os esforços globais na prevenção e no tratamento.

Um mito que prevalece é o de que o cancro é essencialmente um problema dos países desenvolvidos. Mas, embora seja verdade que o cancro infiltra-se nos países ricos, também é verdade que as pessoas dos países mais pobres do mundo perdem mais anos de vida devido à doença. Enquanto o avanço da medicina e os avanços tecnológicos têm ajudado os doentes com cancro, dos países com altos rendimentos, a viverem mais - na medida em que algumas formas de cancro têm-se tornado efectivamente condições crónicas - aqueles que vivem em países com baixos rendimentos continuam a morrer jovens.

 1972 Hoover Dam

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Além de ser injusto, isto é profundamente trágico. Se já se conseguiu eludir doenças assassinas, como a malária e a SIDA, não se devia então morrer prematuramente de cancro - sobretudo com as formas de cancro que poderiam ter sido evitadas com algo tão simples e tão acessível como uma vacina.

A relação, muitas vezes negligenciada, entre as vacinas e o cancro realça um segundo equívoco comum: o destino por si só (e talvez o acto de fumar) determina quem tem cancro. Na verdade, um em cada seis casos de cancro em todo o mundo é causado por um conhecido agente infeccioso, com a proporção a crescer para um terço em alguns países da África subsariana. Os quatro principais réus são o vírus da hepatite B, da hepatite C (VHB e VHC), o vírus do papiloma humano (HPV) e a bactéria Helicobacter pylori, que são colectivamente responsáveis por 1,9 milhões de casos de cancro do fígado, do colo do útero e do estômago, todos os anos.

O cancro do colo do útero mata actualmente mais mulheres do que o parto, ceifando uma vida a cada dois minutos. Das 275 mil mulheres que morrem de cancro do colo do útero anualmente, 85% vivem nos países mais pobres do mundo. Afinal de contas, o cancro do colo do útero tende a atingir em particular as mais vulneráveis, como as mulheres infectadas com o VIH. Se não for controlado, o número de mortes por cancro do colo do útero deverá aumentar para 430 mil por ano até 2030.

A seguir temos o VHB, que é 50 vezes mais infeccioso do que o VIH e é muitas vezes transmitido de mãe para filho, antes ou logo após o nascimento, aumentando a probabilidade de cancro do fígado um dia mais tarde. Estima-se que dois mil milhões de pessoas, que vivem actualmente, foram infectadas com o vírus VHB, enquanto 350 milhões de pessoas estão infectadas de forma crónica. Destes, cerca de um quarto morrerá de cancro do fígado relacionado com a transmissão do vírus VHB ou com a cirrose (consequência da doença crónica do fígado).

A boa notícia é que existem ferramentas poderosas disponíveis para evitar muitas dessas mortes. A vacina existente contra o HPV pode prevenir até 70% dos casos de cancro do colo do útero e há novas vacinas previstas que irão melhorar ainda mais estes números. Do mesmo modo, a vacina contra o VHB é 95% eficaz na prevenção da infecção e das suas consequências crónicas.

As vacinas contra a Helicobacter pylori e o VHC estão em desenvolvimento (embora esta última se esteja a revelar particularmente difícil). Até mesmo a vacina contra o vírus Epstein-Barr, que irá proteger contra alguns tipos de linfomas, está a alcançar resultados promissores.

Mas pagar e entregar estas vacinas aos cidadãos mais vulneráveis dos países pobres é um verdadeiro desafio. Embora a Organização Mundial de Saúde (OMS) tenha recomendado a inclusão da vacina contra a VHB nos Planos Nacionais de Vacinação, desde 1992, o seu preço elevado dificultou inicialmente a sua introdução em alguns países em desenvolvimento. Mais recentemente, o mesmo problema ameaça impedir a adopção da vacina contra o HPV. Mas a Aliança GAVI interveio para garantir que isto já não será um motivo de preocupação para a vacina VHB e que terá poucas probabilidades de o ser com a HPV.

Desde 2000, ano em que surgiu, a Aliança GAVI tem procurado aumentar o acesso das crianças pobres de todo o mundo às vacinas que salvam vidas. Em parceria com o Banco Mundial, a OMS, a UNICEF e a Fundação Bill & Melinda Gates têm utilizado ferramentas inovadoras de financiamento, de modo a arrecadarem fundos para os programas de imunização mundiais, enquanto negociam com a indústria para baixar os preços das vacinas.

Ao incluir a vacina contra o VHB, como parte de uma vacina pentavalente (cinco em um), a Aliança já facilitou a sua entrega às crianças de 70 países, como parte das imunizações de rotina. A Aliança está agora a trabalhar no sentido de tornar a vacina contra o HPV disponível para mais de 30 milhões de mulheres e raparigas de todo o mundo, que não tenham recursos financeiros, até 2020; como parte deste esforço, e coincidindo com o Dia Mundial do Cancro, lançou programas de demonstração em oito países em desenvolvimento.

Um conjunto crescente de evidências mostra que os benefícios das vacinas vão além da prevenção da doença e da morte. Também incluem a ajuda ao desenvolvimento cognitivo e à realização educacional das crianças, aumentando assim o potencial de crescimento económico dos países. Na luta contra o cancro, os avanços da medicina podem baixar preciosos pontos percentuais nas taxas de mortalidade, o que implica que a melhoria do acesso às vacinas pode ter um enorme impacto, reduzindo o número de casos futuros em países em desenvolvimento por apenas alguns dólares por dose.

As pessoas dos países ricos estão, sem dúvida alguma, familiarizados com a máxima “mais vale prevenir do que remediar”. Mas, dada a rápida disponibilidade de vacinas nos países desenvolvidos, o foco dos esforços de prevenção redireccionou-se para a mudança de estilos de vida susceptíveis de causarem o cancro.

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Enquanto isso, as pessoas dos países em desenvolvimento não têm acesso a ferramentas simples e eficazes para a prevenção de vários tipos de cancro mais comuns. Melhorar o acesso às vacinas é fundamental para enfrentar essa desigualdade mundial e reduzir o fosso cada vez maior entre ricos e pobres. Isto requer, em primeiro lugar, a dissipação do mito de que não se pode “apanhar” cancro.

Tradução: Deolinda Esteves